sábado, 8 de dezembro de 2007

O Homem de Boa Vontade




– Está bem –, disse o Diabo. – Você venceu. Eu dou o que você quer.

– Venci o quê? E por que você acha que sabe o que eu quero?

O Demo parou de lixar as unhas e sentou-se sobre a tampa da privada. Olhou fundo nos olhos do homem.

– Eu sei –, garantiu.

Justo desviou o olhar. Suspirou e enxugou as mãos sem pressa, com gestos precisos e lentos. Lentos demais, como é do feitio dos justos.

– E o preço, claro, é a minha alma?

– Justamente –, o Demônio concordou, enquanto examinava as unhas com atenção. E viu que estavam bem aparadas e lisas, e viu que aquilo era bom.

Cruzou as pernas, apoiando o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo. Começou a lixar o casco e logo parou:

– Não tem uma lixa mais grossa?

Justo suspirou e tirou da gaveta um pedaço de pedra-pome que entregou ao Belzebu, desprendidamente. Teria que comprar uma pedra nova para sua mulher, não queria que ficasse dividindo com Satanás objetos de higiene pessoal.

Preparou-se para ouvir a proposta.

Mas sabia com serena certeza que nada neste mundo faria com que se rendesse ao Coisa-Ruim. Nada almejava: nem fama, nem riqueza. Saúde tinha de sobra. Se a perdesse, paciência. Um dia a saúde se vai, mesmo, para todos os seres vivos, está escrito, maktub.

Nem a posse do corpo da mulher amada, nem dominar todo o conhecimento da humanidade, nada seria tentação suficiente para ceder um milímetro em suas convicções.

Nem a imortalidade, que sabia que não lhe seria oferecida: afinal, como o Diabo poderia reclamar o que lhe é devido, se os vendedores de alma parassem de morrer? Mas não, nem isso ele aceitaria: não trocaria a Vida Eterna pela imortalidade.

O Tinhoso jogou no lixo a lixa, que caiu ao lado da lixeirinha de junco, sobre o piso de ladrilhos em cujo desenho se encaixou com perfeição, como um detalhe que o designer se esquecera de acrescentar naquela antes quase perfeita geometria e agora, por fim, completa.

– Fala! Diz logo o que você acha que eu quero! –, exasperou-se o homem, nu, porque no momento em que o Senhor das Trevas se materializara em seu banheiro tinha acabado de abrir a porta do box para um chuveiro rápido.

Pensou que se as torneiras ficassem na parede lateral seria bem mais sensato... Não precisaria molhar as mãos ao abri-las, antes de a água se aquecer. Seria muito melhor, ainda que os canos tivessem que percorrer um caminho mais longo e provavelmente tortuoso.

O Capeta examinava com ternura a pedra-pome:

– Isto veio lá de casa...

– Sim, sim, é pedra vulcânica, é lava. Eu sei. Pode levar de volta, é sua!

E como o Coisa-Ruim não se decidisse a falar, concentrado que estava em alisar o casco, Justo pressionou-o, abrindo os braços:

– E...?

– Não adianta. Preciso de uma lima.

Satã guardou num bolso interno da capa escarlate a pedra que lhe pertencia.

– Não tenho lima! –, exasperou-se o homem de boa vontade.

Começava a compreender o poder da criatura infernal. Estivera a ponto de perder a paciência. Controlou-se:

– Já aviso que não quero nada.

– Ah, quer! Quer, sim! E quer muito!

Pelo vitrô, vinha o som de musiquinhas natalinas, da casa do vizinho.

– Tá. E como você sabe o que eu quero?

– Você disse ontem, no bar. Eu ouvi.

O homem se viu sem palavras, ali, no meio do banheiro iluminado pela luz avermelhada da tarde de verão, nu enquanto o sol se punha. Não se lembrava de ter dito nada a ninguém sobre desejos ocultos, vontades, apetites, anelos, aspirações inalcançáveis. Era um homem discreto, pouco expansivo, no bar apenas sorria sobre o copo, enquanto os amigos falavam, riam, xingavam-se alegremente.

– Diga logo, então, que inferno! O que eu quero, afinal?

– O que todo homem de boa vontade quer –, replicou o Diabo, faceiro, orgulhoso por ter levado aquele homem a praguejar. E diante das sobrancelhas intrigadas do interlocutor, acrescentou, quase levianamente:

– A paz na Terra.

O homem bom ficou mudo diante da oferta. Depois de instantes, balbuciou:

– Você pode conseguir a paz na Terra?

– Claro. Se não pudesse outorgar o que ofereço, eu não estaria aqui. De que me adianta fazer uma oferta que não posso cumprir? Se eu não entrego o produto, e tudo direitinho, de acordo com as especificações registradas nas linhas tortas deste documento (exibiu um pergaminho enrolado que retirou de outro bolso da capa cor de púrpura), você não me deve nada... E não me paga, certo? O que aqui está escrito, maktub, será o nosso trato, justo e contratado.



Pela janelinha do banheiro, Justo viu o sol rubro de dezembro reproduzir com perfeição a íris dos olhos do Anjo do Mal, que lhe lembrou:

– Você disse que daria tudo, que daria qualquer coisa que estivesse ao seu alcance para conseguir a paz entre os homens.



Diante do silêncio de Justo, o Demo elaborou:

– Todos dizem isso, mas é da boca pra fora. No seu caso, eu sabia que estava ouvindo um homem de palavra. Pensa que não me informo? Lúcifer sabe o que faz.

O homem de palavra continuou sem palavras. Mas que presunção, a daquela criatura!, pensou.

– Não dou ponto sem nó –, concluiu o Canhoto.

A oferta era insuportavelmente tentadora. Justo sabia disso. O Diabo sabia também.

Era uma pechincha, era muito barato. Só uma alma, uma apenas, em troca da Paz no mundo? Uma só alma: justamente a dele!

Justo aceitou. Rendeu-se sem arrependimento.


– Todo homem tem seu preço –, filosofou Satanás, enquanto saía, contrato enrolado na mão direita, assinado com sangue bom; mão esquerda coçando um chifre, na perplexidade que sempre o acomete depois de concluir um negócio.

6 comentários:

Jarbas Siebiger disse...

Instigante e intrigante conto. Prende, sem dúvida. Quem lê o leva consigo.

Mago Eremita disse...

Muito bom este texto.

a narrativa paralela, matreiramente despretenciosa, simultaneamente ao trato da grave questão da barganha, o suspense, a impaciência da personagem, tudo faz do texto uma crianção digna de mérito.

Paulinho Bomfim disse...

Nossa que papo filosófico, rsrsr
Lembrou-me Fausto, gostei muito linda liz, parabéns!

Gostei muito da parte que filosófica da torneira do chuveiro, rsrsrsrs

Zé Luiz disse...

É um dos melhores textos que tenho lido.

O paradoxo de a Paz na Terra vir pelo diabo é altamente criativo.

As sequências do demo aparando os cascos é sensacional.

Mauriciog disse...

BEDELHO: que Deus me poupe de meter o bedelho onde Liz, com aldrava e básculo, elaborou refinado mefistófeLIZ de casco polido. Vocês sabem que ela é minha excritora favorita.
WOLF MEROV

Iriene Borges disse...

Nunca dei muita atenção ao seus contos Liz. São seus peomas q adoro. Mas lendo dois contos de uma só tacada percebo q a sua escrita conduz minha imaginação da forma q gosto: segura, tranquila, mas pelo caminho estreito! rs

parabéns.