sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Convidado: Paulo Lencina

Vinte e três segundos



Sinto tudo rodar. O suor escorre na minha cara, faz os meus olhos arderem, lava o meu corpo-fechado no terreiro da dona Constância. Aqueço saltitando na ponta dos pés. Minha imagem se multiplica nos espelhos que uso para fazer o aquecimento. Fotógrafos, jornalistas e puxa-sacos de todo tipo se acotovelam na porta do vestiário. Nunca me senti tão sozinho. Vou fazer história com o meu cruzado de direita, passar o rodo no fulano, sentar ao lado dos três reis magos: Sugar Ray, Mohammed Ali, George Foreman. O treinador me chama num canto. Repete um montão de baboseiras: cuidado com a canhota do fulano, cuidado para o fulano não te acertar o baço, cuidado para o fulano não te imprensar nas cordas. Cuidado, cuidado, cuidado. Vixi, já enfrentei muita coisa nessa vida: miséria, Febem, meganha. Nunca tive refresco, mas estou aqui, de pé, para fazer o dito-cujo beijar a lona.
O Dão, auxiliar do treinador, observa tudo sem dizer uma palavra. De vez em quando, balança a cabeça em sinal de concordância e passa o pano sujo para tirar o suor da careca. Confio mais nele que no treinador. É um preto velho alagoano, ex-lutador, misto de gordo e forte. Não chegou a conhecer a glória, mas a desgraça volta e meia batia em sua porta. Perdeu quase tudo em cima dos ringues. Perdeu o baço, perdeu a metade dos dentes, perdeu por pontos para a vida. O nocaute técnico veio no fim da carreira: lutava em troca de comida. Até que topou com um conterrâneo de São Luís do Quitunde na subida da Augusta, que o convidou para participar dos telecatches da antiga TV Excelsior. Ganhou uma fantasia prateada, um camarim para dividir com mais oito marmanjos e o direito de distribuir sopapos de mentirinha em quem bem entendesse. Apesar do cachê minguado, estava feliz. Mas a alegria de pobre, sabe como é. Levou um pé na bunda sem mais nem menos. Aí arranjou essa boquinha de auxiliar do treinador. O Dão me viu passando uma descompostura num fulano e me levou para treinar num galpão na Barra Funda. Me deu casa (o próprio galpão), comida, respeito e muita sapecada nos treinamentos. É o pai que eu não tive.
O treinador não pára de fumar. A nuvem espessa formada à sua volta não consegue encobrir o seu nervosismo. Mais parece uma maria-fumaça ziguezagueando de um lado para outro. Ele nem sonhava que eu disputasse o Sul-americano. Decerto imaginou que eu fosse passar a vida toda batendo nos sacos de areia naqueles galpões sujos. Um cara narigudo aparece no vão da porta e avisa: é hora da carneação. A frase tem efeito imediato sobre o treinador, que arregala os olhos e acende um cigarro no outro. É um cagão mesmo. Isso só faz a minha confiança aumentar: vou guindar o fulano dentro da casa dele.
O Dão termina de enfaixar as minhas mãos. Sinto consistência nos punhos e raiva no coração. Calço as luvas e levanto a guarda à altura do rosto. Admiro as minhas mãos encobertas pelas luvas. Uma marretada dessas mói o maxilar de qualquer sujeito. O roupão de cetim vermelho cobre o meu dorso nu. O Dão vai à minha frente abrindo caminho. Ponho as mãos em seu ombro, cabeça protegida pelo capuz, vou pulando para não perder o aquecimento. Mal apareço e a torcida do cara me vaia. Passo pelas cordas, subo no tablado, dou uma volta inteira com os braços erguidos. As luzes escurecem a minha vista. Puta merda, gringo acha que tudo na vida é bróduei. Ainda mais os argentinos. Eles se acham a última coca-cola gelada do deserto. Tiro o roupão, exibo o meu corpo crivado de músculos. Chego a brilhar. Nenhuma pelanca sobrando. Olho para mim mesmo cheio de orgulho. Bato com as duas mãos no meu peito e grito coisas sem sentido. A minha provocação é respondida imediatamente. Vaias, vaias, vaias. O barulho é ensurdecedor. Eles vão ter de engolir os uivos; o fulano, os dentes.
O Dão coloca o banquinho no córner. Me manda sentar. Ele segura a minha cabeça com ambas as mãos, encosta nossas testas. Sinto o seu hálito de café e cigarro. A voz pausada dá conselhos enquanto as suas mãos grossas desferem tapinhas na minha cara.
“Prepara com a canhota e detona com a direita”, ensina, caçando com as pupilas negras possíveis reações no meu rosto. “Faz o gringo sambar. Só não fica parado na frente dele, senão você vira mingau”.
A pálpebra do seu olho esquerdo não pára tremelicar. Efeito colateral dos diretos de direita que recebeu no meio da cara.
“É bater e rodar, bater e rodar, me entende. Não deixa o cara diminuir o espaço”.
Cada alerta correspondia a um tapinha.
O juiz se aproxima, segura o meu queixo com uma das mãos e manda o tirar o excesso de vaselina do meu rosto. O Dão sorri e obedece imediatamente. Mal o cara dá as costas, ele volta a emplastrar o meu supercílio. Malandragem, malandragens. Só sabe quem gastou a vida em cima dos ringues.
O juiz chama os lutadores para o centro do tablado. Coloca frente a frente eu e o fulano. Por alguns instantes, cada um experimenta os seus medos no outro: sangue nos olhos.. Blablablá, blablablá, blablablá. Vou soltar o braço no fulano. Blablablá, blablablá, blábláblá. Vou fazer o fulano gramar. Blablablá, blablablá, blábláblá. Vou ganhar do fulano na casa dele. Blablablá, blablablá, blábláblá. O fulano vai aprender que a rapadura é docinha, mas não é mole, não. Blablablá, blablablá, blablablá: esse juiz fala mais que taxista numa corrida daqui para Itaquera. Depois faz um sinal com as mãos para cada um ir para o seu canto. Uma boazuda dá a volta no ringue segurando a placa do primeiro assalto. Sinto um puta frio na barriga.
Soa o gongo. O cara vem bufando para cima de mim. Acompanho o seu cerco pelo vão da minha guarda, dou dois passos para trás, sinto as cordas comprimirem as minhas costas.
“Faz o gringo sambar”, a voz do Dão lateja na minha cabeça.
Faço um pêndulo, gingo, deixo o fulano a ver navios: fui criado no samba. O dito-cujo não dá refresco. Quer se aproveitar do fato de lutar em casa. Não perde por esperar. Giro no sentido horário. Inverto a passada. Volto ao sentido inicial: o olho do cara posto em cima de mim. Negaceio com a cabeça para um lado e para outro. Tento encaixar a minha canhota, que explode na guarda do fulano. Na seqüência, solto a direita. O cara dá um passo para trás, ela passa no vazio. No contragolpe, ele acerta uma direita na ponta do meu queixo. Durei só vinte e três segundos. Escuridão.
“Bora acordar, chegou o dia da grande decisão do sul-americano, bora acordar”, diz o Dão, ensaiando um sorriso com os poucos dentes que lhe restam na boca. Abro os olhos sonolentos. Sinto tudo rodar.


são paulo, março, dois mil e sete.




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3 comentários:

Muryel De Zoppa disse...

Bom, Paulo. Não que haja semelhanças, mas teu texto me lembrou 'O Desempenho' do mestre Fonseca.

Me Morte disse...

Queixo de vidro porra!
Legal, gostei, tanto preparo pra nada. Mas é isso mesmo. Eu adorava assistir as lutas livres, me divertia muito, era minha ocupação preferida na infância. Parabéns.

Mão Branca disse...

este conto é vivo como uma soco na cara. ótimo, paulinho!