segunda-feira, 16 de julho de 2007

Um novo sócio para Deus.


Há muito tempo estava distante. Quanto tempo? Nem ele mesmo o sabia.
E a vida sempre o levara a lugares inusitados que invariavelmente o deixava no nada e sem sair do lugar. E ela não se apresentava diferente agora. Mais uma vez encontrava-se sozinho já que nem Deus havia por si e, segundo sua percepção, "Ele" de fato nunca o acompanhara. Freqüentemente pegava-se perguntando o por que Deus desistira dele. Por ser um perdedor? Talvez o fosse e tanto ele quanto Deus sabiam que era um perdedor. Obvio, que essa conclusão é oposta ao pensamento cristão, onde dizem os ensinamentos que Deus sempre se posta ao lado dos desfavorecidos. E nisso ele não acreditava, apesar de ser este o discurso da igreja. Acreditava unicamente em coisas concretas e a partir de fatos reais procurava tirar as suas conclusões. E além dos mais, sempre fora assim, onde às ilusões e filosofices baratas submetiam-se aos fatos. Fora assim com as suas mulheres, com seus empregos e até com a pequena filha que nem ele e talvez nem Deus soubessem onde estava. Pensando na pequena, lembrou-se da última carta enviada por sua ex-mulher onde afirmava que estavam bem e que o ideal seria permanecer dessa forma. Dizia também que seria o melhor para menina. Como afirmar o melhor para a sua princesinha? Como poderia haver tanta certeza nisso? Bem, não era relevante já que havia se acostumado a ficar longe e, a última vez que estivera com elas fazia mais de dois anos. Da derradeira vez e, disso ele se recorda bem, havia sido o dia em que a procurara e pedira que reconsiderasse situação da qual não concordou. E era disso que ele se lembrava e, a impossibilidade de qualquer entendimento o fizera aceitar a decisão. E o emprego então? Aliás, a falta dele. Há muito que não conseguia algum trabalho digno que o eximisse de passar necessidades. E, também tinha a questão do dinheiro já que era aquele o último mês do recebimento do seguro desemprego. Poxa! Cinco meses desempregado? Tudo isso? E era esse o seu tormento e se não conseguisse algo urgente não saberia que rumo dar a sua vida. E era assim que se encontrava, sentado num dos bancos daquele parque acompanhado de todos esses sentimentos confusos, sabendo que as pessoas quando más, tem o poder de foder com a vida de um homem. Isso não queria dizer que a sua ex fosse uma pessoa má, isso não! De certa forma ao abandoná-lo ela o destroçara. Existia um coração, só não havia o sangue para bombeá-lo. Bateu a mão no bolso da jaqueta e retirou um cigarro do maço. Acendeu, tragou, e de onde estava avistou a cruz da Igreja de São Clemente, próxima dali. Como se fosse um videoclipe, olhou para a cruz e se viu em imagens truncadas que o remeteram a infância cristã. Como estivesse vendo à sua frente o padre Josias em seus sermões dominicais. Quanta tapeação! Quantas mentiras naqueles ensinamentos sobre os dogmas, carestias, crenças, irmandades e principalmente do tanto que haveria de se ter fé. Fé? Oras! Esta nunca o alcançara e nem ao menos lhe dizia a que vinha ou o que seria. Acabou o seu cigarro, jogou a bituca e ao se levantar sentiu as pernas levemente dormentes. Ritimadamente bateu-as no chão e caminhou pelas alamedas do parque. O cheiro do mato e a beleza das flores lhes trouxeram um certo conforto. Vencidas as pequenas alamedas, seguiu em frente na direção da cruz. Atravessou a quadra que separava o parque da Igreja e se viu diante do templo. Alguma coisa o fez entrar. Entrou e tudo estava calmo, silencioso. Percorrendo os corredores, inspecionou as imagens e elas lhes trouxeram uma certa angústia. E ele a sentia mas não destinguia o motivo e isso lhe pareceu a mesma coisa que não ter fé. Sentado num dos bancos percebeu alguns fiéis em fila da água benta. Instintivamente, sentiu sede e a sua boca reclamou por água. O líquido contido na pia não lhe parecia tão puro e talvez o estivesse contaminado por todos os pecados do mundo. Isso, de certa forma o preocupou. Mesmo assim não sentiu aplacado na sede e ela, zombeteira, o incitava; -Estás com sede, muita sede-. Observou o templo e ao não se ver percebido dirigiu-se a pia onde bebeu até saciar-se. Algo de espantoso acontecera e o seu corpo levitou em pleno ar. E foi assim que os fiéis o encontraram. Alguns pares de joelhos dobraram diante de si e, ele se tornou o alvo de adoração. Orações e aleluias sucederam e fiéis vindos não se sabe daonde aglomeraram-se e, todos dedicaram-lhe orações. As preces, aos poucos, foram perdendo espaço para as reivindicações. Os pedidos não tardaram. Ficou impressionado e confuso com enxurradas de “Me dê isso, me dê aquilo, me dê saúde, me dê dinheiro” E as súplicas se tornaram tantas que ele nem mais se dava ao trabalho de memorizá-las. Aquilo o irritava profundamente à medida que as súplicas tornavam-se ensurdecedoras e insanas. O sangue lhe subiu à cabeça e foi impossível controlar-se:
-Calem-se! gritou.
E o silêncio veio, sepulcro e inexorável.
Ali, flutuado no nada, meditou. Sim! De certa forma a fé tinha lhe tocado.
Mas,ela seria tudo? Meditou novamente. Terminado e com os olhos direcionados à cúpula, se justificou:
-Táquepariu! To fora! O que o SENHOR está querendo é um sócio!

Acordou apavorado. Olhou o relógio e passava da meia noite. Ainda assustado pensou em tudo, e a sensação obtida tinha sido tão real que, por momentos, imaginou que houvesse acontecido. Ali, deitado na cama, olhando o teto, imaginou-se naquela loucura toda. Mas, o bom senso lhe dizia que era tudo tão absurdo e, a hipótese de ter estado naquela igreja, ainda mais pairado em pleno ar soava à insanidade. Riu de si, levantou-se, e foi à cozinha e do fogão retirou uma panela e sorriu ao ver os desbotados coxas de frangos adormecidas acima do arroz. O contraste das cores entre o branco do arroz e o bege das coxas lhe pareceu estranho. Revirou a comida e ela não lhe apeteceu, o que indicava que estava sem fome. Abriu a geladeira e retirou a meia garrafa de vodca. Despejou a bebida num copo e voltou para o quarto. Pensou no aluguel e que não haveria dinheiro para saldá-lo. Uma única opção entre comer ou pagar o senhorio. Evidente, ele preferia alimentar-se. Sorveu a bebida em tragos generosos, imaginando a forma de se ver livre dos problemas. Caminhou em direção da janela e deu o último gole debruçado no parapeito. Novamente pensava no aluguel. Inclinou ainda mais o corpo e o tórax avançou janela afora e então deixou o copo escorrer por entre os dedos. O som do vidro se estilhaçando na calçada pareceu incomodar o silêncio da noite. Lá fora, olhado da janela, quase não se viam farois e, vez ou outra algum exibicionista acelerava o motor do seu carro. Voltou para a cama, agasalhou-se no ralo cobertor e tentou não pensar em nada. Fitava o teto e nada existia que não fosse a negritude do quarto. Talvez tenha durado 15 a 20 minutos até seus olhos se fecharem. Segundos após um ressonar se ouviu. Era um sono de ansiedade, de dúvidas que fatalmente persistiriam ao amanhecer. A fé, talvez houvesse morrido, ele, ainda não.

6 comentários:

Marco Ermida Martire disse...

Boa, Véio! Esse é de uma fôrma diferente a sair de seus dedos. Tem uma preocupação angustiada com o ser humano, menos humor, mais humanismo. Eu cortaria algumas frases e o tornaria menor.

Ruy disse...

Tá muito bom isso, véio. Chega a arrepiar em algumas passagens. Como diria um amigo: Difudê!

Thin White Duke disse...

porra Véio, mto bom mesmo! o final é sensacional! a parte que os fiéis vão seguí-los me lembrou do filme de Mont Phyton, a Vida de Brain, que ele é confundido com o Messias... mto bom mesmo véio,
Difudê!

flew!

Me Morte disse...

Nos sonhos nos permitimos tudo, até as descrenças. Eu gostei. Concordo que possa ser sugado em alguns pontos, mas em geral tá bem legal. O pensamento fluiu de maneira positiva, fez bonito Véio.Difudê,rsss

kiki disse...

Véio, Véio.

Tu anda encomendado a tua alma?

Ultimamente tenho notado sua preocupação com as coisas do outro plano.

Poderia ser menor, não?

Tá mais ou menos.

Mão Branca disse...

hehehe, comentário crítico do kiki ao velho é demais!