sábado, 3 de maio de 2008

Breve Romance - Juliano Guerra

Rebeca arranha meus ossos com a chave de fenda, a não ser, é claro, que eu peça para que ela pare, mas eu não peço, então ela começa estourando o pus de uma acne e termina arranhando os ossos. Especialmente as pontas, ela é uma mulher de extremos, leitora de Maiakovski, oriunda de colégio católico e puta nos fins de semana.

Eu sofro de atavismo moral, os pés resvalando sob a forca – muita saliva para pouco chiclete. Rebeca abre trilhos nas minhas costas, me queima de cigarro, paga as minhas contas. Eventualmente levo flores para sua mãe ou brinco com a caçula da família, com o cu na mão e o seguro desemprego no bolso. Rebeca me fode legal.

Nos fins de semana alugamos uma casinha na praia, em tecnicolor. Ela calça as chinelas e eu leio Clarice na varanda, levemente alcoolizado. Quando perde a graça compramos novos objetos perfurantes para nossos órgãos sexuais – eu mando a literatura se foder. Faço uma greve de metáforas e falo, cabuloso, exatamente o que queria falar, de preferência em tons pastéis.

Comentamos os surrealistas, confundimos nossos óculos de aro preto – perdemos o tesão, até. Mas no final tudo acaba bem: eu faço uma zorra da sacada do edifício, ela me vende como escravo branco para a máfia bosnio-herzegovina. Pegamos um filminho iraniano.

Vocês que já bateram punheta para um filme do Andy Warhol e não gozaram, hão de convir comigo: a pós-modernidade pode ser mesmo uma bosta.

4 comentários:

Larissa Marques disse...

Antes de mais nada dar-te as boas vindas, que saiba que é um espaço mais que merecido, já que nesses útimos tempos tem sido o mais badalado escritor de prosa do Bar do Escritor.
Quando Giovani me incumbiu da tarefa de preencher os lugares vagos, foi pensamento certo. Sua escrita, pela força que tem, dispensa elogios ou rapapés.
Mais uma vez, bem vindo!
E quem ganha somos todos nós.

André Luiz Rodrigues disse...

Faço minha as palavras da LArissa, fio da mãe.

medusa que costura insanidades disse...

essa da chave de fenda com Maiakovski é eterna nos varões da cabeça...

Francesca disse...

ÉS tu, o próprio! Parece ser, hummm, essa história lembra um certo Juliano que assistiu aulas com um certo João Manuel e tal...errado?