quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Sobre os tais 20 centavos




Deixei o carro de manhã na oficina eu fui pro ponto de ônibus. Até me ofereceram carona, mas falei “ah, um busu não incomoda, relaxa”. Subi no 136 para sair do burguês Lago Norte em direção ao centro de Brasília. “É pela W3, motora?”, ele confirmou.
Li na plaqueta: ônibus urbano I custava 2 reais, urbano II era 3 reais e outros mais. “Quanto é?”, o cobrador esticou dois dedos, depois aumentou um, ou seja, 3 reais. Paguei, mas, confesso, achei estranha a mudança de dedos, talvez fosse lerdeza do cara.
Pensei na minha própria lerdeza e fui me sentar. Sou daqueles calmões que saem da paz completa para DEFCON 5 em milésimos, normalmente por conta de sacanagens, babaquices ou tirações de onda.
Aconteceu, certa feita, de ir com minha sobrinha ao banco e parei o carro em frente a uma vaga. Esperava o veículo da frente passar, não queria atrapalhá-lo, porém ele embicou pra minha vaga. Dei uma buzinadinha, dessas que dizem “hei”. O sujeito, um hipster, falou “você não tava dando seta”. Ok, não tava mesmo, não era óbvio que eu ia estacionar? Mas me contive, acelerei cinco metros e estacionei em outra vaga. Saí de mão dada com a sobrinha em direção ao banco. O sujeito, cabelinho irregular, óculos grosso sem lente, camisa xadrez de flanela vermelha combinando com o tênis AllStar, me abordou e proferiu “pra você estacionar na vaga tem que dar seta”. Da paz a DEFCON 5. Soltei a mão da sobrinha e a empurrei para trás de mim. “Fica na tua, filho da puta, que não reclamei da tua babaquice”. Ele insistiu “mas a seta...”. “vá se foder, seu merdinha, que tu é um escroto ladrão de vaga que não vale a bosta que come”.
Minha sobrinha cobriu os ouvidos e, espirituosa, comentou “pode falar, tio vani, que não tô escutando nada. Laralá”. Mas eu já tinha dado meu recado. O hipster se calou, fez que ia voltar para o carro, se virou para o banco e, então, deu a volta sobre si mesmo e foi pra lugar incerto e desconhecido.
Ri um pouquinho, é verdade, mas como eu deveria agir com um sujeitinho desses, que pra se justificar por sua descortesia, tentava me culpar pelo próprio erro? Se eu já havia consentido que ele poderia ficar com a vaga pela minha falta de seta, pra quê tirar onda? Ri mais um pouco do desconcerto do cara depois da minha bronca.
O motorista do busu que eu tava entrou no Eixo W em direção à rodoviária. Fui até a frente e perguntei “hei, motora, você não falou que ia pela W3?”. Ele não respondeu. Resolvi manter a calma, não quero mais rugas e, como parafraseou o confrade Carlos Ayres Britto, para isso basta diminuir as rusgas. Saltei do ônibus e andei o excedente até meu destino.
Na volta do escritório, à noite, peguei o mesmo ônibus e, curiosamente, com a mesma dupla motorista e cobrador. Coincidência? Isso não existe, era mesmo indução quântica sobrenatural.
Perguntei novamente ao cobrador, “quanto é?” e ele respondeu “dois”. 
Eu ri. Ou melhor, mostrei os caninos. Que malandro, o cara. Sacou que o branquelão aqui com cara de burguês nem imaginava o preço da passagem de manhã e surrupiou um real, 50% do valor total, muito mais que os tais 20 centavos que estão mobilizando o Brasil. Eu ia deixar barato? Jamé!
“Ô cobrador, a passagem baixou?”. Ele abriu dois olhões de reconhecimento. “Tá lembrando de mim, né? Você me roubou um real!”. Ele olhou para o motorista, o tal que não foi pela W3 e me obrigou a caminhar excessivamente. Provavelmente eram parceiros. Eu poderia enraivecer até o DEFCON máximo, mas havia me exercitado durante o dia, caminhada com mochila nas costas, tava com fome, ia deixar barato sim, mas não sem dar o recado. “Tu é um ladrão filho da puta de merda, é por conta de gentinha como você que este país é um cu fodido.”. Exibi novamente os caninos. “Vou quebrar tua cara”.
É claro que não bati nele. Retesei os músculos e rosnei um “há” pra cima do canalha. Ele quicou de susto. E eu, novamente, ri. Fazer o quê? Espancar cada babaca safado que cruza meu caminho? Não sou o Zorro, só vivo nessa zorra humana por falta de opção, aliás, só mesmo num mundo alienígena para me sentir em casa.
Me sentei, caninos expostos num sorriso de vingança, pensando quão relaxante estava pegar o busu vendo a cara de vergonha do cobrador. Ainda me incomodava o caso do hipster, a bronca com ele só voltou por entender que algumas pessoas já estão exasperadas com as babaquices alheias, porém ele não deveria ter tirado onda. Comigo não, faço de tudo para não atrapalhar a vida de ninguém, não me venham com sacanagens.
Quando chegou meu ponto, gritei pro motora “anda mais cinco metros, safado, que quero descer desta vez no lugar certo”. Ele assentiu sem pestanejar, sabia que me devia isso.
Os 20 centavos que incomodam tanto não são uma questão dinheiro, mas de educação, respeito e honestidade. 

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crônica tb publicada no blog do autor.

7 comentários:

andrea carvalho deca disse...

ainda bem que nasci mulher. por conta disso mostro menos os dentes, mas se tivesse mais porte e caninos acho que já teria levado uns tiros por ai. sem nada disso já me faço de valente. hahhahah adorei gi.

Giovani Iemini disse...

tnxs, querida.
eu finjo que sou bravo, na verdade. já funciona. hehehe.

Pablo Treuffar disse...

coisa fina, lembrou-me o cobrador do rubão, gosto da linguagem simples, uma fez falaram pro nelson que os textos dele eram muito pobres e ele responde de bate-pronto - “meus textos são realmente pobres. só eu sei o trabalho que me dá empobrecê-los.”

MPadilha (Me Morte) disse...

É! O buraco é mais embaixo! Os velhos e bons textos "pés no chão" do Giovani, muito bom, como sempre um prazer ler...

Gabriel Machado disse...

Se eu fosse um dos caras chamava o outro e te enfiava a porrada. Hauhau que cara mais macho esse Giovani! Tem 50 de braço?

Giovani Iemini disse...

hehehe, sou impositivo. pra me encarar, tem que ter certeza da vitória. e, isso, ninguém tem.

Carlos Cruz disse...

Voltou pra polícia? hehehe