segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O Galinheiro e o Fim do Mundo.

O galinheiro amanheceu num verdadeiro pandemônio.

-Que é da ração! - bradou a franga mais tenra do viveiro.

Todo o galinheiro convulsionou, entre cacarejos e esvoaçar de penas.

Sim, a ração! Era trazida ali todos os dias, religiosamente, antes dos primeiros raios do sol. O serviçal da fazenda não faltava nunca!

-É o fim! - berrou outra galinha, tomando o poleiro mais próximo de si. A velha anciã já nos tinha dado esse terrível vaticínio.

Ela se referia a uma galinha muito velha, que miraculosamente escapara da panela até então. Vivia nos cantos do galinheiro, decrépita, ciscando com dificuldade, e fazendo suas profecias nas horas vagas.

"Haverá fome, muita fome. Uma tenra franga dará seu primeiro cacarejo. E então será o início do fim".

O vaticínio era quase uma centúria de cacarejos, repleta de cantos, quadras, métricas e imagens tétricas - atentai a rima despretenciosa. Falava de tríduos trevosos, moléstias galináceas, estremecimentos de poleiros e, por fim, um ataque coletivo dos deuses - dizimando uma civilização de penosas que já completava cinco gerações!

Tudo parecia prestes a cumprir-se.

O galo, mais que todas as fêmeas, corria acovardado, sem rumo, atirando-se contra a tela e cacarejando desesperadamente.

Ele lastimava o fim do seu império patriarcal. O fim das cópulas, das cloacas, da sua bela e altiva crista.

-Não poderá ser verdade! - ele soluçava, lembrando-se do verso da profecia que falava de um tal "galo degolado diante das suas amantes, apavoradas, e levado a morada dos deuses famintos".

A essa altura, todo o galinheiro esvoaçava apavorado.

-É o fim!

O serviçal, assustado, veio célere, trazendo um balde de ração à mão, a abotoar as calças com dificuldade.

Despejou a ração no cocho. Experimentava forte desidratação.

Num instante as galinhas saltaram sobe a ração, aliviadas e famintas. O galo estufou o papo, já esquecido das suas manifestações jocosas.

Já não se lembravam mais da terrível profecia.

2 comentários:

lena casas novas disse...

O Título de cara já mostra que coisa boa por aí. E claro, uma narrativa alinhada, com concordância perfeitas. Parabéns!

Angela Gomes disse...

ótima fábula.