segunda-feira, 23 de julho de 2007

Três passos para uma guerra

I - O NEONIILISMO
Tempos de pensamento único. Entretanto disfarçado, maquiado, siliconado, sedutor. Ele se apresenta: “Nunca houve tamanho fluxo livre de idéias e saberes.” Mas então qual o motivo de tantos concordarem? “Porque é o sensato a se fazer” - responde. Mas isso é somente o cinismo da mentalidade hegemônica, que aprendeu a tudo absorver e anular. Então, ele adverte: “Não há mais espaço para revolução. Os que conseguirem se manter menos contaminados pelas idéias dominantes, se tornarão outsiders, figuras periféricas vistas como párias, loucos, incompetentes, improdutivos, inadequados, irrelevantes.”
Por isso, a sensação de impotência frente a um mundo que parece permanecer impassível aos protestos, às críticas, ao inconformismo. Assim, as revoltas vão sendo abortadas antes de tomarem forma. O desânimo atinge o peito e as potencialidades de idéias livres são sufocadas. As melhores mentes e os espíritos mais sensíveis de nosso tempo são empurrados para um neoniilismo, e este é um terreno instável e perigoso; berço da violência dirigida ao próximo e a si mesmo.
II – AS MÁSCARAS PARTIDAS
Só que até a sensação de impotência nada mais é do que produto dessa indústria que nos traga. A história mostra que, um a um, cada paradigma inquestionável foi violado e humilhado quando o tempo certo chegou. Nada do que criamos é eterno. Tudo é mutável e frágil, por trás das impressionantes máscaras. Fortes não eram os impérios teocráticos, as propriedades feudais, a razão eurocêntrica ou a “superioridade” ariana. Forte é o homem que criou cada uma dessas terríveis fantasias, pois só ele tem o poder de destruí-las.
III – O CAMPO DE BATALHA
Se a ditadura do mercado, se a indústria onívora, são criações humanas, então não somos nós que temos que nos ajoelhar. O discurso onipresente que a todo custo busca nos aliciar ou esmagar, sempre apresentará a realidade como forte e estruturada demais pra ser combatida. Mas isso é mentira. A mentira que sustenta a dominação de tão poucos sobre tantos. Que ao nos calar, nos torna cúmplices. Que turva a visão, nos fazendo apontar dedos acusatórios para as vítimas. Mentira que nos torna assassinos. Culposo ou doloso, não importa, é crime de morte. Temos mais poder em nossas mãos do que querem que acreditemos. Cada recusa tem seu valor, cada ato tem sua conseqüência. Pequenas rupturas podem provocar impensáveis deslocamentos. Um dia uma negra se recusou a ceder seu lugar em um ônibus. Um dia um jovem judeu alemão transformou filosofia em arma. Um dia decidimos dizer não; deixamos as mãos sujas de sangue, pois acordamos para o fato de que lavá-las, como sempre fazemos, é ato abominável e covarde.

5 comentários:

Me Morte disse...

Isso é uma coisa que nunca consegui entender, a guerra.Ver um ser humano morrer, mandar seus filhos para morrer, obrigar pessoas a morrerem...nunca a morte foi tão cruel como na guerra.
Parabéns pelo texto cara.

Deveras disse...

Um texto para várias reflexões... Bom lembrar que um dos inttuitos da boa literatura é este; causar. Pensamentos e ações, mas causar, é imprecindível...

Mandou bem, Thorpo.

ficanapaz

lena casas novas disse...

Estou bem encatada com os textos extremamente bem escritos. A exploração do tema - que eu adoro quando está em evidência. Lerei mais coisas suas eu espero. Pois adoro prestigiar o que é bom!

Mão Branca disse...

literatura boa é aquela que te faz pensar...

Thorpo disse...

Me - obrigado por mais uma vez ler, interpretar, comentar um de meus textos. Guerra é isso, morte, exploração, mas não guerrear pode também ser decretar a morte de outros. Ficamos neste impasse, onde a decisão pode valer uma vida.

Deveras - causar, é isso aí. Criar deslocamentos. Valeu, cara!

Lena - valeu mesmo. Fico contente que tenha gostado.

Mão branca - concordo plenamente. Abração