segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O escritor e as línguas

Há uma matéria prima que merece respeito religioso por parte do escritor: a língua. A língua não é apenas uma ferramenta de comunicação; ela é de um povo um símbolo por si só e um conjunto de símbolos que mostra em grande parte o modo como aquele povo define a realidade e o imaginário à sua volta – a língua é a própria cultura do seu povo.

Quantas línguas existem no mundo? Tantas quantas forem as diversas formas de a humanidade vê-lo. Se existem 7.000 línguas, então existem ainda mais de 7.000 maneiras de compreender as coisas ao nosso redor. As línguas, então, são também o símbolo da nossa diversidade e do quão ricos seríamos culturalmente.

Hoje e desde sempre há um desrespeito geral e, em muitos episódios de nossa história, silencioso em relação à questão das línguas. Muitas vezes esse desrespeito torna-se tão sutil, que muitos o praticam sem saber e tantos outros o estimulam, mesmo quando conhecem suas conseqüências ou até mesmo porque as conhecem.

Temos diversos exemplos ao longo da história humana de algumas poucas línguas que cresceram e outras muitas que sumiram. Com o crescimento das primeiras, tivemos, sim, certas vantagens, como uma comunicação mais generalizada, mas com o desaparecimento das segundas, quanto não teremos perdido?

Os escritores, amadores ou profissionais, amantes das letras, são, talvez, as pessoas que mais próximas estão das línguas como matéria palpável, possível de carinho ou violação. No entanto, nem todos sequer perguntaram a si mesmo o que pensam sobre a questão das línguas.

Devemos nos conformar com a supressão de uma língua sobre várias outras, encarando-a como processo natural? Devemos lutar contra esta supressão? Como devemos encarar a evolução das línguas? Será passível de controle uma evolução assim? Tudo isso não contém uma simples gramática! São necessárias teses e teses para que enxerguemos o todo de tal problema – e na construção dessas teses muitas ainda se contradirão. Mas é, sim, possível, e até conveniente, que os escritores, nas academias ou num bar, discutam a questão.

Atualmente, o mais discutido fato no mundo das línguas é, sem dúvida, a situação do inglês perante todas as outras mais de 6.000 línguas que a humanidade, por direito, pode falar. E no que concerne aos brasileiros, perante o nosso português do Brasil.

Da mesma forma, também podemos fazer um análogo, dentro do nosso universo, da situação entre esta língua e as línguas indígenas de nossos compatriotas (também nossas). Em todos os casos, há muitos problemas – uns mais visíveis, outros menos – envolvidos nesta relação; e poucas soluções.

Quanto ao inglês, hoje em dia os jovens brasileiros – e também os velhos – são obrigados, sem direito de escolha, a aprender a língua da Rainha Vitória nos moldes do Tio Sam. Há um consenso geral sobre a importância do inglês, e às vezes essa importância é tão elevada, que chegamos a amar a língua bárbara sem percebermos. E esse amor evolui a tal ponto, que nossa própria cultura torna-se-nos estranha. Para os escritores, esse é um grande perigo. A partir do momento em que essa tragédia ocorre, ou seja, a partir do momento em que negamos que o reflexo no espelho da língua somos nós mesmos, deixamos os escritores de representar uma cultura, passamos a ser planetas sem estrela que nos assegure uma órbita. Isso porque não nos tornamos incapazes de escrever – ainda escrevemos, mas sobre e por símbolos que não conhecemos, e nossa arte é, portanto, negada por todos.

Hoje, muitos jovens escritores no Brasil sonham em produzir nos moldes da subcultura dita americana, entenda-se exatamente como os estadunidenses e para os estadunidenses. Restarão no limbo. Pois o que produzirão será medíocre aos nossos olhos e aos olhos deles.

Nesse sentido, o escritor brasileiro esclarecido deve entender a sua cultura, evoluí-la, divulgá-la, escorrê-la. Mesmo para renovar ou inovar, é preciso que o escritor conheça o “material” com que a todo tempo lida. E se avance para além de outras culturas, também o conhecimento de sua própria cultura é fundamental, pois o que mais se espera de um escritor transnacional é o alcance de uma universalidade fundamentada na fusão da diversidade. Só assim é que nós, escravos e escravas das letras, permitiremos que nossa cultura continue senhora de si mesma, não cega às outras senhoras, mas digna de andar com elas no mesmo salão, com a mesma força e presença.

Do mesmo modo, se não somos hipócritas, devíamos também cultivar as outras línguas que, por direito, são nossas e de mais ninguém. Se não os brasileiros, quem cuidará das nossas línguas indígenas? Hoje nos perdemos nos encantos do português de Machado, mas quantos conhecessem, de fato, o brado de Lima? Se nos deslumbramos com o português a tal ponto que minguam sem serem notadas nossas outras línguas, não estaremos, então, sendo os “americanos” de nós mesmos? O Brasil possui ainda cerca de 200 línguas, das quais poucos brasileiros são capazes de sequer citar alguns nomes.

O escritor, como o portador do estandarte da cultura de um povo, deve com tal segurança conhecer suas línguas, que sua geração, por meio dessa segurança, estará protegida quando lidando com línguas estrangeiras. Os modernistas notaram já de muito um bom caminho, mostrado pelos primeiros brasileiros: a antropofagia. Pois a negação da antropofagia cultural leva a uma autofagia que, por sua vez, pouco frutifica; ou ainda a uma entrega de si mesmo a outro mundo, estrangeiro, estranho.

Passou o tempo em que as culturas estavam isoladas. Hoje elas se tocam mais do que nunca, embora poucas realmente se conheçam. Nesta relação, as culturas não deveriam se sufocar, mas ser participadas. E aquilo que antes causara empobrecimento, amanhã gerará apenas riqueza, a maior delas, pois não é para a humanidade a cultura a sua maior riqueza?

Essa mesma humanidade ainda tem muito a aprender sobre a questão das línguas. Em tantos milênios, pouco se evoluiu de fato, porque a História tem apenas repetido os mesmos quadros, assinados, porém, por nomes diferentes. E na confecção desses quadros, o escritor tem papel fundamental, dentre outras coisas, como artista. A língua até pode ser usada como uma ferramenta para representar à letra nossa mediocridade, mas arte em si já deixou há tempos o papel de simples imitadora – porque hoje a humanidade já compreende que a arte não imita, mas transforma. Pensam alguns que amanhã será maior o número dos que falarão sobre democracia lingüística. Mas nós, como escritores, falemos disso desde então, e protejamos nossa maior matéria prima, e adiantemos o tempo, porque este poder nos foi dado.

7 comentários:

Fernando disse...

Sei que o texto está muito grande para os padrões de um blog, mas decidi publicá-lo mesmo assim. São praticamente duas páginas de Word, mas compreendo se ninguém lê-lo. :-)

PS: vi que o Jarbas não publicou ontem, 13. Eu normalmente tentaria procurá-lo, para que ele publicasse mesmo que hoje, mas antes de mim. Mas, como estou embarcado (sonda de petróleo) e a internet aqui é mais limitada por questões de segurança (ou seja, sem orkut), não tive meios de contatá-lo. "Valewzs ae!" :-)

Marco Ermida Martire disse...

Gostei do ensaio, mas faltou esclarecer melhor seu ponto de vista! Quero dizer, como está, serve como abre-alas de uma discussão pertinente e serve a um papel. Entretanto, gostaria de saber mais de sua opinião sobre a unificação linguística (espécie de esperanto) e a defesa de nosso patrimônio cultural. Gostei do ensaio, não sei por que não se escreve mais ensaios nessa comunidade. Aliás, não se escreve ensaios, poucos contos, resenhas, só tem poeta aqui! Keep going. Abraço.

Noga Lubicz Sklar disse...

Fernando, de que dispõe o escritor, senão da língua? Da sua própria, e com alguma licença poética, de todas as outras? Desconfio, porém, que este bem não tem sido valorizado como merece, hehe.
Obrigada por seu coment na minha crônica. Adorei.

Thin White Duke disse...

instrutivo, principalmente para quem não tem oportunidade de aprofundar essa questão mas que acaba entendendo toda a sua importância...

bem escrito também

parabéns!

Fernando disse...

Olá, Marco! Desculpe a falta de esclarecimento no texto. Eu me senti meio podado, devido a intenção de publicá-lo no blog; desenvolveria o tema, mas seria bem capaz de sairem mais de 10 páginas! - com o que concorco ser pouco coveniente para este espaço. :-) No entanto, mantive a idéia justamente como um abre-alas, como vc bem definiu e captou.

Como vc perguntou, minha opinião é a seguinte: as línguas são importantes e devemos trabalhar para preservá-las. Preservar uma língua não significa congelá-la, mas estarmos cientes de sua evolução (lembrando que simplesmente mudança ou agressivamente mutilação/negação/anulação não são necessariamente ou de forma alguma uma evolução da língua).

Tudo, é claro, depende da educação (de todas as partes envolvidas). Para preservarmos uma língua, o grupo humano que a fala precisa estar ciente da sua importância; e cada grupo precisa estar ciente da importância da sua e das outras línguas. Isso só é possível através do plurilingüismo, que envolve pessoas e instituições. Cada pessoa deveria saber um número de línguas, geralmente três: a sua, uma língua de alcance internacional e uma língua "pequena", como reconhecimento de sua importância e para sua preservação. Já as instituições devem permitir que isso aconteça: por exemplo, instituições públicas devem primar pela língua que lhes é oficial (em Portugal, p. ex., é inadmissível que a Petrogal use tantos termos em inglês quanto a Petrobras usa aqui no Brasil), capacitá-lo de forma consciente para o uso de uma língua internacional (e a obsessão mercantil que cerca o inglês não é uma forma consciente) e ainda apoiar a divulgação das línguas menores (p. ex. instituindo o ensino de línguas indígenas nas escolas da região onde essas línguas são faladas).

Quando um povo tem fé e sente firmeza na sua língua, ela existe protegida. P. ex. por que em portugal "mouse" (do computador) é "rato"? Porque eles não estranham sua própria língua. Por que aqui é mouse? Porque nossa língua tornou-se estranha para nós mesmos! A fé na própria língua não é xenofobia. O estrangeirismo é saudável qdo temos esta fé. O estrangeirismo é um recurso e não deve ser negado. Mas tb não deve ser mais do que um recurso. Um restaurande pode dizer: prato a la mode. Se usasse "à moda", este prato não se diferenciaria tão imediatamente dos outros, com seus nomes especiais. O estrangeirismo é uma diferenciação válida. No entanto, chega um ponto nas línguas sem fé em que o estrangeirismo passa a ser uma substituição direta a palavras e expressões inclusive muito bem fundamentadas (ou não!) na cultura local. E qdo isso acontece, qq estrangeirismo passa a ser menos tolerado. Na minha época, eu assistia a Guerra nas Estrelas. Nossa demência, porém, faz-se tamanha, que hoje em dia só se fala de Star Wars. Na minha infância, o ursinho era Puf. Hoje, só se fala de Pooh (ou o nome que a ele caiba). Uma língua forte adapta o que deve ser adaptado, traduz o que deve ser traduzio e mantém o que deve ser mantido, preservando para as futuras erações mais cultura.

Quanto às línguas pequena, quando uma língua é divulgada, o povo passa a conhecê-la em seus símbolos. Daí surge a arte e a cultura, tanto a popular quanto a erudita. Por exemplo, com uma maior divulgação de línguas indígenas, seriam preservados seus cantos, suas histórias: já isso daria ao popular cultura e ele apriveitá-la-ia a seu modo, criando novas cantigas e novas histórias, inclusive usando aquela língua e o português simultaneamente; já para o erudito, isso seria um prato cheio para o alto registro da sua própria cultura, mais ou menos como fez Zé de Alencar, Carlos Gomes, Villa-Lobos ou Tolkien, que presenteou a Inglaterra com uma saga baseada em sua própria cultura. Quem perde com a divulgação de uma língua pequena? Quem ganha? O que se perde? O que se ganha?

A questão da língua internacional é mais complicada. Quando adotamos uma língua nacional como internacional (ou quando esta nos é imposta!), raramente atingimos as intenções mais acima citadas. Há uma desdemocracia, porque um povo estará então sempre a frente de todos os outros, pois só sua língua é usada, tudo é mais acessível a eles, que já nascem sabendo aquela língua. E esse povo, sempre citado, sempre lembrado, sempre favorecido, esta situação joga contra a harmonia entre povos, porque estimula ânimos ruins.

Uma saída seria a adoção de uma língua neutra, comum. E uma língua neutra necessariamente não pode ser uma língua nacional. Vc citou o esperanto, mas não sei se de forma precisa, por causa do termo "unificação". De qq forma, uma língua como o esperanto é uma saída (e a idéia da língua esperanto é a saída). Outra solução, menos "unificadora", seria a inteligência de mercado. Como hoje o internacionalismo da língua é, como quase tudo, função do mercado, todos aprendem inglês. Porém, se o mercado fosse honestamente inteligente, deixaria claro à população que só aprender inglês não resolve nada, porque certos povos e países - uns mais outros menos - repudiam a língua (por aqueles motivos de ânimo). É preciso deixar claro quais negócios precisam de quais línguas e em qual grau de necessidade. Assim, quem fosse evoluindo, desde jovem, em certo ramo de trabalho, aprenderia tal língua.

São muitos ramos os desta discussão, por isso falei que daria suas 10 páginas. :-) Também não quis cansar os amigos, porque às vezes a coisa pode se tornar complicada e cansativa mesmo. :-)

Haleja! ("Abraço" em finladês, :-))

Marco Ermida Martire disse...

Não acho prática a idéia de um "esperanto". Certas alternativas, como alguma padronização entre os países de língua portuguesa, parecem-me boas. Porém, penso que, como as realidades locais diferem-se muito, a tendência será sempre um afastamento gradual que precisará ser compensado de quando em quando. Daí, a sabedoria corporativa de pensar globalmente e agir localmente, que não é novidade já a algum tempo. Acho interessante sua proposta para os povos indígenas, mas é preciso saber o que eles querem. De fora, é fácil falar. Um abraço!

Fernando disse...

Realmente, qualquer alternativa que envolva educação não é prática. O ser humano é burro por destinação. "Deus estabeleceu limites para a inteligência humana, mas não para sua burrice", como diz a frase. A questão do esperanto é sempre polêmica. Especialmente porque existe muita desinformação em torno da idéia e da língua. P. ex., mts acreditam que ele queira substituir todas as línguas. Ou acreditam que uma língua dita "artificial" não funcionaria. (Mas desconhecem que o coreano é uma língua artificial; e ignoram o que aconteceu com o esperanto em 120 anos de criação). Mas concordo com vc que, embora a idéia e a criação sejam geniais, a questão não é mesmo das mais práticas.

Quanto às línguas indígenas, creia-me que é justamente isso que eles querem. Existem muitos tipos de índios dentro de uma mesma tribo, assim como existem muitos tipos de "branco" dentro deste blog. De qq forma, podemos, sim, dar uma visão geral do que eles pensam. Uma vez, um amigo meu perguntou se os índios gostariam de ser chamados de "brasileiros". Achei a pergunta tão instigante, que resolvi pesquisar (nada sério, claro). Na Bahia, tive a oportunidade de perguntar a duas "etnias" (perguntei na estrada, enquanto comprava algumas coisas deles mesmo) o que eles pensavam: ambos (em locais diferentes) se consideravam brasileiros. De alguma forma eles tinham noção do tamanho do país e sentiam-se como realidade do país e não só das suas nações. (As etnias eram pataxó e atikum; essa última, nem lembro se era isso mesmo). Em Brasília, tratei a questão com um amigo da FUNAI, e ele me deixou claro que os índios não são bascos ou catalães. Há uma vontade de se verem respeitados, mas não são separatistas. São arredios, ariscos, mas não separatistas. Não querem que entrem em suas terras da mesmo forma que não queremos que entrem em nossas casas. De todo modo, já essa discussão mostra o quanto estamos longe da realidade indígena. Tratamos os índios como seres longíquos, lendários até. Isso mostra que a sociedade vem se afastando de um de seus ancestrais sem se tocar disso.

Quanto a questão do português, acredito que após a padronização, demorará mt mesmo para que uma diferença se faça notar. Primeiro que hoje os povos estão cada vez mais próximos. Segundo que mesmo o português de Caminha pode ser mais ou menos entendido por nós. A diferença mesmo é que na época dele nem gramática havia. Hoje há regras e qq um interessado em ser entendido segue-as. O que pode haver são mudanças de "símbolo", justamente aquela história de que a língua é a forma de um povo ver o mundo. E uma mesma língua pode ser usada de diferentes formas por diferentes povos (vide o português!). A padronização que acontecerá, então, não unificará estes símbolos. E por isso quantas são as línguas, tantas mais são as formas de ser ver o mundo. Aqui, boceta vc sabe o que é; e em Portugal? Aqui bicha é uma coisa; em Portugal é, dentre outros símbolos, fileira de pessoas. A padronização não vai mudar isso. Os símbolos se mantêm, eles são a parte mais cultural das línguas; só mudamos a forma de representá-los. Por isso, matando a língua dos esquimós, será impossível que o inglês represente suas vinte palavras para neve. Porque a cultura anglófona (toda ela, a mundial), não possui símbolos para tal!

Por isso a proteção das línguas é tão importante. Especialmente para nós, os escritores: elas são nossa tinta óleo, nossa sombra-e-luz, nossa perspectiva.

(Klem! "Abraço" em norueguês! :-))