domingo, 5 de agosto de 2007

Compromisso com a editora

Sexta-feira é dia de entregar meu texto à editora. Até às 16:00h. Terrivelmente. I-na-di-a-vel-men-te. Im-pre-te-ri-vel-men-te.
Às vezes o sangue substitui o suor na testa .
O ponteiro dos segundos parece fazer mais barulho que o tchuco tchuco do trem. O tempo avança impiedosamente como um carro fórmula 1.
Cumpro religiosamente minhas obrigações contratuais. Toda semana um texto de uma lauda, no mínimo 1.300 caracteres com fonte Arial tamanho 14, distribuídos em no mínimo e no máximo 32 linhas de espaçamento simples.
O pior de tudo é que deve haver coerência no texto. Tem que ter começo meio e fim. Fim forte. Fim significativo. Final com chave de ouro. Fim que resuma e encerre uma idéia desenvolvida ao longo daquelas trinta linhas.
O tempo passa e nada de vir a idéia salvadora. O que vi na televisão? O que li no jornal? Será que nada me inspira a escrever?
O tempo. O tempo passa e só consigo pensar na moça do tempo. Sol! Que pernas! Que decote!
– Idiota, o tempo está passando e a hora fatal está chegando. Aquela sim é que é uma fêmea fatal!
O pior de tudo é que antes do final fantástico, tenho que primeiro encontrar um começo. Um começo arrebatador que agarre o leitor na primeira linha. Tem que ser algo que atice a curiosidade. Pode ser o velho, mas com roupagem atrativa. Tem que ter pernas de fora, tem que ter decote. Não pode mostrar tudo. É para isso que serve o recheio do texto. O meio do texto deve fazer o leitor permanecer ligado. Sem falsos recheios siliconados. Senão o leitor pode abandonar tudo. O leitor deve ficar entusiasmado, excitado, com vontade. O final será o clímax.
Se conseguir, o leitor voltará na semana seguinte procurando o mesmo quarto de página do jornal querendo mais e mais e mais.
Conto as linhas, vejo as horas. Aleluia ! Consegui!

16 comentários:

Me Morte disse...

Caralho! Eu quero ler! rss
Me deixou com água na boca para ver o texto. Gostei Klotz, também prefiro vc na horizontal, coincidência não é mesmo?
Beijos

kumka disse...

Deve ser uma agonia, né Klotz?? Em Porto Alegre, tem um jornalista que admiro muito, o Juremir Machado da Silva, ele escreve uma coluna pro Correio do Povo, acompanho sempre, adoro ele de montão e um dia eu pensei: Como ele consegue ter inspiração pra escrever duas colunas por semana, sem que eu perca meu interesse? Pois logo depois, ele escreveu uma cronica sobre a pressão de fazer a coluna e também sobre a pressão de se fazer agradar. E quem gosta, é fiel, tá sempre lá, mesmo que o escrito do dia seja simples, uma lembrança de infância a gente lê e gosta, é como se o jornalista já fosse da família da gente.

Bjs! (k)

Deveras disse...

Maneiríssimo. Uma pequena aula de como se escrever um texto. E nem precisou de mais espaço do que deveria (tipo um cara que botou uma enormidade ontem.... sujeitinho! rs).


Grande Klotz, fechou com chave de ouro! (ah, têm o telefone desse pitéu do tempo?)

ficanapaz!

Lameque disse...

Uma descrição bem humorada e, no caso do Klotz, sempre elegante da síndrome do cronista. O pânico da falta de assunto nos atormenta. Passo por isto, embora o meu compromisso editorial seja ainda comigo mesmo.

Beleza de texto.

Klotz disse...

Obrigado pelos comentários.
Eu produzo muito pouco. Além de produzir pouco costumo produzir sob pressão. Então a namorada me provocou “exigindo” ao menos um texto semanal. O que gerou esta crônica.
Imagina ficar o fim-de-semana sem um beijim sequer?
E tome texto.

Escrivinhações do Feuser disse...

A obrigação de escrever muitas vezes contrasta com a mente vazia. Mas, com o tempo aprendemos e torna-se um doce vício.
Bom Sr. Klotz

Me Morte disse...

Paulinho não está conseguindo postar um comentário e me pediu que fizesse por ele:



paulinho:
Comentário para o Klots.
Amigo Klotz, o simples em suas mãos se transforma em algo assustador de tanta beleza. Confesso que me senti preso a lê-lo até o fim, talvez pela simplicidade do texto.
Parabéns amigo!

lena casas novas disse...

Prendeu-me desde a primeira linha.Sei o que é ter compromisso com textos, com objetivos, com meta! E o tempo é marvado. Muito boa essa crônica, vou tentar sempre deixar minha presença em seus textos.

Flávia Valente disse...

Muito bom! Me sinto assim quando tenho a obrigação de produzir... dá um branco!

Marco Ermida Martire disse...

Parabéns, Klotz. Pressão transforma carvão em diamantes. E vc conhece os segredos do ofício.

Véïö Chïñä‡ disse...

Caracas!

Agora sim eu imagino como deve sentir-se um escritor com agenda de compromissos a serem cumpridos. Só o fato de ter a responsa no e-zine e no blog do Bar já me deixa nervoso....

Imaginando aqui como eu seria com o editor. Será que a pressão seria tanta que o mandaria tomar naquele lugar? não sei..seria de avaliar.

Bom texto, Klotz.

Leonardo Quintela disse...

sob pressão sai pérolas como essa, que embora muitas vezes, pelo menos pra mim, pensamos num assunto e escrevemos outro...
Muito bem, Klotz!

liz / Betty disse...

mto legal... é assim mesmo!

E Luiz Martins, q escreveu UMA CRÔNICA POR DIA, durante 34 anos??? e nas quartas-feiras, duas.
Pro Estadão.

Fernando disse...

Mestre Klotz, todos os elementos citados no texto são mesmo quase sempre muito bem-vindos...

Mas seu talento foi o bastante para nos prender agora - não precisava ter fim espetacular; na verdade, não precisava ter fim.

Orgulho!

Larissa Marques disse...

Ah, a agonia do escritor pressionado, muito bom, adoro suas crônicas, quando eu crescer quero ser parecida com você!

Anônimo disse...

Outro dia escutei alguém falando que todos os cogumelos são comestíveis. Porém, alguns são comestíveis apenas uma vez. Enfim, na vida não existe prazo pra nada. Você é quem decide. Porém, esse poderia ser o último texto sem prazo, certo?

Vida sem prazo expira.

Michele