segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Recanto

Acordou com uma dor de cabeça terrível, parecia que pesava toneladas e que se afundava no colchão, os lençóis estavam macios e cheiravam bem, negava-se a abrir os olhos, pois a luz incomodava, mas ouvia o barulho de ondas e de pássaros, não se lembrava de estar perto do mar. Poderia ser um sonho ainda, apertou os olhos, mas o som parecia ecoar em sua cabeça, repetidamente.
César a olhava da poltrona, que estava próxima da janela, não conseguia vê-lo direito, por causa da claridade que vinha de fora e invadia o aposento, mas era ele e podia senti-lo invadindo seus sentimentos mais secretos. A luz intensa feria-lhe os olhos e os pensamentos, inutilmente tentou cobrir o rosto com uma das mãos.
O ventilador girava lento, como sua cabeça, estava atordoada.
_Enfim, de volta a vida, minha querida. Sente-se bem? - perguntou enquanto se levantava e agora ela podia ver seu rosto, sua feição carinhosa
_Quer que eu ajeite seu travesseiro, que peça seu café?
_Não precisa, estou sem fome, sente-se aqui, - dizia, batendo a palma da mão de leve sobre a cama, _Estava com saudades de você, quero seu colo.
Ele sentou-se no canto da cama e ela recostou-se entre suas pernas, enquanto recebia um afago nos cabelos.
Quando ficava assim, sentia-se uma menina, ele era sua referência e mesmo quando não estava presente, tinha o poder de acalentar seus medos. Era o único homem que tinha contato íntimo verdadeiro, a conhecia como ninguém.
Um entendimento mútuo pairava sobre os dois, algo intocável, imaculado, se entendiam sem precisar de explicações.
Os pensamentos de Cecília estavam confusos, iam e vinham como as ondas e só queria ficar ali, congelar aquele momento de quietude que abrandava suas dores, suas insatisfações. Mas sabia que em algum momento teria que enfrentar de novo a realidade e tudo aquilo a deixava ansiosa e infeliz, melhor seria aproveitar a calmaria do momento.
_Quer um cigarro? - ergueu o braço e alcançou o isqueiro e os cigarros no criado mudo.
Acendeu o cigarro e entregou a ela. Cecília observava o comportamento de César, gentil, com aquele jeito de menino que nunca abandonara seus sonhos, mesmo sendo um adulto, era amável e nunca ouvira dele uma palavra aguda ou uma repreensão por seu comportamento descontrolado e impulsivo.
Cada trago aquecia seu peito, enquanto as mãos cuidadosas dele ainda a afagavam, as ondas por certo contariam segredos e ela não passaria impune por aquele momento. A fumaça bailava branca, como uma daquelas cortinas de seda fina, ao sabor do vento.
Sentia a respiração dele e por estar recostada entre suas pernas, sentia o desejo que despertava, mas preferia ficar quieta.
Pela porta de vidro que dava para o mar ela olhava o mar, as ondas iam e vinham, revirando a areia da praia.
_Porque estou aqui? - perguntou quase em um sussurro e ele não respondeu.
A fumaça descortinava-se em seus olhos e por alguns instantes tirou-a dali.
Então lembrou-se das brincadeiras no lago, dos banhos que tomavam juntos quando criança, da primeira vez que sentiu vergonha de sua nudez e da maneira que ele a abraçou sem nada dizer, mesmo que soubessem que a vergonha era recíproca. Depois desse banho, nunca mais teve pudores com ele.
Lembrou-se da casa do sítio, da muralha de pedra que cercava a sede, dos animais pastando naquela imensidão verde e da guerra de estrume que faziam e gargalhou.
_O que foi? - perguntou César, sem entender o motivo do riso.
_Apenas me lembrava da casa do sítio, das guerras de estrume.
_Sim, e a Boneca, passávamos horas cavalgando...
_Mas quando voltava para casa eu levava bons cascudos, por deixar a pobre tão cansada.
Entregaram-se ao som do mar mais uma vez. O som compassado trouxe muitas recordações, quase alucinações de seu passado.
Viu o pai abrindo os olhos e sorrindo, dentro do caixão, a filha morta por baixo de seu seio, viu-se sendo arrastada para o sanatório, os abusos que sofrera lá, a fuga, os pés em carne viva, um vento frio percorreu sua espinha tomando seus olhos e como nas tardes de tempestades, nas noites úmidas e escuras no sítio, ela se escondeu como uma menina assustada, por entre as pernas de César.
_Minha querida, está se sentindo bem?
_Não, não estou bem, mas fique aqui comigo, preciso de você.


(texto editado originalmente em: http://insanoeprofano.blogspot.com/ )

7 comentários:

Marco Ermida Martire disse...

Texto sobre intimidades são sempre difíceis de escrever. Requerem uma insuspeita franqueza e um clarão de sentimentos pra que funcionem. Este é um exemplo.

Deveras disse...

Contos como este passam a idéia de um intimismo muito grande. O final demonstrando o sanatório e o passado recente da protagonista ficou ótimo... Mandou com muita convicção.

ficanapaz

Muryel De Zoppa disse...

é tão bom (re)ler Larissa.

Lameque disse...

Os contos da Larissa são intimistas, profundos mas não deixam de ser cativantes.

Klotz disse...

A gente termina a leitura de Larissa, o refletir continua.
Com Larissa nada é pão pão queijo queijo.

Larissa Marques disse...

Obrigada a todos pelo carinho, isso me faz acreditar um pouquinho em minha insegura prosa, obrigada mesmo!

Larissa Marques disse...

Vale elmbrar que a personagem não sou eu, ouvi um amigo dizer que Franz Kafka dizia que um texto só fica bom depois que o autor o lê e não vê nenhum resíduo seu no enrede, assim é esse meu texto.