quinta-feira, 3 de julho de 2008

Carta ao Dr. Antônio, Psiquiatra - Juliano Guerra

- Doutor, acabou a farra. Agora seremos só eu e o ornitorrinco, até o fim. Um dos dois vai acabar morto.

Meus amigos são santos espalhados pelo mundo. Temos São Denser de Pernambuco, padroeiro dos clubes de incesto e gordas que invadem pesadelos. São Rodegheiro Poeta, santo mais requisitado nas rodas de sexo sem proteção em Pelotas. Esses meus santos estão tomando muita porrada. “E na gente deu o hábito de caminhar pelas trevas”. O melodrama é embutido e ninguém cobra a mais pela entrada. Em São Paulo temos São
Anderson Henrique, protetor dos que tomam LSD com a mãe sentada na sala. Nós – aqui já me incluo entre eles, antes do que esperava – somos santos úteis. Quase tão bons quanto São Sebastião, que agora é santo gay.

Dostoiévski foi melhor do que Jesus Cristo. Em primeiro lugar porque não escolheu a saída mais fácil e foi se fuder na Sibéria ao invés de virar mártir. Depois porque escreveu seus próprios evangelhos, o que por si só demonstra alguma competência e boa fé. O problema – e onde ele me tange, principalmente – é que é muito mais fácil plagiar o Henry Miller. Insira aqui um solo de saxofone a sua escolha.

São Luiz Corinthiano de Natal: que tal ser multimídia? Adaptar-se aos novos tempos, malandragem. Que nada. O espelho veio de brick e já foi de Rimbaud. Põe-se meia dúzia de citações no lugar da alma e toca-se a diante. Até quando? São Zoppa das Gerais certamente que não vai me responder. São Denser pára de conceder milagres até que seja solucionado o problema da finitude. “Até quando?”, os santos resmungam.

Quando, depois do terrível acidente que nos concedeu a canonização, eu e São Anderson Henrique estivemos na tenda de Jimi Hendrix – o São Pedro dos que buscam santidade –, ele nos falou dessas mazelas. Estamos de alerta. “Há de ser pura com o riso mais profano”, eis aí a literatura como deveria ser. E a vida, subsequentemente. Posto que a vida deriva da literatura, estou convicto. Uma prosa cristalizada no “não”, a mais evidente negação do próprio ato de contar histórias. Ainda há histórias a serem contadas? Até quando? Por que e para quem?

Bobagem. Escritor não deve jamais fazer essas perguntas. Estou generalizando, claro, mas torcendo por sua simpatia. A santidade consiste... em quê? Creio que um bom jeito de descrever seria “se desnudar as navalhadas”. Céline fez isso e se fudeu. Miller dizia que era o homem mais feliz do mundo e não tinha sequer o que comer. Não há um destino comum, portanto. Essa porra tem plano de carreira? Plano de saúde? Então qual é a vantagem de entrar?

Medusa já é mitológica e portanto não pode ser santa. Mas dá na mesma. Ela é a gárgula de um cemitério e protetora dos que nunca uivaram pra lua cheia por achar que é cafonice. Eu creio que o ingresso foi pago de antemão. Daí que a gente diz algo feito “iluminação” ou “arrebentação putrefata” e faz o que pode. O trem descarrilou, mas a diversão está na iminência da colisão. Uma ontologia que morde o próprio rabo.

O que eu queria mesmo dizer é: o que nos canoniza é exatamente nossa pequenez. E, claro, uma aquiescência fora de lugar. Daqui pra lá, mais duas ou três multas. A gente cresce e pára de receber notas vermelhas no boletim. O boletim vira a vida? Pode ser... Andei levando notas vermelhas, nesse caso. O nome dessa coisa toda é “chororô”. Santa Flávia é madrinha dos decadentes e tomadores de vinho em copo de extrato de tomate. Disse que preenche “sem ocupação” nos formulários kardecistas de reencarnação, tudo em 24x com um livro do Chico Xavier de brinde. Kardec my ass.

Legal mesmo é sentir “repúdio”... chego a crer que é o único sentimento realmente honesto. O resto é balão de gás hélio levando padre pro inferno.

– O amor?
– Balão de gás hélio e lá vai o padre.

Mas o repúdio é confiável. Companheiro inseparável das filas de banco e camionetes 4x4. Minha última namorada se vestia de She-Ra, mas eu é que não ia me vestir de He-Man. Também não vou parar de comer carne, vão se fuder.E muito cuidado com São Perrone.

Enfim, qual é a vantagem de se ser um lugar-comum pouco comum? Não sei. Mas o Habibs disse que tá fazendo promoção pra aniversário, sua netinha não está fazendo anos mês que vem? Meu Amplictil está acabando. É cult ter que se drogar pra dormir.

Beijos,
Juliano Guerra

3 comentários:

Anônimo disse...

como posso participar desses eventos e expor meus poeminhas

Anônimo disse...

como posso expor uns poeminhas me respondam pelo email goethhe@bol.com.br

Larissa Marques disse...

Amém, para os santos citados.