sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Convidado: Salomão Rovedo

“O sol nasce e se põe e torna ao lugar de onde partiu;
e renascendo aí faz o seu giro pelo meio-dia
e depois se dobra para o Norte.”
(Eclesiastes 1-5,6)

O homem carrega sempre dentro de si mitos, mistérios e magias, coisas tais com tantos nomes que seria chato enumerar. A eternidade do homem é infinita. Pode ser paradoxal dizer isso, mas, graças à eternidade, podemos fazer milhares de conjeturas sobre nós mesmos e ainda conviver com toneladas de mistérios em nossas vidas sem tentar solucioná-los.

Uns tempos atrás, como todo ser humano, andei querendo saber de tudo sobre todas as coisas. Mergulhei sem método em todas as religiões e filosofias orientais, ocidentais, daqui e além. Um dia, porém descobri que gastaria várias vidas para alcançar o Nirvana – cumprir o meu Karma – que não valeria a pena alcançá-lo nem me transformar num monge eremita, se não me fosse dada a alegria de dividir tudo com os demais. Não, não vale a pena...

Por mais que a ciência e o misticismo avancem nenhum supera o outro: normalmente ficam se digladiando, engasgados em teorias sobre a mesma coisa. Chegamos enfim ao limite institucional de todas as discussões onde, parece, não existe jeito de avançar. Estancamos entre Deus e o Big Bang, figuras tão próximas e tão distantes que remontam a bilhões de anos em espaço e dimensão que só a fé e a teoria podem transitar. Algum ecumênico ao extremo poderia afirmar que, sim, o Universo nasceu de um Big Bang... provocado por Deus!

Escolhi então, com muita alegria, viver às custas do Nirvana dos outros...

Acho que se pode ter a mesma satisfação em ganhar e perder amigos. Aliás, para falar a verdade, nunca senti a sensação de ter perdido amigos, apesar de ter acompanhado muitos ao cemitério. Mas assim que passa aquela sensação triste que se tem nos enterros começo a sentir de novo a presença do amigo a meu lado, como se tivesse retornando da voltinha que deu para comprar cigarro na esquina.

Só tenho o trabalho de mantê-lo ali, distraindo-o com conversas fiadas, para que não ache desculpa de ir-se. E eles – verdade – ficam por aí amontoados em torno de mim, um tentando ser mais importante do que outro, num assédio agradável que em absoluto não me perturba. Nunca deixe o amigo pensar que está sendo chato: amigo jamais chateia amigo.

Desde então tenho comigo que, na verdade, os amigos que a gente ganhou jamais perde: também na amizade há algo de eterno.

Um dia pensei em botar ordem nesse movimento caótico, mas sou tão desorganizado quanto eles. Jamais poderia colocá-los, digamos, numa organização, tempo e espaço cronológicos, nem poderia falar de maneira tão literária que valesse a pena dizer a mais pessoas como gosto de lembrar meus amigos. Enfim, é uma coisa que me tenta e que também teria gosto de fazer, mas não sei como realizar.

De alguns deles nem teria como iniciar a conversa. Saí da minha terra e eles ficaram por lá. Esse deslocamento físico por pouco não se transforma em separação espiritual, mas quase. Todos começamos a ser atropelados pela máquina do tempo: acidentes, doenças, vidas atribuladas.

As notícias escasseiam e quando surgiu, enfim, a oportunidade de reencontro muitos tinham morrido sem dar a chance de pegá-los pelo braço e mantê-los colados a mim, como faço com os outros, com pena de que se fossem de vez. Para encontrá-los agora fica difícil – estão por aí vagando no mundo, pelas calçadas, becos, tomando bebidas, cheios de saudade.

Do Luiz Barriga eu me lembro. Nossa amizade nasceu em porta de botequim. Éramos conterrâneos e contemporâneos, mas curiosamente não nos conhecemos na juventude. Viemos nos conhecer no Bar Riga (o nome diz tudo), de propriedade dele, ele do lado de dentro e eu no balcão bebericando algum veneno alcoólico. Luiz tratou logo de me seduzir com a meladinha que fazia à base de cachaça, limão e mel, em doses que só ele sabia medir.

Colocava os ingredientes no copo longo e batia com talo de goiabeira, cuja extremidade se tripartia tipo pé de galinha, como se fosse a hélice da batedeira. Metia o talo entre as mãos e mexia vigorosamente até a mistura se tornar homogênea, de forma que ao paladar desaparecia o sabor da cachaça, do limão e do mel, para dar lugar a uma bebida de gostinho ácido, diferente.

Além desse aperitivo (e de uma batida de maracujá de primeira), Luiz Barriga mantinha um estoque de cachaça com ervas, raízes e cascas, medicina para todos os males. As vezes eu chegava reclamando do estômago, fígado, vesícula, essas coisas, a receita infalível era o tal de Pau Pereira, cujo gosto era muito amargo – mais amargo que a coisa mais amarga que se possa imaginar. Eu só agüentava beber aquele remédio tomando a dose de uma talagada só.

O passado de Luiz Barriga coincidia com o meu em algumas travessias, pois tínhamos a mesma idade. Estudamos nos mesmos colégios, fomos nos apresentar ao serviço militar na mesma época. Só que ele foi ser fuzileiro naval e eu nem as armas servi, fui considerado incapaz. O serviço de fuzileiro dele se misturou com o golpe militar de 1964, a revolução. Aproveitamos o encontro para falar daquele tempo tumultuado das assembléias dos marinheiros, das greves, de João Goulart, do Comandante Aragão e claro do cabo Anselmo, divisor de discussões, como igreja, futebol e política.

Do cabo concordamos numa coisa: traidor ou traído, ele era um canalha, não beberia jamais em nossa companhia. Luiz Barriga conhecia muita coisa, mas nunca deixamos que a discussão fosse um limite à nossa amizade. Por isso muita conversa terminava em reticência, que ninguém procurava eliminar. Luiz Barriga saiu dos fuzileiros para o bar, na distância da terra natal, casou, teve filhos. Nordeste nunca mais.

Os botequins têm sua particularidade. No Bar Riga tinha a mesa que era coletiva. Todos os dias repousavam nela um jornal, um cinzeiro, uma garrafa de pinga sem rótulo ou a revista semanal. Um dia estava pousado o jornal O Globo. Na página de obituários uma notícia chamava a atenção de todos, mesmo porque já estava marcada com um círculo à caneta vermelha. Pelo tipo de notícia, que adotamos para nós, depois o recorte do jornal acabou virando quadro emoldurado, pendurado em lugar nobre. Dizia a nota fúnebre:

Os Botequins Fecharam

Morreu o Cavaleiro da Ordem da Garrafa

O Soho amanheceu de luto. O grande bairro boêmio de Londres chorava a morte de seu personagem mais popular, o rei dos boêmios, Cavaleiro da Ordem da Garrafa, Timothy Cotter, o Rosie, amigo das crianças, respeitador de senhoras, profissão: alcoólatra. Rosie morreu anteontem à noite, num xadrez de Brixton, aonde fora recolhido por bebedeira e de onde não saíra por não ter dinheiro para pagar as 5 libras da fiança.

Com 54 anos, Rosie vivia há 25 anos no Soho, notabilizando-se por suas danças e canções extravagantes, com que divertia os demais boêmios, em troca de alguns goles. Alimentava-se de restos dos restaurantes e das barracas do mercado.

Ontem, quando o mercado abriu, chegou a notícia da sua morte. Todos os botequins fecharam as suas portas.

Começou a romaria à morgue. Choravam boêmios e mundanas. Houve um princípio de tumulto quando um funcionário informou que Cotter seria sepultado como indigente.

“Não deixaremos que façam isso com o velho Rosie” o brado partiu de Jack Hardiman, vendedor de furtas no mercado. Imediatamente foi iniciada uma coleta, que rendeu 230 libras. O proprietário de uma casa funerária, também amigo de Rosie, aceitou a importância como pagamento do funeral, que fez questão que fosse de luxo.

No instante que líamos a notícia do O Globo de 22-05-1970, eu, Luiz Barriga, Luizinho INPS, Bete Engov, Walter Mug, Jorge Cana, Pudim de Cachaça, João Bala e mais uma dezena de biriteiros contumazes, que estavam no bar mais os que iam chegando, resolvemos fundar – em pleno Baixo Cachambi – a Confraria da Ordem da Garrafa, instituindo simultaneamente, o título de nobreza Cavaleiro da Ordem da Garrafa e a medalha Timothy Rosie Cotter, em homenagem ao bebum falecido naquela data no Soho, Londres, Inglaterra.

Para consolidar a Confraria deixamos permanentemente aberta a lista de adesões que dentro de alguns meses já contava com centenas de assinaturas. É claro que além do Livro de Adesões não existia prêmio nenhum nem medalha. Uma única vez um confrade mais animado confeccionou o modelo de Diploma a ser distribuído, mas a idéia não vingou além de uma cervejada. Então a coisa que começou assim de brincadeira foi crescendo, correndo mundo de boca em boca, a ponto de merecer contra notícia do O Globo, igualmente emoldurada e exposta ao lado da reportagem original.

Muita gente foi atraída para o Bar Riga por esse fato, coisa que freqüentadores antigos começaram a reclamar, tanta era a intrusão e confusão provocada por gente de fora. Mas o negócio do Luiz era esse e mesmo com ciúmes nos alegrávamos que prosperasse em seu domínio, na sua alegria. Durante muito tempo todos os clientes novos do Luiz Barriga eram obrigados a formalizar a adesão à Ordem. Hoje o movimento só existe na lembrança dos sobreviventes...

Botequim no Cachambi Funda

A Confraria da Ordem da Garrafa

Para homenagear o Soho, grande bairro boêmio de Londres, os freqüentadores do Bar Riga, localizado no bairro do Cachambi, fundaram a Confraria da Ordem da Garrafa, em homenagem ao rei dos boêmios, Timothy Rosie Cotter, de profissão alcoólatra, falecido recentemente. No mesmo dia em que Rosie morreu num xadrez de Brixton, aonde fora recolhido por bebedeira, um grupo de freqüentadores do Bar Riga, liderados pelo proprietário Luiz Barriga, fundou a Confraria e inaugurou o Livro de Adesão da Confraria, cujas cinqüenta páginas já se encontram quase que totalmente preenchidas. Foram criados igualmente, a Medalha Timothy Rosie Cotter e o Diploma de Membro da Confraria da Ordem da Garrafa em bonita impressão.A idéia foi tão bem recebida que o Bar Riga vem recebendo visitantes e adesões de todo o Brasil, tornando-se ponto de encontro dos boêmios daquele subúrbio carioca. O Bar Riga fica na Rua Miguel de Cervantes, entre os bairros do Méier e Maria da Graça e divide a preferência com o Bar Amendoeira, citados ambos no livro Botequins do Rio, pela qualidade das comidinhas e do chope servido.

Luiz Barriga – preciso explicar a razão do nome? – bem, com seus 1,90m de altura, ele simplesmente pesava mais de 200 kg! Bem diferente das fotografias do tempo que serviu na Marinha, musculoso, halterofilista, lutador de jiu-jitsu. Gostava, ele mesmo, de cozinhar e elaborar o cardápio do pequeno Bar. Os pratos eram típicos... da cabeça dele: Galo Velho, Vaca Atolada, Galinha Atropelada, Bode Manco, Boi no Pasto, além do tradicional Mocotó de Unha, Feijoada com Porcaria, Rabada Verde... Alguns tinham como tempero, além da pimenta, claro, cachaça ou cerveja. Quando eu ia comer lá, tinha que me resguardar durante alguns dias de comida pesada.

Eu costumava chegar no Bar falando alguma asneira em alta voz, gritando, em ritmo de provocação, coisas assim como: “Luiz, minha mulher me traiu, fugiu com outro, levou os meus filhos e roubou todo o meu dinheiro!” Ou: “Luiz, estou de ressaca, ontem fiquei bêbado, briguei na rua, fui assaltado, fui preso depois atropelado por um ônibus, apanhei da mulher e fui expulso de casa!

A essas e outras provocações ele sempre respondia com uma vasta gargalhada: “Então veio ao lugar certo: aqui que é lugar de corno!

Depois da intimidade Luiz Barriga extrapolava. Largava o bar com seus filhos e sentava à mesa, bebia todas as bebidas, se fartava das comidas e tudo que nos servia era compartilhado com o próprio. Mesmo depois que o Bar Riga fechava, permanecíamos lá dentro, as portas arriadas, para não ser incomodado por ninguém.

Nessa época eu andava viajando muito a trabalho e não tendo como acompanhar esse ritmo alucinado passei a evitar o Bar Riga. Quando voltei de uma dessas viagens tive a notícia que o Luiz Barriga havia morrido. Já passei lá no Bar Riga algumas vezes, conversei com seus filhos, mas não encontrei o Luiz Barriga, não senti a presença dele ao meu lado, nem quando pedi uma dose daquele horroroso Pau Pereira.

Onde você estiver eu brindo de coração:

– Saúde!...

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Quem sou eu? Meu nome é Salomão Rovedo (1942), tenho formação cultural em São Luis (MA), resido no Rio de Janeiro. Sou escritor e participei de vários movimentos poéticos nas décadas 60/70/80, tempos do mimeógrafo, das bancas na Cinelândia, das manifestações em teatros, bares, praias e espaços públicos. Hoje bebo minhas biritas pelos pés sujos de Copacabana, Méier, Cachambi. Tenho textos e livros pelaí nas internets da vida. É só procurar.
-Sucesso pro boteco...

6 comentários:

Deveras disse...

Fiquei impressionadíssimo com a Ordem da Garrafa...

Visitas como estas horam todo Bar que se preze.

ficanapaz!

Klotz disse...

Maravilha de história.
A realidade e o folclore se misturando na medida de um copo de cachaça.

Me Morte disse...

Esse é, literalmente, o grande que satisfaz,ss. Muito bom. essas histórias marcam a gente, botecos e figuras que ficam.

Mão Branca disse...

quando conheci a história fiquei com medo de postar no blog e poucos lerem pelo tamanho. mas, sabe, não importa. a história basta por si.

Angela Oiticica disse...

Grande estória esta de um recanto no Rio. Os personagens são interessantes...me prendeu a atenção.

machado011@yahoo.com.br disse...

O Barriga continua... O Salomão existe... Precisam vê-lo bebendo aqui na Praça Mauá, Rio de Janeiro, florido pelas putinhas que aqui frequentam... E a história/estória é meio verdade meio ficção, assim como um rabo-de galo é meio conhaque meio quinado...