sábado, 1 de junho de 2013

Sobre homofobia e adoção




Tenho na cabeça uns restos de cabelos compridos. Se faz frio, pra evitar asma, uso cachecol, não gosto de casacos, sou peludo, me suam os sovacos. Escutava um rock do Queen, “Don´t Stop Me Now”, e cantava like a lady Godiva a plenos pulmões enquanto esperava uma vaga em frente ao mercado. De repente, um carro canta os pneus ao me ultrapassar, buzina e dele saem gritos de “veado” e “bichona”.
Nem liguei. Estacionei tranquilamente e, ao sair, uma senhora me abordou: ”como existe gente tola, né?”. Só então caiu a ficha: xingavam a mim!
Fiquei todo nervoso, corri para a pista, reclamei alto que “eram machos para gritar e fugir, mas não para me encarar”. Tão logo disse isso, percebi quão incoerente era me revoltar. Os empacotadores do mercado me sorriram. Podia ler em seus olhos: “é, esse veadão é brabo”.
Fiquei ainda mais puto, mas comigo mesmo por não gostar de ser confundido. Oras, logo eu, grosso, peludão e marrento?
Percebi, então, que eu também estava sendo homofóbico. Se jamais me importei com o preconceito dos imbecis, já que o único juízo comportamental que me valia era o meu próprio, não deveria me chatear com aquilo.
Mas nada é tão simples.
Um “de menor” perguntou se podia vigiar o carro. Olhei pra ele com raiva. Também iria rir do baitolão aqui? Mas o menino só queria uns trocados, talvez pra arranjar um casaco, ele usava apenas uma camiseta velha e suja. Se ele tivesse sido adotado, sua vida seria diferente.
Se ele tivesse sido adotado por um gay, não seria diferente?
Meus miolos entraram em choque. Eu concluía, na cabeça de poucos cabelos compridos, um pensamento com nova forma: achava a adoção gay nociva à criança, mas entendia agora que era puro engano. Inda mais na questão da sexualidade. Gays dispostos a adotar jamais influenciariam seus filhos. Quem sofreu conflito (interno e externo) até se harmonizar, obviamente não obrigaria a qualquer visão de desejo sexual, exatamente por entender que não há escolha, é inerente de cada ser humano. O que eles fariam, certamente, seria educar a criança para que ela fosse livre de preconceito.
Ofereci meu cachecol ao moleque. Ele negou. Riu. Não sei se havia nele algum desprezo por receber um presente de um “agasalhador de croquete”. Ainda que existisse, seria compreensível. Era apenas um pobrezinho, não teve ninguém para ensiná-lo que gays são capazes de amar como qualquer um, até mesmo a crianças abandonadas por casais heterossexuais.
Continuo grosseirão e peludo, mas minha marra diminuiu. Vi que opinião boa é a de quem vivencia o fato.
Sofri com a homofobia.  Senti na pele como é incômodo ser destratado por algo que não é errado ou afeta a vidinha confortável dos outros.

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originalmente publicado no Blog Bastardos do Velho Safado

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