quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Fadas



Ele ouviu risadas, pareciam vir da copa. Quem? Sabia que não havia mais ninguém em casa.

Levantou-se da escrivaninha, cauteloso. A copa. Risinhos cascateantes. Onde? Nada que se visse: a mesa redonda sobre os ladrilhos azuis, quatro cadeiras de plástico, a geladeira a um canto.

Dentro da geladeira?

Nada.

Apurou o ouvido. Sim, logo abaixo do lustre, os risos. Delicadas gargalhadas femininas. Sobre a mesa? Uma fruteira com pedestal. Nada de mais nela: maçãs, laranjas, bananas. Duas laranjas, três maçãs; duas bananas em um cacho que já tivera dez. Aproximou o ouvido: parecia, sim, que vinham de lá as risadas.

Uma das bananas pareceu trepidar. Ele viu que tinha uma aparência estranha, meio estufada. Mofo? Arrancou-a, separando-a da outra. Cautelosamente a descascou. E ali estavam, entre a fruta e a casca!

Ele atirou a banana ao chão, num gesto surpreso entre susto e nojo; nojo que logo foi substituído por um maravilhamento incrédulo.

Fadazinhas – ou coisa parecida – mulherinhas (coisas vivas, bípedes e aladas), do tamanho de saúvas, com pequeninas asas irisadas, algumas nuas, outras com vestidinhos azuis e rosa, desceram rindo da banana para o chão da copa, correram para a cozinha, passaram por baixo da porta, fugiram para o quintal. Uma que ficara presa entre a fruta e o chão ergueu a banana com um gemido de esforço, escapou da prisão e, com um grito agudo de medo do homem, correu atrás das companheiras.

Ele destrancou a porta de ferro, procurou a danadinha. Noite escura, lua clara. Ouviu risos entre as gavinhas do pé de chuchu. Olhou para cima e o som de riso já não parecia mais vir do alto, mas do fundo, de dentro dos tomateiros. Revirou as plantas, não viu nada. Silêncio, exceto por uma buzina pressionada na estrada, fora de hora. Mas talvez – ou seria ilusão? – de cá e de lá, risinhos abafados, como se agora elas cobrissem, com as pequeninas mãos, as bocas minúsculas.

Olhou para um lado e para outro, entrou em casa, trancou a porta com uma última verificação do entorno.

Foi até a copa, mãos no bolso, assobiando baixinho. Encostou o ouvido na banana que restara sobre a mesa. Observou-a por todos os lados, tocou-a com o dedo médio da mão direita e retirou a mão no mesmo instante. Criou coragem e tocou-a novamente. Destacou a fruta do talo.

Com cuidado atento, descascou-a.

Estava vazia de fadas. Apenas uma banana como qualquer outra. Ele suspirou e comeu-a, pensativo, conformado.

6 comentários:

Ruy disse...

Lindo, divertido, irônico poético.
Indispensável!

Deveras disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Deveras disse...

Gostei, leve e despretencioso, vai carregando o leitor junto com o protagonista para ver o que acontecer� com as fadinhas. Espertas elas, enganaram a todos.
Agora, achei o tamanho destas fadas diminuto... Acho que por causa de certa vez ter encontrado uma na rua. Pedi um milagre na minha vida, me abaixei para ser tocado pela pequena criatura (tinha mais ou menos 1,30m). Ela me bateu com aquela merda de varinha na cabe�a e depois levou minha carteira. A pol�cia veio me dizer que eu estava b�bado e que ela era uma an� famosa punguista que ia a uma festa � fantasia. Nunca me enganaram...

Ainda acredito naquela fadinha.O dinheiro n�o me trazia felicidade. Depois que ela o levou, minha vida mudou.

Engra�ado, fora o sargento que registrou a ocorr�ncia, nunca tinha dividido esta est�ria com ningu�m.

Bem vinda ao Blog

ficanapaz

Betty Vidigal disse...

Adorei sua história, Deveras! Vc devia escrever isso como crônica! O final é ótimo, me fez pensar em Na Praça Clóvis, do Paulo Vanzolini, q Chico Buarque gravou...

Klotz disse...

Deliciosa leitura. Maravilhosa estréia no Ezine. Seja bem-vinda.

Com os olhos acompanhei a fuga risonha das fadinhas por debaixo da porta, depois ajudei a procurar no tomateiro e fiquei frustrado por não encontrar outras na banana restante. E, eu que julgava não gostar de fadas...

Cicilita disse...

Então, menina! Custei a vir ver, mas vim.
Nossa! Suspirei de alívio quando, descascada a 2º banana, não havia nenhuma fadinha. Estava quase certa de que o tal as comeria, se mais houvessem. Tipo índio, sabe? Quando se angaria os dons alheios ao devorar a causa de sua admiração!
Bjks mís!
Até o próximo 8