quarta-feira, 6 de junho de 2007

Olhos centenários

Acendia um cigarro atrás do outro, sem parar de pensar nos olhos azuis daquele senhor, de alguma forma ele a perturbava. Há mais de seis anos que ela morava ali. Sempre o vira sentado naquele mesmo tamborete na porta da confeitaria. Solenemente ele a cumprimentava, todas as manhãs e todo esse tempo, ela se dava ao trabalho de responder seu cumprimento. Mas Cecília nunca reparou na sua roupa, em sua elegância, parecia viver em outro século, camisa engomada, mas cheia de furos, por conta das pequenas brasas que caiam do cachimbo, barba amarelada por conta do tabaco, prestou atenção também em suas botinas novas, lustrosas. Tinha um ar europeu, mas nenhum sotaque. Diariamente ele se ocupava da arte de desfiar o fumo de corda e na hora que ela passava por ele, parecia sentir o vôo de seu vestido de popeline barata. E ao sopro do seu “bom dia!” e ela respondia, “bom dia!” Entrou para confeitaria, como fazia todos os dias pela manhã, pediu o de sempre, pães franceses, alguns biscoitos de nata, presunto, leite e seus cigarros. Ao sair ele estava lá ainda, compenetrado no desfiar do fumo, mas percebeu que ela o olhara, e ergueu a cabeça, que estava sob um chapéu de palha panamá, surpreendeu-se com o azul de seu olhar, tão azul que quase a fez chorar. Mordeu o canto da boca, segurando com a mordida o choro e o lábio inferior, apertou um dos lados do vestido, como que pra não voar e percorreu em carreira de volta pra casa. Estava assustada, feliz, mas mais assustada que feliz. Sabia quem era aquele homem, lembrava-se perfeitamente dele. Mas como poderia estar por seis anos, de frente a confeitaria e não tê-lo notado. Seu coração palpitava como se quisesse sair pela boca e ela segurava o peito, na intenção de acalmá-lo. Aquilo só podia ser mais uma de suas visões, não poderia ser real. Juliano logo desceria, preparava a mesa do café, enquanto seus pensamentos não saíam daquele homem, mas ele não poderia estar ali. Lembrava de seu colo, dos carinhos que recebia dele, quando menina, ele cheirava a tabaco, tinha as mãos carinhosas e cheias de cicatrizes, a pele tão fina que dava pra ver as veias, ossos e nervos se mexendo. Adorava quando ele a colocava sentada sobre o muro baixo, que ficava de frente para a rua, falando das suas histórias do exército e de suas grandes batalhas. Contava dos morteiros feitos com panelas de pressão, pólvora e pregos. Falava da batalha de Sobradinho, da destruição e incêndio de uma bela biblioteca, do seu amigo surdo que foi pedir rendição e acabou morto, das explosões, de tantos amigos mortos, da travessia de rios, dos passeios pelas trincheiras e, para ela, tudo parecia canção de ninar. Seus olhos azuis mareados pediam o afago que só suas pequenas mãos dariam, tão pequenas que sumiam na felpuda barba branca. Parecia Papai Noel, em sua aparência física, mas disfarçava-se bem, quando o Natal se aproximava, as crianças logo o descobriam, debaixo de seu chapéu panamá. As camisas de cambraia, os suspensórios e as calças de linho, não enganariam as crianças mais atentas. Nesses dias ele preferia ficar em casa, e dispensava suas caminhadas matinais e jogava seu corpo sobre uma cadeira de balanço que rangia sobre o assoalho de madeira. Ela gostava dele, tinha um ar soberano, mas isso não a assustava. Mais um cigarro, Juliano tomara seu chá preto, beijara-a rapidamente e saíra apressado e ela dessa vez não arrumara sua gravata e nem se despedira dele na porta, submersa em suas lembranças infantis. Ele cheirava a tabaco, tantos diziam não ser um cheiro agradável, mas pra ela esse era o cheiro de sua infância. Pegou sua bolsa e saiu. Decidira que o dia seria dela, iria ao mercado municipal, sentir os cheiros e sabores de um tempo que não volta mais. Afinal ,tinha o direito de ser feliz.

8 comentários:

Me Morte disse...

A larissa, como sempre impecável na forma como descreve as cenas, a gente se transporta. Bom conto,lembrou-me do cheiro de minha infância. Beijos

Muryel De Zoppa disse...

adoro seus escritos. tenho uma facilidade em compreende-la!

Klotz disse...

Tenho a mania de querer entender. Por isso prefiro, sempre, a prosa.
Gostei do conto.
Quem falou que eu devia entender o final?
Doces mistérios.

Thin White Duke disse...

Larissa, quem dizia antes que era isnegura na prosa está se saindo cada vez melhor hein?
:D
bjss

Larissa Marques disse...

Obrigada a todos, pelo carinho.
Meu caro Klotz, talvez não tenha entendido por esse texto ser fragmento, se quiser ler sobre Cecília, visite:
http://insanoeprofano.blogspot.com/

Lameque Hyde disse...

Fragmentado ou não, trata-se de um trabalho de uma escritora amadurecida, compleno domínio do texto e das situações narradas.

Deveras disse...

Muito bem conduzido o texto, vou procurar lê-lo na íntegra... Só um único e pequeno senão: ascender fica no ato de subir, enquanto acender é colocar fogo, ligar. Fora isso, tá redondo.

ficanapaz!

Larissa Marques disse...

Obrigada Deveras, já acertei lá, grata.