domingo, 1 de julho de 2007

Os ultracaras

Ele nasceu para a música aos seis anos quando viu um mendigo tocando gaita. Chegou-se para olhar as feridas do maltrapilho, escutou a harmônica, cada nota conversava um assunto. Descobriu, batendo um graveto contra uma grade de ferro, os tons e os sustenidos. As oitavas aprendeu num colégio de música.

Formou uma banda. Cada amigo tocava um instrumento: Ruivo a bateria, Neto o baixo, Marcelo cantava, e ele próprio como guitarrista. As músicas compunha sozinho mas deixava as letras serem completadas por algum membro para dividir a autoria. Cantava melhor que o vocalista e era melhor baixista e baterista, mas sempre guardava espaço em cada composição para um solo do colega. Gostava de dividir as atenções, era generoso por natureza.

- Qual vai ser o nome da banda? – Marcelo perguntou durante um ensaio.

- Ultracara, tchê. – O sotaque forte de Ruivo impostava sua voz. – Afinal, temos um ultracara como líder. – Abraçou o Lucas.

- Não sou o líder. – Resmungou Lucky e dedilhou a guitarra num zunido mágico. – Sou só um membro da banda. – Sorriu sincero. – O guitarrista! – Concluiu. Gostava de ser humilde, era importante para sua alma.

O talento do guitarrista, a beleza de suas músicas e sua perfeita execução pela banda logo chamaram a atenção dos fans. No dia seguinte a um show que foi filmado por um nerdezinho que o espalhou pela Internet, a banda já era cult. Dezenas de emails, ligações na casa de Lucas e um agente batendo à porta com um contrato.

- Não assino nada sem os outros membros da banda. – Disse na primeira entrevista à televisão.

- E qual é o nome da banda? – Perguntou a repórter, evidentemente excitada com o rapaz.

- Os... ultracaras. – Lembrou-se da sugestão do amigo.

A ascensão foi meteórica. Levados para a capital, logo foram elevados à condição de mega-star. O primeiro disco já saiu com um milhão de cópias vendidas. A crítica adorou e o público, curiosamente, também. As várias vertentes da música se sentiam lisonjeadas pela banda.

- É rock, é heavy, é pop, é reggae, é genial, é a expressão da nova geração... – O apresentador do programa de maior audiência no horário nobre fez uma pausa para aumentar a expectativa. – Os ultracaras! – Berrou a plenos pulmões superado em seguida pela multidão no auditório.

Durante a apresentação, Lucky percebeu que a câmera focava apenas nele. Passou o resto do show abraçando os companheiros e chegou a atrapalhar Ruivo com as baquetas. Riram-se do erro.

Nas entrevistas, respondia a cada pergunta citando algo sobre os outros caras da banda, pedindo opiniões e ajudas para as explicações. Sua humildade o demonstrava gentil, o que aumentava o fascínio sobre a banda.

Fizeram uma turnê mundial, visitando quarenta capitais nacionais. A banda era aclamada em todo lugar que fosse. Eram convidados para as mais excêntricas e luxuosos recepções.

Poucos meses após o primeiro disco, o baixista adoeceu de gripe. No hora do show o empresário apareceu com três músicos especialistas para substitui-lo.

- Sem chance! – Decretou Lucas. – A banda só toca se estiver completa.

Não houve quem removesse essa idéia do guitarrista. Ele não admitia fazer o show sem algum membro titular.

- Mas os fans? E o show? E o investimento? – Desesperou-se o produtor do evento.

- Adie! – Finalizou. – Só toco com a banda completa.

E assim se fez. Os ultracaras só se apresentavam com a formação completa, por exigência do mentor da banda.

A mítica sobre o conjunto aumentou ainda mais sua fama. Boatos diziam que fizeram um pacto com o demônio que os impedia de tocar separados. Lucky colocava mais lenha na fogueira ao responder nas entrevistas que seu talento estava unido a forças sobrenaturais.

Um dia, voltando de um apoteótico show num estádio, a van que levava a banda capotou. Ninguém se feriu, apenas o Lucky. Mortalmente. Nem chegou ao hospital.

A comoção popular ganhou pompa de evento de Estado. Alguns presidentes compareceram ao enterro. Até um rei árabe. Os dois discos lançados bateram recordes de vendas. Os fans, órfãos, lamentavam o futuro da banda.

- Tudo se acabou! – Choramingou o empresário, triste pelos lucros que não ganharia.

- Bah, que nada. – Bradou Ruivo. – Lucky nunca admitiu que tocássemos separados. Ele morreu, sobramos nós. Vamos tocar. Honrar sua memória.

- Mas quem tocará a guitarra? – Quis saber Marcelo.

- Você. – Respondeu Neto. – Toque guitarra e cante.

A re-estréia da banda sem o genial guitarrista foi cercada de desconfianças. Muitos reclamavam que os outros membros estavam desrespeitando a memória daquele que sempre exigiu a presença dos companheiros para qualquer show. Outros diziam que era uma bela homenagem.

A banda subiu ao palco sem muito alarde. Cada membro tomou sua posição antiga no palco, respeitando o espaço do amigo falecido. No primeira música deixaram claro que Marcelo só faria o acompanhamento na guitarra, sem as peripécias de Lucas. O som estava bom, ainda que simples.

De repente, num vácuo da música, onde o guitarrista faria um tremendo solo, uma microfonia arranhou o ouvido de todos. Ela durou o tempo exato. Os músicos continuaram, na parte do segundo solo, a mesma microfonia.

Alguns fans se benzeram, outros babaram de prazer ao presenciar uma manifestação sobrenatural.

No momento do solo final, a banda se esmerou na parte da cozinha do som, fez a deixa e ... microfonia. Nos momentos certos até aumentou o tom. A platéia entrou em júbilo. O baixista se ajoelhou enquanto tocava, Marcelo cantava de olhos fechados. A imagem correu o mundo no maior efeito de divulgação da história. Foi um sucesso.

Ninguém viu o empresário com o microfone de Lucky encostado na caixa de retorno. Ele provocou a microfonia. Sentiu-se feliz por entrar nos momentos certos da música. Até desconfiou que Marcelo tenha percebido o que ele fazia antes de fechar os olhos. Nos anos seguintes colheu os frutos do inúmeros shows da banda, que aumentou ainda mais a fama pois angariou como fans também os espíritas, os magos, os ufólogos, os teólogos, os jedaístas e aqueles que tinham curiosidade com o inexplicável. Todos iam aos shows esperando uma nova aparição.

Naquela mesma noite, Wander, o empresário, pegou o violão novo, colocou as cordas, afinou e tirou uns acordes. Tocou com segurança.

- Que fera. – Exclamou. – Isso é força.

Ele nada entendia de música. No dia da morte de Lucas sentara-se para dedilhar um violão em homenagem ao amigo. Lucky era amigo de todos. As notas soaram fáceis, parecia que um dom havia lhe crescido, Wander compreendia agora a música e era capaz de formar acordes. Surpreso, logo desconfiou que havia algo por trás do novo talento. Ele usava um violão elétrico ligado à uma caixa de 240Wolts.

- Lucky? – Perguntou em voz alta.

Microfonia.

7 comentários:

Mão Branca disse...

hoje é domingo, dá para ler contos grandes. hehehe.

espero que gostem, tento terminar esta história há uns 10 meses. gostei do resultado, tá interessante (a mim, ao menos) pois não responde a duas perguntas: o empresário foi malicioso? e a microfonia foi sobrenatural? hehehe.

Me Morte disse...

O Empresário fez uma jogada de mestre, essa não é a função dele? Eu acho que matar uma banda por que seu membro principal morreu é muita sacanagem, e os outros profissionais? Se eu fosse empresária não teria essa idéia, mas se tivesse o faria com certeza. Ficou muito criativo, bem contado, cheio de surpresas. Mais um pra sua coleção.
OBS. Num país onde se vende "boquinha da garrafa" como água num deserto, muito justo qualquer jogada de marketing para manter no mercado músicos bons.

Ruy disse...

Muito bom de ler. Escrito com extrema competência.

Paulão Fardadão disse...

Bem bom sim, melhor q a média do q tenho lido nos posts da comunidade e do blog. Só q a resposta pra perguntas tá ali sim, não tá? Vai dizer q vc colocou e se esqueceu na seqüência?

Deveras disse...

Quem nunca quis ser um rock star que atire o primeiro cubo assombrado,rs

Maneiro, leve, a gente lê na boa esta parada. Parece até que que são os caras da quadra de baixo, que insistem em ensaiar até as duas da matina...

ficanapaz

Klotz disse...

Este é um dos seus melhores contos, afora os policiais. Interpretei que o empresário levou choque elétrico fatal no final do conto.

Giovani Iemini disse...

boa interpretação.
valeus as leituas, amigos.