quarta-feira, 30 de maio de 2007

O FOLHETO DA FALSA FÁBULA (por Osvaldo)

- um trecho d’O debate das pedras -



(...)


Tod’alegria que reina na terra
Se deve a nobreza do artista
É o contador de mui causos
Do sertão é o romancista
Ligeira e bela é a poesia
Do trovador e cordelista
Desde menino eu m'arrecordo
De que meu avó poeta versava
Os mil causo d’antepassado
Tempo em qu'os minério falava
Corria o folheto feir'a feira
E a multidão se aglomerava:
.
Sou Almiro da Proença e Silva
Posto um avô de direção
Formado ‘stou em xilogravura
Sou é poeta da boa instrução
Criado na fé de minha família
Fiel em Jesus e São Bastião
.
Andava-a-trote o jegue-manco
Na redondeza du’a cratera
Quando avistei avexad'o encanto
O confabular de duas pedra
Uma severa em tom mui grave
Outra versava sobre as era:
.
Pedra primeira
Ora lhe digo:
Que na historia desta terra
Qu’houve uma Cobra arredia
E dizem qu’era besta fera
Cozia era seis homem corrido
E num sobrava nem as perna
.
Pedra segunda
Em verdade:
Sou qual oca mas não burra
E como pode da indivídua
Cozer seis homem em fissura?
Toda a boca é pequenina
Nem jibóia sem dentadura
.
Pedra primeira
num apreciso
De provar-lhe veracidade
Vosmecê pra escuridão
De tua parca cristandade
Pois canto o que o vento-me ressoa
Dos cantos da morosidade
.
Pedra segunda
Num padeça
Justa é pedra que se preza
E nem compensa a cantoria
É largá isso e corrê reza
É a lição que fala o Cristo:
Qu’é feliz quem se preserva
.
Pedra segunda
Pois dexêmo
É desta prosa sem valô
Num faço bem nem aproveito
Do que se prega o seu senhô
Pra pedra-casta é senhoria
Eu sou é poeta e cantadô
.
Pedra segunda
É ligeira
Mas canta sem a precisão
A trova sua é desmedida
E pinga é menos coesão
Num aprecio é meia verdade
A mim não convence é-não


(...)

E as freira toda estarrecida
Em se saber daquela feita
Um dois três quatro seis folheto
Que tem mui causo e muita treta
Corrid'a paróquia, praça-igreja:
‘Que coisa isto, é do capeta!”





.


A princípio, e a despeito da temática e estética lembrar o poema popular, gostaria de esclarecer que de longe este esboço se assemelha ao poema de Cordel. Não há um trato, um esmero no que pese à cesura, à metrificação que é uma das características deste gênero.
É u’a legítima homenagem ao poeta do povo, não mais.

.
Osvaldo

10 comentários:

Deveras disse...

Cara, me senti meio no nordeste, ouveindo aqueles repentistas como música incidental. Você tá realmente se especializando nestas paradas.

ficanapaz!

Lameque Hyde disse...

Fico feliz em ver que temos um cordelista de primeira linha entre nós.

Thin White Duke disse...

Osvaldo, esse texto é praticamente uma viagem para essas letras e esse povo tão rico em experiências de vida e pensamentos também... mto bom!

flew!

Larissa Marques disse...

Como não dizer que sou apaixonada por Osvaldo? Como não dizer que me faz suspirar e acreditar que ainda há esperança para a poesia? Como não deixar-me conduzir pela mão do poeta, nessa linda viagem que fiz por seus versos?
Beijo no seu coração, Muryel!

Me Morte disse...

O cumpadi, adolei teu texto. To me sentindo no nordeste, um dia vou lá. Beijos

Anderson H. disse...

meu amigo Osvaldo, seu livro está ficando maduro.

Mão Branca disse...

esse muryel e suas crises de personalidade.
enfim, é um doido inofensivo.

cordel é um trem meio específico. eu fico embalado. me causa torpor.

[barba] Uonderias disse...

já sou fã!

Hanna disse...

Olá! Conheci vc la do Bastidores então resolvi ler um pouco mais...
Preciso ir mas volto logo.
Beijos.
Hanna

Eduardo Perrone disse...

Um texto com o tempero do autor. Pimenta doce brasileira!