segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Loucura na fila (DBS)


Tinha tudo para ser um dia comum, eu não lembro se era terça ou sexta nem que dia exato da semana, mas lembro dos detalhes importantes. A fila, a famosa fila, democrática, injusta, dinâmica, bom, pense como quiser, mas essa foi muito louca.
Eu tenho um amigo que nasceu no mesmo dia que eu, Carlão. Não exatamente no mesmo dia, mas no mesmo dia 13 de janeiro, mas em anos diferentes, mas bom, a história começa com ele porque ele me chamou para almoçar naquele dia. Aquela coisa de amigo de trabalho que o cara chega e fala:
- E aí, vamos comer onde hoje?
- Qualquer lugar, desde que não seja coisa verde! – eu disse.
Naquela época eu não estava de dieta, então eu queria era uma picanha com queijo derretido, mas isso também não é importante agora, importante é que ele disse:
- Vamos no meu carro e você pode ver o som novo da máquina.
Carlão tinha um excelente gosto por carros e filmes, naquela época ele tinha um Ômega, um carrão, mas o consumo era quase um filho por mês.
Ao entrar no carro, lá veio o golpe do Carlão, sabe aqueles amigos que querem fazer tudo junto? Nada contra, mas não na hora do almoço! Ele fez a indecente proposta de dar uma passadinha rápida no banco. Passadinha rápida no banco? No banco? Na hora do almoço? Pensei comigo:
- Queira Deus que seja algo no terminal eletrônico.
Ele completou dizendo que tinha que pagar só uma continha. Só? Imaginei logo umas 84 pessoas na frente e umas 3 horas de fila. Nem o chefe ia gostar daquele almoço!
Eu não tinha muito mais escolha, já estava dentro do Ômega.
Então lá fomos nós para o banco e eu reclamando com o Carlão:
- Você é um amigão, hein! Me chama pra pagar boleto na hora do almoço na fila do banco! Quero que você morra!!!!
E ele rindo, sabendo da sacanagem e dizendo:
- Para de reclamar, aproveita o passeio!
- Passeio? Seu babaca! – respondi ‘feliz’.
Chegamos no banco e o local para o pagamento era em uma fila no subsolo. Ao chegar lá nos deparamos com duas filas, uma para pagamento de até 3 boletos e a outra para pagamentos de qualquer quantidade de boletos. Acho que a estratégia era para evitar colocar na mesma fila aqueles funcionários de empresas que abrem uma bolsa e mostram para o caixa 438 boletos e a fila fica 2 horas esperando só por ele...
Para tentar agilizar, Carlão foi para uma fila e eu fui para a outra. Fiquei na fila de até 3 boletos.
Na minha fila tinha mais ou menos umas 13 pessoas, na fila do Carlão umas 45...
Na fila do Carlão o atendimento era feito por 5 caixas e na minha só por um e o próximo a ser atendido ficava parado atrás daquela fita amarela no chão, pra evitar que o próximo ficasse ‘babando’ atrás de quem estava sendo atendido.
Todo mundo conhece no Brasil aquele jeitinho de guardar lugar na fila, porque as filas demoram tanto que o cara precisa ir no banheiro, lanchar, sei lá, fazer alguma coisa ou até dar uma de espertinho indo fazer outra coisa de menor importância e deixar o próximo na fila ‘guardando’ o lugar para ele até ele voltar. Já vi fila de 3 pessoas virar fila de 9 em 3 segundos entrando gente no meio que estava com lugar guardado. É dose!
Bom, lá estava Carlão na fila, agora com umas 60 pessoas e eu na filinha menor que não andava e eu ainda era o último. Já estava lá fazia uns 15 minutos.
De repente, chegou um cara com um capacete na cabeça como se fosse uma viseira, meio apressadinho e deu uma olhada pra fila rápido e depois pra mim, apontou para minha frente e disse:
- Oi, com licença, eu estava aqui nesse lugar!!!
Por um momento, eu tive uma certa paralisia enquanto meu cérebro tentava processar aquilo. Eu pensava:
- Hein, o cara estava nesse lugar! Quando? Estou aqui faz 15 minutos e ninguém a mais na fila nem nada de andar e ninguém atrás de mim.
Resolvi falar com o cara, às vezes, ele queria o lugar onde estava propriamente, e não o lugar na fila.
- Como é? – perguntei para ele. Você estava aqui nesse lugar? Quando? Cheguei aqui faz 15 minutos!
- Eu sei, mas o lugar foi guardado para mim! – disse o homem-capacete-viseira.
- Guardado pra você??? Por quem?
Olhei para o cara na minha frente na fila e ele também com cara de espanto não disse nada.
- Acho que você estava aqui faz muito tempo, meu amigo, agora fica aqui atrás de mim que estamos todos na fila. – falei para o homem-capacete.
Todo mundo olhava a cena sem falar nada, igual papo de estranho em elevador, ou seja, mudo e silêncio total.
Nisso, uma voz lá da frente da fila disse assim:
- Mas que mal educado, o cara estava na fila! Que absurdo!
Eu pensei de novo dentro da minha cabeça:
- Hã? Eu, mal educado? O cara chega depois de 15 minutos e quer o meu lugar na fila e ninguém nem guardou o lugar para ele. Não pode!
Aí eu disse:
- Amigo, a fila está aqui faz tempo, ele chegou agora e perdeu o lugar, infelizmente tem que entrar na fila de novo, não tem lugar marcado assim.
O cara lá da frente da fila começou a querer arrumar uma confusão defendendo o homem-capacete.
Nisso, eu disse então:
- Ora, então dê seu lugar na fila para ele!
O cara lá da frente não gostou da ideia e continuou reclamando, até que ele propôs que o homem-capacete entrasse na frente dele. Só que aí eu falei:
- Não, aí não fica legal não, pois está entrando na minha frente também e também na frente de cada um da fila.
Nisso, uma das pessoas da fila ouvindo o quase bate-boca, falou olhando pro lado e meio que escondendo a boca:
- Assim fica difícil!
Tive vontade de rir, mas estava mais preocupado com a invasão da fila pelo homem-capacete.
A coisa começou a ficar tensa um pouco e nisso, o Carlão, que até agora não tinha falado nada, deu um grito lá da outra fila:
- O meu amigo!!! Pega seu lugar na fila e para de criar confusão!!!
O pessoal na fila e os funcionários do banco sentiram o clima de certa tensão e ficou todo mundo quieto um pouco. Até que o cara da frente da minha fila falou de novo:
- Outro mal educado!
Nisso, Carlão gritou de novo:
- E você aí, fica quieto senão vou aí pegar seu lugar na fila e te dar um pau!
Carlão não era muito grande, mas tinha um certo porte e tinha uma cara feia pra caralho quando ficava bravo, além de uma voz de trovão.
O cara da frente da fila sentiu que a coisa não ia dar muito certo e ficou quieto e olhando pra frente.
Os seguranças do banco se mexeram e mudaram de lugar, eles sentiram algo tenso demais.
Por uns 3 minutos o homem-capacete ficou queito perto de mim sem saber se entrava na fila atrás de mim ou se ia embora.
Depois de mais uns 2 minutos, o homem-capacete fez uns gestos meio como se tivesse esquecido algo e saiu do banco.
A fila andava, estava segura!
O cara da frente foi atendido e foi embora, eu estava ainda com 3 pessoas na minha frente.
Carlão tinha umas 10 pessoas na frente dele ainda.
Mais uns 5 minutos e eu tinha só uma pessoa na minha frente e Carlão umas 3.
Pela lei de Murphy, pelo jeito, não ia adiantar nada os dois na fila, elas iam demorar o mesmo tempo.
De repente, de novo, uma senhora já velhinha aparentando uns 70 anos chegou perto de mim na fila e disse:
- Ei, eu estava aqui!
Meu Deus, o que era aquilo? Um pesadelo? Pegadinha do Faustão?
O pessoal da fila começou a rir, ninguém acreditava naquilo.
Eu fiquei de queixo caído por uns 30 segundos. A velhinha me olhando, a fila rindo, eu ali faltando uma pessoa para ser atendido, 30 minutos de almoço jogados fora. Quase briga na fila, e agora, uma velhinha quer roubar meu lugar! O que eu fiz para merecer isso?
Respirei fundo e disse para ela:
- Minha senhora, eu já passei por muita coisa esquisita na vida e hoje nessa fila, mas eu sinceramente queria saber como é que a senhora poderia estar aqui se eu estou aqui faz 30 minutos, umas 10 pessoas já foram atendidas e a senhora chega agora e diz que estava aqui! A senhora estava aqui quando? Ontem? Semana passada? Essa fila compra lugar e eu não estou sabendo!?
A velhinha ficou meio constrangida e o pessoal da fila começou a fazer piada.
- Ei, fica aqui no meu lugar que volto mês que vem! Fica aqui que vou ali dormir e já volto. Fica aqui que vou ver a Sessão da Tarde e volto depois do café! – fazia graça o pessoal.
Eu fiquei com pena da senhora e disse para ela que poderia ficar na minha frente sim, pois eu era mais jovem que ela e poderia esperar mais, mas que ela entraria na frente de todos também. Apesar de ter uma fila específica para idosos no andar de cima.
Ela fez uma cara de frustrada, como se o lugar fosse mesmo dela, mas foi embora também.
Depois de uns 40 minutos de almoço e pegadinhas na fila, eu era o próximo, estava ali, logo atrás da tal linha amarela.
Olhei para o lado e Carlão tinha acabado de ser chamado para ser atendido em um dos caixas.
Bom, então eu não precisava mais ficar na fila.... depois de lutar tanto por aquele lugar...
Olhei para o pessoal da fila, que não sabia da estratégia de ficarmos nas duas filas, dei um passo para o lado e saí da fila e disse:
- Ok, cansei de brincar, boa tarde para vocês!
E sai do banco para almoçar, finalmente!

Um comentário:

Ana de Geo disse...

kkkkkkkkkkkkkkk
Ai que horror! Vc foi embora! kkkkkkkkkkkkkkkkkk