terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O rapaz do guarda-chuva cinza


Eu podia dizer apenas isto: o rapaz estava no ponto do ônibus. Usava um terno cinza e um guarda-chuva cinza. O mendigo parou de passar para nos dizer como um profeta manso: que não choveria aquele dia, que nunca mais choveria, porque naquele momento não chovia e o tempo, o tempo, meus senhores, estava irremediavelmente parado (aliás, acho que ele disse: encrencado).

Estes foram os fatos visíveis. Os outros fatos é que me incomodam. Vou completar a estória: o mendigo puxava um cachorro com o pensamento. O cachorro era muito mais bonito, o cachorro era como um nobre russo que viajasse incógnito, o cachorro estava sujo e provavelmente doente. E o mendigo puxava o cachorro com amor. Por que, meu Deus, tenho que falar nisso? Um cachorro é tão irrelevante.

Esse não era. Ou eu é que vi com os olhos do mendigo. Que não devia ter parado de passar naquele instante. Porque então o cachorro viu o rapaz do guarda-chuva.

É importante lembrar que o guarda-chuva era cinza, já que isso prova que o rapaz não existia.

Eu acho que o rapaz não existia; olhava o mundo com tanta confiança que não podia ser.

O cachorro viu o rapaz e pensou: eis um amado. Era. Tão amado que não se importava. No ponto do ônibus as pessoas com calor e vontade de ir para casa esperavam que o mendigo dissesse outras coisas sobre o tempo. Uma criança estendeu a mão para o cachorro. E foi então que o tempo realmente parou, tudo se interrompeu no meio. No meio de eu piscar e respirar, a criança e a mão estendida receando tocar, o cachorro tenso com a descoberta de um amado, o mendigo à espera de que o cachorro andasse outra vez, o rapaz não percebia nada.

Vem, pensou o mendigo com amor. O cachorro não se moveu. Vamos, pensou o mendigo. O cachorro fascinado. Ele não quer você, vi o mendigo pensar.

Então o cachorro disse: ninguém escolhe um cachorro. Se eu andar atrás dele, ele é meu dono. Ainda que não perceba será meu dono. Ainda que me queira enxotar com seu guarda-chuva cinza, eu insistirei e ele será meu dono.

Mas você, meu amor, você tem dono, pensou o mendigo com lágrimas na voz.

Num sobressalto o cachorro olhou para o mendigo, surpreso por descobrir com que intensidade era também um amado. Decidiu-se. (Eu assistia, meu Deus, uma intrusa, que fazia eu em meio a tanto amor, em meio a uma piscadela e uma expiração?) O mendigo deu um passo, blefando, fingindo que ia. Mas o cachorro tinha se decidido e foi também, um olhar de vaga saudade para o que não existia.

O tempo se moveu de novo, eu exausta de sentir o amor alheio.

Foi bom que o cachorro não ficasse, porque logo o ônibus chegou, e num ônibus nenhum cachorro pode seguir o dono.

4 comentários:

Allan Vidigal disse...

Adoro esse.

Joyce Lemounier disse...

muito interessante...

Ivan Guardia disse...

Esse me deixou emocionado. Nostalgia. É meio melancólico:

"Então o cachorro disse: ninguém escolhe um cachorro. Se eu andar atrás dele, ele é meu dono. Ainda que não perceba será meu dono. Ainda que me queira enxotar com seu guarda-chuva cinza, eu insistirei e ele será meu dono."

Beijo, Liz.

FláPerez (BláBlá) disse...

que coisa mais linda, Liz...
eu tbm seguiria o mendigo.