domingo, 11 de março de 2007

Otávio não é de Rocha.

Desço do carro sem me preocupar com a rua, com minhas coisas e o porteiro vitalício que já cansei de ver. Subindo à casa ouço vozes e me deparo com uma festinha familiar. Todos me cumprimentam, não muito breve nem usualmente, como se eu fosse a razão pela qual eles pudessem se fazerem ouvidos e interessantes com as suas fofoquinhas e juízos de valor. Deve ser pelo meu aniversário que está perto ou somente estão agradecidos pela ocasião de exercitar a “socialidade”.
A casa estava mudada. Coisa sem muita importância pois todos os móveis eram conhecidos. Verdade que estava bem mais bonita, mas a essência das coisas era igual: as pessoas com as mesmas mágoas, piadas e crueldade que só a intimidade é capaz de conferir-lhes, mas com as roupas e expressões embelezadas; os móveis e as paredes velhos cobertos de enfeites novos; o sofá cor de nada todo rasgado por Vivi, agora era mostarda e tinha uns pezinhos prateados. Tudo perfeitamente explicado por um dia de festa. E por falar em Vivi, cadê ela?
-“Que pele bonita, meu filho! Tá tão mais branca!”
Como de costume, a família não me permite uma ensimesmação prolongada.
-“Otávio, se cuide...”
-“Agora tá a cara do pai mesmo, duas bolas!”
E meu também velho repertório de humor irônico e sensato tão responsável por minhas vitórias e ar de superioridade.
Com as vaidades aguçadas e cansado do carinho e indiscrição da família, vou para o quarto com a tranqüilizadora idéia de intimidade. Abro a porta e vejo Vivi. Por que será que ela está aqui metida no quarto? Lhe observo com euforia e carinho esperando que ela corra para os meus braços, mas ela fica ali, quietinha. Deve estar dormindo...
Entro devagarinho e tento acariciá-la, mas um pulo sobressaltado lhe leva correndo pela varanda. Pronto! Todo mundo ouviu o tumulto! Minha frágil superioridade e intimidade se foram, estou mais uma vez metido nesse cenário!
Na tentativa de salvar o pouco que me sobrou de paz e dignidade, tento me aproximar dela novamente com gestos discretos e amáveis. Não faz sentido ela me tratar assim, logo ela que é louca por mim, que me seguia por todos os lados, e implorava pra dormir comigo... certamente lhe dei um susto grande, coitada!
Me aproximo confiante... filha da puta! Quase me morde! Todos me olham com pena. E dando a última pincelada nessa cena ridícula, me refugio no velho espelho da sala , humilhado, evitando os olhares alheios. Mas o esconderijo é meu pior delator! Imóvel, atacado, despido... vejo o passar dos anos na minha carne flácida, a distância na minha expressão, e destacado pela dessimilitude do que me rodeia, surpreendo minha mente artificiosa tentando me tornar mais um Rocha... negando-os.
Não só Hegel e minhas filosofias idealistas e "cults", tão arduamente construídas na adolescência, caíram por terra, a realidade está fora de mim, me morde, me reclama, acusa a estranheza do que não sou. Os latidos de Vivi reclamavam minha identidade.


Jimenna Rocha.

13 comentários:

Me Morte disse...

Jimena, teu conto é uma novidade aqui.Estilo diferenciado, o autor tenta mostrar a busca do personagem pelas origens.Eu achei muito interessante na medida que nos deixa uma mensagem bem especial, a busca pelo tempo perdido.Eu gostei muito e, sem hipocrisia, foi perfeito. Mais um enfeite para o Bar.beijos

Me Morte disse...

Pronto, agora já descobri o rosto,rss..beijos

Lameque Hyde disse...

Uma das gratas novidades do Blog do Bar do Escritor é que estamos descobrindo que os poetas do Bar se revelaram ótimos contistas, como no caso da Jimmena e da Larissa.

Quanto ao conto, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a qualidade do texto. Em seguida a história aparentemente banal mas, que contada com maestria, nos revela uma personagem em desconforto com o seu passado.

Gostei muito.

Klotz disse...

Concordo com Lameque. Acrescento que além da descoberta de contistas temos a descoberta de bons críticos.

Thin White Duke disse...

adorei esse conto... a forma como ela conduz o texto consegue prender totalmente o leitor, não sendo cansativo nem muito menos repetitivo...

mto bom!
André Espínola

Foxylady disse...

Fio a minha primeira visita... Creio que para entender a aparente mudança de tipo de escrita publicada tenho de ir ver para trás....

Té já...

emanuel disse...

Jimmena, eu achei seu txt MUITO
prolixo. Fiquei esperando alguma coisa acontecer, mas o txt acabou do mesmo jeito q começou: morno.

Deveras disse...

As contistas, ou melhor dizendo, as escritoras, tendem a entrar no âmago de seus personagens desde antes de Clarisse Lispector, a mais brasileira das ucranianas, desembarcar em Maceió; Jimenna, que desembarcou recentemente também por perto daquelas paragens, mostra a força interior de seu personagem, tão forte que carrega o próprio sobrenome. É complexo? Sim, como todo interior humano o é (isso pode ser comprovado por qualquer cirurgião); entretanto, leva um quê da poesia que essa autora domina tão bem. Faço coro aos que louvaram a descoberta desta faceta de prosa.

Cristiano Neto "Deveras"

Jimenna Rocha disse...

Obrigada aos que gostaram e aos que não. Só a puta dialética tiram as coisas do lugar. Eheheh.

Comecei esse texto meio insegura já que nao escrevo prosa e também sabendo que esse tipo de escrita que se usa de uma história (aparentemente idiota)para entrar na personalidade e conflitos de um personagem nao fazem muito sucesso assim. Mas fazer o que? Nao posso escapar do que sou e do que gosto! Acho que no fundo gosto de nao agradar a todos! KKK.

Beijos e obrigada.

Anderson disse...

Eu também achei prolixo, mas tem tiradas sensacionais, como o porteiro vitalício e a questão da identidade cult construída na adolescência.
Parabéns Jimmena. Foi uma ótima estréia.

Véïö Chïñä‡ disse...

Apesar de não ser muito afeito ao estilo devo concordar que essa menina sabe mesmo escrever. Menina, algo me diz que você vai longe.

Eduardo Perrone disse...

Jimenna... E suas letras...! E, nessa em especial, dá "nó em pingo de éter"...rs.
Vai ao encontro de novos conceitos, recriando uma atmosfera previsível, fechando-a previsivelmente... Isto é (foi) O INUSITADO.
Parabéns!

Eduardo Perrone disse...
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