terça-feira, 31 de julho de 2007

Convidado: Miguel do Rosário

O leitor comum


Sinto-me um tanto metalinguístico, escrevendo sobre a escrita, mas enfim, se eu me divirto com isso, qual o problema? Iniciei há poucas semanas uma série de artigos sobre as novas tendências da ficção brasileira, polemizando com outro escritor. Meu colega de letras acusa o romance contemporâneo de ter enveredado por um caminho extremamente hermético, o qual, apesar de bem recebido por críticos e outros autores, afasta-o mais e mais do leitor comum.A teoria dele converge em favor de uma literatura mais aberta ao grande público, desenvolvendo melhores tramas, enredos mais consistentes e mais empolgantes. Eu acho importante ressaltar, no entanto, que o romance de história – em oposição ao romance de linguagem, joyciano - nunca deixou de ser produzido no Brasil. Marcos Rey, Sergio Santanna, Marcos Souza, Marçal Aquino, para citar apenas alguns, têm produzido narrativas mais ou menos lineares e acessíveis nos últimos 10 a 20 anos. Talvez ainda não tenham encontrado a fórmula do best seller, como o fez Paulo Coelho, para falar de um nativo, ou Dan Brow, para citar um americano, mas não creio que eles almejem apenas agradar críticos e outros escritores. Quanto à fórmula do sucesso, os autores citados sempre podem encontrar, num dia de inspiração excepcional, o enredo que galvanizará o grande público. Temos uma classe média leitora com mais de 5 milhões de pessoas. Um mercado promissor do qual, mais dia menos dia, alguém tocará o ponto G.Mas é verdade que a outra vertente, com textos fechados, densos, de difícil acesso ao leitor não especializado, contendo códigos e referências complexos, têm ganhado muito prestígio em anos recentes. Meu colega lamenta que esta vertente venha sendo tão incensada por crítica e Academia e dominando os cadernos culturais.Admito que fiquei confuso no meio dessa polêmica. Escrevi alguns ensaios contraditórios, acusando gregos e troianos e não tomando nenhuma posição definitiva. Mas como o tema continua me entusiasmando, decidi fazer mais um esforço para elucidar - para mim mesmo e quiçá para algum náufrago desavisado que ancorar por aqui - esse mistério. A literatura brasileira estaria se fechando em si mesma, tornando-se uma literatura de panelinha, distanciando-se do leitor comum? Para saber, resolvi fazer uma pesquisa empírica e ir em busca do leitor comum. Eu queria conhecê-lo a fundo (com todo respeito). Onde ele mora, em que trabalha, quanto ganha por mês, se toma Viagra, assiste novela, bebe vodka, fuma maconha e, naturalmente, o que esperava de um romance - eram algumas das questões que me vinham à mente.Inicialmente, havia decidido não procurar o Leitor Comum no mundo virtual. Queria encontrá-lo pessoalmente, ter um contato ao vivo. Mas depois de perambular por dias inteiros nas ruas do centro do Rio, infrutiferamente, resolvi apelar à rede para fazer a primeira abordagem. Abri uma página no Orkut intitulada "Sou um Leitor Comum". No dia seguinte ele apareceu, deixando comentários. Trocamos emails. Ele gostou da proposta e marcamos de beber uma gelada num barzinho da Riachuelo, Lapa.Cheguei um pouco mais cedo ao encontro, agendado para nove horas da noite. Sentei-me a uma mesa na calçada, uma dessas de plástico, com propaganda de cerveja. A cadeira também era de plástico, com braços e recosto. Prefiro essas às de metal, geralmente tortas e desconfortáveis. Era uma quarta-feira de verão. Fazia calor e as outras mesas estavam todas ocupadas por gente bebendo cerveja. A atmosfera lapiana, como de praxe, transpirava volúpia, me fazendo sentir um friozinho na barriga. Finalmente, eu pensava, excitado. Finalmente vou conhecer o Leitor Comum. Nenhum escritor brasileiro contemporâneo jamais o conheceu. Por isso não conseguem seduzi-lo. E assim ele continua comprando Paulo Coelho, Irving Wallace, Sidney Sheldon, e sei lá mais que besteirol.Em seguida, pensei melhor e concluí que eu estava sendo preconceituoso; que, se eu continuasse raciocinando assim, nunca seria capaz de compreendê-lo. Planejei iniciar, a partir do dia seguinte, um estudo sobre os livros mais comprados pelo Leitor Comum. Seria um suplício inominável, mas eu tinha que me esforçar, se quisesse de fato atingir o LC e ficar rico. Ainda me pesava na consciência aquele jantar na casa da minha mãe, em que o marido da minha prima fez um comentário entusiasmado sobre o Código da Vinci. Não consegui evitar um olhar de desprezo e o tom de voz escarninho. Ele ficou visivelmente abatido. Hoje, recordando a cena, ponho-me em seu lugar. Eu pensaria assim (se eu fosse ele): "olha só o pedante, como é patético, invejoso; como se ele fosse capaz de escrever um romance tão bom; como se fosse capaz de vender mais de 40 milhões de livros".A verdade é dura, mas precisamos encarar. Existe um déficit enorme de narrativa na literatura brasileira. Mesmo entre os medalhões, não temos nada de extraordinário em termos de trama. Além disso, o escritor brasileiro tem a mania de achar que, só porque leu muito, tornou-se superior ao comum dos mortais, quando, francamente, na maioria das vezes, suas leituras excessivas só serviram para lhe detonar a saúde física e mental. Veja os romancistas americanos: em geral são esbeltos, vigorosos, joviais, dão entrevistas na televisão, engajam-se em campanhas políticas. O Philiph Roth é uma exceção porque é judeu e os judeus são pessimistas – com fortes razões históricas para tal. Os escritores brasileiros, tirante o Marçal e o Reinaldo Moraes, costumam ser gordos, gagos, doentios, trêmulos, indecisos, apáticos, tímidos, com forte inclinação ao alcoolismo. Droga, estou generalizando, falando besteira, odeio isso. Apaguem da cabeça as últimas frases. Tenho que pensar mais claramente, mais cientificamente, se quiser de fato entender a cabeça do Leitor Comum - não é possível que...Com licença, você é o Miguel do Rosário?Olhei para o lado e para o alto e vi um sujeito mais pra baixo que pra alto, cabelo grande encrespado, bermudão colorido, havaianas, camisa branca - e um sorrisão imenso, desconcertante. O sorriso dele agarrava-se ao rosto como uma criança ao colo do pai, com fúria, medo, amor. Era um buraco, um abismo. Podia-se mergulhar naquele sorriso e se perder para sempre.Desculpe, eu pensei que...O apogeu do sorriso havia passado. Restava o seu crepúsculo, ainda glorioso, mas cuja luz declinava vertiginosamente. Um sorriso quase triste. Ele fez menção de se afastar. Eu o contive.Sim, sou eu. Desculpe-me, estava distraído. Você é o Leitor Comum?Levantei-me e estendi a mão. O sorriso ressurgiu com toda força, como um sol que desistisse de se pôr e voltasse, incoerentemente, a subir no horizonte. Ele aparentava uns trinta e poucos anos, tinha barba por fazer e parecia não ter muito dinheiro.Pode me chamar de Leco!, respondeu, apertando-me a mão com energia. Sua voz elevava-se no início das frases e perdia vigor ao final. Reparando bem, era mais pra baixo, um metro e sessenta e cinco, e pesava um pouco acima do ideal. Os traços eram bem comuns e, apesar do rosto marcado por cicatrizes de uma antiga doença de pele, possuíam uma distinção quase bela. Talvez (a razão dessa beleza canhestra) fossem os olhos castanhos claros, atentos, puros, alegremente desconfiados – como quem se diverte com seus próprios temores. Talvez fosse o hiato irônico entre os dois dentões da frente.Sentamo-nos. O garçom trouxe um copo para Leco e trocamos algumas frases sobre o calor, o bairro, nós mesmos. Leco enfim deu uma informação importante.Eu tenho um ateliê aqui quase em frente. Sou artista plástico.A frase gelou-me a espinha. Eu esperava tudo, menos um artista plástico. O Leitor Comum deveria ser engenheiro, funcionário público, professor, gerente de loja, dono de restaurante, estudante de medicina. Não podia ser outro artista. Consolei-me pensando que, ao menos, não era outro escritor. O consolo durou pouco:Eu cometo uns poemas de vez em quando, disse Leco, enchendo seu próprio copo, após ter esperado em vão que eu o fizesse. Fiquei constrangido de ter me esquecido desta óbvia delicadeza, e sorri sem graça, à guisa de desculpas.Verdade? Que livro você está lendo? perguntei, mudando de assunto. Enquanto enchia meu copo, refletia se cairia bem uma cachaça. O bar do Paulinho tinha uma excelente, por um bom preço. Eu estava com vontade de começar a beber a sério. Escuta, Leco, eu vou pedir uma cachaça. Você quer também?Bem, Rosário, preciso dizer uma coisa... Estou completamente duro. Sabe como é, vida de artista no Brasil é foda.Fica frio, você é meu convidado. Vamos beber.Pedi cachaça, depois outra - e depois outra. E mais outra.Aqui confesso o fiasco da minha empreitada, pelo menos até o momento. Eu e Leco bebemos cerveja e cachaça em grande quantidade, depois fomos a seu ateliê, quase em frente, e fumamos uns baseados. Havia trabalhos magníficos pendurados nas paredes, objetos que mesclavam materiais esdrúxulos: anúncios de igrejas evangélicas, placas de carro, bonecas de plástico, cabides, pedaços de computador e de celulares, e cada um tinha um tema, remetia a algum significado misterioso. Enquanto fumava, eu contemplava embevecido aquilo tudo. Pouco conversamos sobre literatura, e o pouco que fizemos não registrei devidamente, com certeza em virtude (melhor dizendo: pela falta de virtude) do excesso de substâncias bebidas e fumadas. Recordo apenas que ele disse estar lendo a biografia não-autorizada do Roberto Carlos. Tinha ficado curioso, só porque o Rei tentou proibi-la.Marquei de encontrá-lo em outra oportunidade, quando espero colher mais dados. Pra dizer a verdade, tudo isso aconteceu ontem. Até agora, o único resultado da minha pesquisa sobre o Leitor Comum, além de uma grande ressaca, é a impressão – pela qualidade da luz filtrada pela cortina - de que já são umas cinco da tarde e que faltei a todos os compromissos do dia.
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Miguel do Rosário tem 32 anos. Gosta de escrever sobre tudo e nasceu no Rio de Janeiro, não necessariamente nesta ordem. Lançou um livro intitulado Contos para Ler no Botequim e agora trabalha num segundo volume. Escreve para o oleododiabo.blogspot.com.

4 comentários:

Mão Branca disse...

neste conto o miguel encontra aquele a que tanto buscamos. é jóia.

Me Morte disse...

Muito bom teu texto. Eu vivo a procura do leitor comum, mas no meu caso é uma mera desculpa para passar boas horas bebendo. Nada melhor para me dar inspiração que uma mesa, um copo e um leitor/escritor ávido por histórias. Parabéns.

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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