terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A CIGANA

Num instante os ciganos se instalaram no descampado. E, sem demora, aquele pedaço de chão tornou-se colorido, azafamado, ganhou uma vitalidade burburinha típica desse irrequieto povo nômade.

Ele morava numa herdade, ali bem próximo. E, um tanto aborrecido, teve de resignar-se em ver as tendas toscas diante de si, todas as vezes que vinha à janela ou à porta.

Afinal, aquela terra não era propriedade particular.

Após algum tempo, já se habituava àquela presença bizarra. Sabia ser efêmera, os gitanos nunca páram.

Até que, certa manhã, numa das tendas, viu uma cigana sentada, imóvel, a fitar demoradamente sua morada.

Ele estacou, surpreso.

Era belíssima. Uma beleza selvagem, revolta, nos olhos todo o misticismo de um povo mergulhado na sensitividade. No semblante a simetria, o encanto, a lucidez e magia das mais estonteantes mulheres.

Era um homem experiente. Conhecia a fundo a estética feminina. E convenceu-se, sem dúvidas, sem hesitações, sem qualquer reserva, de que nunca, em toda sua vida cheia de amores, de conquistas, de paixões intensas, nunca avistara mulher tão incrivelmente bela.

Uma jovem cigana.

Não se conteve. Vasculhou com os olhos as tendas. Todo o clã parecia ter se ausentado. Aparentemente, só restara um velho, numa tenda do lado oposto, mergulhado numa senil sonolência.

Ele aproximou-se. Fez um sinal em reverência. A jovem nômade fitava-o, olhos penetrantes, sem desviá-los um momento sequer.

Como era bela! E tal qual a presa magnetizada diante do predador, veio até ela, revestido de uma intrepidez incomum em si. Enfrentaria tribos e mais tribos de ciganos, empunharia punhais, lançaria duelos, suportaria as temíveis pragas das velhas ciganas.

Ela estendeu o braço, pedindo a mão dele em palma. A buena-dicha. Fazia parte da natureza dela. A quiromancia, entre seu povo, era quase uma saudação.

Ele entregou a mão, solícito, entorpecido diante de beleza tão invulgar. E acocorou-se diante da beldade, para melhor poder servi-la.

A cigana abriu um pouco as pernas, acomodando um pouco mais os quadris sobre a trípode.

Nesse instante, ele quase caiu fulminado.

Um odor pestilencial chegou, numa forte lufada, até suas narinas. Sentiu que ia tombar. A visão turbou-se. Uma névoa espessa toldou-lhe o raciocínio.

A menina cheirava mal, Um fedor carregado, pútrido, mefítico. Lembrou-se num momento dos mercadões de peixe em decomposição, inundando o ar com seu odor carregado de azedume adstringente.

Saiu dalí tenteante. Ganhou terreno mais aberto. Sorveu o ar puro com sofreguidão.

Não se recordava mais do que lhe vaticinara a jovem quiromante. Ainda olhou para trás. Bela, tão bela como nunca vira mulher alguma em toda sua vida. Toda sua silhueta transmitia uma imaculada nobreza.

Ela agora sorria, mui discretamente sardônica. Mais que qualquer gaja, ela conhecia, mesmo jovem, as ilusões da matéria.

19/01/2007.

Um comentário:

giselle sato disse...

Muito bom, final inusitado.