sábado, 13 de outubro de 2012

Verdades...



Assim é a vida…

A verdade do governo…
A verdade da imprensa….
A verdade de Hollywood….
A verdade do vencedor…
A verdade do derrotado…
A verdade fantasiada…
A verdade da igreja….
A verdade falsa….
A verdade conveniente….
A verdade para as crianças….
A verdade da internet….
A verdade verdadeira…

E no final, é tudo mistério!



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Mudança...novamente

Mudanças.....mudanças mundanas, pois vamos onde nos pagam mais

Se fixos quiséssemos ficar, como sanguessugas para sangria, selar raízes...sofrimento viria

Somos os pássaros não as árvores....somos o pólen não as flores
Amigos fixos....não amores

Mudamos, nós...mundanos, pois queremos o que há de melhor
Norte, sul, leste, oeste, dobre sua mente e sente...e sentado decida qual direção dobrar

Levo o mundo...levo tudo, nada leve....leve só o que for importante
Encaixote as vidas afortunada e a ferida....felicidade exposta e tristeza lacrada, agora estou pronto para mais uma empreitada

Irei mudar novamente....começar igualmente a outras vezes, mas em direção diferente
 E....diferentemente ao que já vivi, espero que a sorte sorria para mim....por mais tempo

Mudanças...sempre montanhas...escalo e espero encontrar todos meus amigos e outros no topo
Sem choro, nem reza....sem bolo nem festa, pois quando presentes...somos presente

Agradeço a todos os presentes que fazem parte da minha festa (vida) que sempre muda de local




quarta-feira, 10 de outubro de 2012

convidado Francisco Félix

Cabelo

Caía inteiro, soberbo
soberano findava
subtilmente efémero
ignorado por quem se movia
de um, para outro lado.

As árvores observavam,
baloiçando indiferentes.

Esta noite trará a lua maior do ano.
Volto a casa
com essa desculpa
sofrido, vestido d’engano.

Se eu pudesse existir!
- suspirava entre goladas -
como iria celebrar
este pôr-do-sol
a música no seu verter
a criança à janela
o sorriso a gaguejar
no olhar que arde

O cabelo branco
ao passar
da velha
sensação de ser
final de tarde.

---

terça-feira, 9 de outubro de 2012

ATALUM



Eu e Fred crescemos juntos
Da creche ao vestibular
Ininterruptamente bons amigos
Mas o Fred foi meter a pica na Laura
Essa mulata mudou nossas vidas
Suas curvas
Seus lábios
Acabaram comigo
Conheci a Laura na quadra da Mangueira
Lembro dela sambando de shortinho branco
Apaixonei-me na hora
E o Fred veio dizer estar comendo
Tava de sacanagem
Fred passava o rodo
Eu não
Numa bebedeira pedi-lhe para deixar-me a Laura
Tampamos na porrada
Brigamos como cão e gato
Parceiros, não mesmo.
Paramos de nos falar
Algumas semanas passaram
Comecei a ver Laura
Perguntei por Fred
Disse ser um cachorro
Caímos na gargalhada
Depois estávamos namorando
Fomos morar juntos
Na comunidade ninguém sabia do Fred 
Achava ótimo
Nossa vida era excelente
Saíamos pra trabalhar pela manhã
À noite, sexo.
Abundante libidinagem
Laura trabalhava meio expediente
Ficava à tarde em casa
Pra fazer-lhe companhia, perguntou-me:

- O que acha de termos um cachorrinho?

Boa ideia
Laura trouxe o mastim
Moraria conosco
Estava sozinho no sitio do seu avô
Embora não fosse filhote, aceitei.
Arrependi-me no final de semana
O canino não podia demorar-se ao meu lado
Rosnava
Na maldade
Mas valia a pena
Estava com Laura
Sem Fred
Só alegria
Samba, suor e cerveja.
Num pagode, o cachorro me mordeu.
Eu nem sabia o nome do quadrúpede
Quando perguntava
Laura respondia: 

- Cachorrinho

Cachorrinho nada
Era um daqueles galgos enormes de Roma
Imenso
Mandamo-lo de volta pro sitio
Não queria ser abocanhado
A vida professou sem o cabeça-de-ferro
As rodas de samba eram habituais
Perguntavam por Fred
Laura brincando dizia: 

- Fiz macumba

Ela era mãe de santo
Tinha um terreiro em Jacarepaguá onde recebia entidades
Grandes merdas
Nunca acreditei em porra nenhuma
A vida não é tão boa
Dois anos foram-se
Descobri
Laura estava dando pra outro
Mulata escrota
Esperei a piranha chegar ao barracão
Parti pra cima xingando
Ela rindo falou: 

- Fica quietinho, gatinho. Não sou mulher pra você comer sozinho. Não gosto de cachorrão! Lembra-se do Fred? Então, você é o meu homem, para com isso ou arrumo mandraca pra você.

Meu sangue ferveu
Dei na cara dela
Mandei na lata: 

- Mané mandraca é o caralho! Outros de cu é rola! Puta de merda, pomba-gira, tô saindo fora. Coitado do Fred, meteu o pé. Eu vou meter também, e pensar no que fiz com ele...

Ela não reagiu
Fui apanhar a bicicleta no quartinho/despensa
Acendi a luz
Ouvi a porta bater e a chave girar
Tentei abrir e nada
Tentei arrombar e nada
Gritei e nada
Era um quarto sem janela, cavado num buraco, no alto da favela.
Eu não tinha muito o que fazer
Comecei a ouvir cantigas de macumba
Atalum!
Peguei no sono 
Quando acordei, tentei falar.
Não consegui
Meu som era outro
Agonia
Desespero
A terra girou
Fios saíram rompendo-me a pele
Muito estranho
Comecei a andar de quatro 
A lua encheu e minguou 
Tudo estava grande
Ante um espelho
Vi um gato branco
Não era possível
Olhei outra vez
Sim
Eu estava preso num corpo felino
Assombrado
Sobraram verbos
Dormir e acordar 
Comer e cagar
Beber e mijar
Andar e correr
Pular e rolar 
Miar
Essa era minha vida
Esse era meu mundo
Dentro de um quartinho/despensa
Na cava
Cheiros de ração, areia, mijo e merda.
Sobrou o nada
Resignado, eu jogava nas onze. 
Sonhando com uma bolinha de papel
Advieram meses sem ver Laura
Só restava miar alto
Insuportavelmente
A vadia teria de abrir a porta
Eu pularia na jugular
Meus dentes e unhas a fariam sangrar até a morte
Eu era um gatuno
O bichano mais ágil do mundo
A minijaguatirica assassina
Ela se arrependeria por ter-me jogado mandinga
Eu miava em estéreo
Calculando meu bote letal 
A porta abriu
O cachorro dela apareceu
O Mastim Napolitano entrou babando
Voltei à minha realidade insignificante
Gatinho doméstico
Corri e pulei
Não teve jeito
Perante o mastim pastor de leões
Uma única chance, morrer rápido.
Ouvi Laura gritar: 

- Pega Fred... ksksksks... mata o gatinho!

Pendurado em sua boca, triturado e chacoalhado, balançando de um lado pro outro, pensei: “Fred”.
Fui morrendo lentamente
Macumbeira feladaputa

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Medusa,Prometeu, totens e espelhos



hoje pensei tanto nessa coisa doida
pensei no teu sorriso
sorri da tua voz
cansei de te ver
mas Gostei de te sorrir
da nesga da janela
donde despenca esse céu
eu te chamo

doidivanamente

tempestuoso vento trás teu nome
e vens arrastado e sereno
contar dos nadas abissais
braços remotos falam de totens colossais
cabeças de Górgonas caem dos bolsos
recolho cacos no colo
acaricio teus cabelos
sorrimos e eu

desentendo

deslizo dedos tortos
pelo reverso desses medos

quietos e caros
roubei a égide de uma deusa tão doida quanto eu
numa tarde quieta de abril
para congelar sorrisos
prometeu empedrar paixões e terrores

Odisseu, Aquiles, Penélope, Zeus, todos Prometeu
afrodite te escondeu sob um manto fino

oblíquo tu desvias dessa defesa incerta,
ri das serpentes que invento,
abraça-me os joelhos
através dos espelhos em que me guardas
deslinda venenos
destrava portas
ilumina desencantos febris

(imagem http://emilieleger.deviantart.com/)

sábado, 6 de outubro de 2012

mundo perro



"PERDEU, PLAYBOY!" "SE FUDEU, OTÁRIO!" "VAI TOMAR NO OLHO DO SEU CU, FILHO DA PUTA BABACA!" "VOU ACABAR COM A SUA RAÇA, SEU MERDA!"
Caixa alta, entre aspas. Assim me ensinaram na Academia de Polícia. Após o verbo e os dois pontos. A maioria dos colegas escrevia: ...então, João das Couves (policês acadêmico) disse: ou falou: ou gritou: Eu não. Preferia alternar outros verbos. Vociferar, esbravejar, bradar. Para variar, diria. Mas era mais para me exibir mesmo.


férias... férias. FÉRIAS! EU PRECISO TIRAR FÉRIAS! NÃO AGUENTO MAIS, CARALHO!



homicídios. latrocínios. sequestros. extorsões. extorsões mediante sequestros. roubos. furtos. lesões corporais. brigas. conflitos. pugnas. equimoses violáceas. lacerações. porradas. porradas. mais porradas. pow! blam! como nos gibis do frank miller. estava no limite. no limite. lembro do programa de televisão. precursor do big brother. dois programas idiotas. o segundo bem mais. babacas ávidos pela fama-fácil-sem-fazer-força expunham o que tinham de melhor: rostinhos bonitos e corpinhos sarados. caras, bocas e argumentos vazios para ludibriar os milhões de telespectros brasileños. ficaria george orwell satisfeito se vislumbrasse em que descambaria sua totalitária sociedade, sua personagem mão-de-ferro invisível que tudo via, sabia, controlava e reprimia? difícil saber. talvez almejasse a materialização da personagem, para botar ordem na casa, reprimir a súcia acéfala cheia de dentes e poses. apesar de que, e não se deve desconsiderar, há autores que dizem preferir as saudações pomposas e afetadas da crítica ao consumo desenfreado da populaça. balela! toda bexiga quer virar balão. e ganhar uma prata, pois prata é sinônimo de diversão em excesso e excessos despertam inspiração.



"conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". assim escreveu zaratustra, o discípulo. não. foi outro. barbudo. outro barbudo. que seguia aquele que alguns místicos asseguram ser zoroastro reencarnado. depois assassinado e ressuscitado. é a verdade. porque está nas escrituras sagradas. sagradas? todo escrito é sagrado. menos o diário oficial e a bula papal. o quê você disse? sei que vão cair de pau. afinal, escreveu, não leu, pau comeu! mas voltemos à verdade. a verdade é que só existe uma única verdade, ao menos para mim naquela noite fria: eu estava de - sa - co - che - i - o! por que e pra que tamanha mediocridade? beber é bom. dançar também. bater papo furado idem. foder, ah! gozei! nem vou mencionar a leitura de bons livros ou a audição de algum blues - qualquer um - ou até mesmo música erudita, pois isso é prazer para bestas empoladas como eu. por que os filhos da puta tinham sempre, invariavelmente, que se engalfinhar, dar socos, morder, enfiar facas, dar tiros nos seus semelhantes? seria um insight? uma consciência súbita e avassaladora de sua torpe condição refletida no outro? cadê minha psicóloga predileta quando preciso dela?



delegacia cheia. à porta, fila. burburinho que ocasionalmente virava falatório que virava gritaria. era hora de chamar o investigador santiago. mãe angolana e pai sueco, santiago era um misto de hércules com zumbi dos palmares, um mulato de dois metros e dez, forte como um estivador, de olhos claros e cara de bebezão. sim, aquele homenzarrão (ai, meu deus! que bofe é esse? remeti (ã?) ao amigo do salão. inevitável.) tinha traços delicados, bochechudo como um bebê de oito meses. daí a alcunha babyssauro, pronunciada entredentes, na delegacia. contudo, a impostura que faltava ao rosto sobejava no tamanho. santiago apareceu no andar de baixo. inopinado. nem precisava dizer nada, bastava chegar e ser visto. mas, a pseudotruculência era mais que uma ferramenta de trabalho, era uma necessidade pessoal, um recurso - eficaz, é verdade - para tentar rebater a brandura transmitida pela cara de neném. e ele disse, disse não, esbravejou (tá legal, sou besta, pronto): VAMOS PARAR COM A PORRA DESSA ALGAZARRA AQUI NA DELEGACIA! ONDE VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO, CAMBADA DE GRANDESSÍSSIMOS FILHOS DA PUTA, NA MERDA DA CARALHA DA FODIDA DA CASA DE VOCÊS? PORRA! O PORRA! sempre arrematava o esculacho verbal, uma espécie de fechamento triunfal, "chave de ouro", diria professor diocleciano, do curso de oratória. O fato é que o esporro funcionou, mais uma vez. infalível, indefectível, batata. Atravessei a turba estática e com grandes olhos e quebrei o silêncio sepulcral: Santiago, segura aí. Vou comer alguma coisa. tá. mas vê se volta hoje. Vou tentar.



A noite estava fria, escura e malcheirosa. Uma brisazinha gelada e incômoda com odor de comida podre e urina esgueirava-se pelas frestas de meu paletó vagabundo comprado na loja do turco. Turco filho da puta! Vendia merda pelo preço de merda. Pensando bem, era justo. Pensando bem, o fodido era eu. Mamãe sempre dizia: estuda filho, estuda pra virar doutor e ganhar bem. Não. Não segui o conselho de mamãe. Virei polícia. Horas e horas perdidas com a cara enfiada em apostilas, livros, monitor do computador. A prova massacrante, a tonteira no final, o tombo-semi-desmaio. Um quase infarto no teste físico. Um quase surto no psicotécnico. Pra quê? Pra ganhar um salário de fome, ser taxado de corrupto e truculento pelos putos que jurei defender, sacrificar a própria vida se preciso for. Pensando bem, filho da puta era o sistema, o estado, o governo. Pensando melhor (e para encerrar a costumeira diatribe muda), o filho da puta era eu.



Cheguei ao Savana's. À entrada, constatei que o segurança era novato. Boa noite. O Rubi não veio trabalhar hoje? Do alto de seus muitos centímetros, o brutamontes dardejou um olhar hostil. Rugiu: quem quer saber? saquei a carteira - bendita carteira - e quase a enfiei na cara do negão de paletó, gravata e calça negra de tergal; o distintivo, mesmo velho e opaco, refletiu tênue a luz vermelha que provinha do interior da boate. investigador Arquimedes. a primeira reação do corpulento foi nenhuma reação. a mesma expressão carrancuda, a mesma atitude animosa. sessenta segundos depois, uma frase seca: espera aqui, vou chamar. entrou no inferninho. Enquanto aguardava, saboreava os odores que o lugar emanava, uma mescla de fumaça de chiclete tutti fruti, perfume barato e nicotina. Os aromas combinados às luzes multicoloridas e ao blues em alto volume faziam daquele lugar o paraíso na terra. ao menos para mim e os outros sacripantas bêbados embevecidos podres com quem certamente esbarraria lá dentro. queria entrar logo e me inebriar, tornar-me fumaça cheirosa e fétida, carne líquida inflamável, mergulhar e dissolver no oceano de bucetas altruístas e dissolutas, metamorfosear-me no ser primordial, metafísica e antropofagicamente ideal. quando minha ansiedade beirava o ápice, Rubi apareceu, magro, baixo e feio. sempre que o via, pensava: como um sujeito desses pode ser leão-de-chácara? o pensamento invariavelmente vinha acompanhado da impressão de que ele estava mais magro, mais baixo e mais feio. grande arquimedes, o melhor investigador da polícia civil do estado do rio! grande rubykleysson, o maior puxa-saco da vagabundagem do estado do rio! ei, alto lá, doutor! posso ser tudo mas vagabundo não sou não! trabalho e ganho meu pão honestamente. parou de traficar? pô, doutor, isso são águas passadas... agora, sou um homem lavado e remido no sangue de jesus. ah, tá. então, também não come mais as putas. bom... ninguém é de ferro, né, doutor? e jesus perdoa o pecador arrependido. ele é misericordioso. o senhor vai entrar? tem carne nova na casa, uma loirinha de olhos azuis, peitão, uma bunda de deixar qualquer um doido. sei. e você, é claro, já pegou. não, ela diz que não mistura trabalho com prazer. aquele papo de onde se ganha o pão não se come a carne. é um saco... Arquimedes esboçou um meio-sorriso. entrou.



casa cheia, mas não lotada. dava para se esgueirar entre os fregueses sem esbarrões ou pisadas. "fregueses o caralho! cli-en-tes!", diria madame samanta, a santa. com seus quase setenta, ainda fazia milagres na alcova, "dá até bicicleta em cima do pau", diziam. aproximei-me do palco, onde uma menina - que dificilmente convenceria alguém de sua maioridade - requebrava-se sensual e desajeitadamente e fazia caras e bocas para os putos que fumavam, bebiam e conversavam em tom elevado. cambada de porcos! poucos assistiam ao espetáculo. somei-me a eles. muddy waters, em um tom pontual e flácido, cantava "mannish boy" especialmente para a menina, parecia saber que aquele era o momento dela, só dela. aquela era uma das razões porque frequentava o savana's. o blues. a maioria das casas do gênero tocava apenas música eletrônica, aquele bate-estaca infernal que fazia minha cabeça doer. se não bastasse, ainda usavam aquelas luzes estroboscópicas que me deixavam zonzo. no savana's era diferente. boa música em volume razoável, luzes parcimoniosas. mirei novamente a moça, podia jurar que sua performance havia melhorado. "performance", odeio esta palavra. de repente, ela olhou para mim e sorriu. não retribuí o sorriso. sentia-me triste aquela noite, acho que mais uma vez os problemas fétidos do mundo invadiam sorrateiramente meu cérebro e se espalhavam pelo corpo todo, qual um câncer, qual odor de gente morta quando começa a putrefação. não era a primeira vez que isso acontecia. por mais que me esforçasse para mantê-los à distância e na companhia de seus donos, eles teimavam em me assaltar, me barbarizar, me emporcalhar com a sua pestilência fedorenta e voraz. você está melancólico hoje, santiago dizia. melancólico o cacete! vai se foder!, eu retrucava. a menina continuava sua ofídica dança, evoluía, dançava melhor com certeza. senti um cheiro forte, de um perfume que eu conhecia bem, francês. impôs-se sobre os outros odores não menos densos. sílvia! virei-me, dois passos e foi-se o metro que nos separava. engalfinhamo-nos naquela volúpia sôfrega e tenaz típica dos amantes que amam apenas com o corpo. beijei aquela boca vermelha como se fosse a última boca feminina na face do globo, suguei sua língua com ardor, sem pensar nos paus que ela havia acariciado naquela jornada de trabalho e em outras, centenas, milhares talvez. sabia beijar, a sílvia. assim como sabia chupar um pau. e foder. fodia muito. acho que o sucesso de sílvia se devia a um princípio simples que a aproximava de outros profissionais bem-sucedidos: ela gostava do que fazia. gozava, com quase todos os clientes, segundo me confidenciou numa dessas noites, entre uma trepada fenomenal e outra nem tanto. mas beijo na boca não, me disse certa vez, beijo na boca é só com você, meu pm gostoso. não sou pm, porra! quantas vezes tenho que repetir isso? ôôô... ficou bravinho? adoro quando você fica bravo... vem meter seu cassetete em mim, vem, meu policial malvado... esse diálogo invariavelmente terminava em uma daquelas camas sujas lá nos fundos da boate. mas nessa noite foi diferente. sílvia estava reservada para um gringo endinheirado, um magnata da internet, ela disse. fiquei puto. quando vi o sujeito, fiquei mais puto ainda. branco pálido, cara cheia de espinhas, uns vinte e cinco anos de idade, tênis nike colorido cheio de molas, calça jeans e camisa do chicago bulls. então aquilo era o tal magnata? ah, vai se foder! arrastada pelo braço, antes de sumir atrás da cortina vermelha, a puta ainda me jogou um beijo. minha melancolia voltou com toda a força. segui até o bar e pedi um uísque duplo. virei. pedi mais um. virei. outro. saí da boate, completamente e estupidamente bêbado.



a noite estava ainda mais fria. o asfalto úmido indicava chuva recente. se acreditasse que possuía alma, diria que ela estava tão fria como o clima noturno. minha cabeça acompanhava o fluxo de meus pensamentos que giravam alucinados por tempos, pensadores, bebedeiras e bucetas distantes ou nem tanto. como sempre acontecia quando bebia, tinha vontade de atirar, mas o homem-da-lei sofreava o desejo. súbito, surgiu um motorista apressado na via, bastante comum a essas horas avançadas, decerto movido e motivado pelo álcool e/ou outros entorpecentes lícitos e ilícitos. quando emparelhou comigo, reles transeunte ébrio, passou propositalmente sobre uma poça. tomei um banho de água suja e gélida. apesar da obscuridade, pude ver o sorriso do sem-mãe. FILHO DA PUTA DESGRAÇADO! saquei a arma, mirei a traseira do auto, um Jaguar XKR conversível e atirei. para o alto. por pouco a razão não perde a peleja para o coquetel de raiva e vodka. por um triz. imaginei as manchetes no dia seguinte, primeira página do meia hora e do dia: POLICIAL BÊBADO ATIRA E MATA MOTORISTA. O investigador da Polícia Civil Arquimedes Sampaio, após sair da boate Savana's, conhecido inferninho de Copacabana, ponto de encontro de prostitutas, travestis e criminosos, assassinou covardemente o estudante Felipe Stonnenberger de Alvarenga na madrugada de ontem... não. definitivamente não. não vou dar mole pra esses putos. que crucifiquem outros pra vender seus tablóides de merda. parte do porre havia passado. encharcado, tiritava. novamente pensei na minha condição miserável. sim, era isso que eu era, um miserável, um merda. a melancolia sobreveio com força total, a boca medonha cheia de dentes afiados e alaranjados devorando-me pela cabeça. senti seu hálito nauseabundo, sua saliva gosmenta melando meus cabelos e meu ânimo de viver. um tiro na cabeça, morte rápida e indolor. indolor? será? ninguém tinha voltado da sepultura para lhe contar se realmente aquele átimo derradeiro e crucial doía ou não. acho que deve ser uma dor lancinante, a maior dor que existe no universo. depois, acabou.



paradoxal a ponto de reluzir e ainda assim - por muito pouco - quase não existir, modorrenta, turva, frenética, trágica, bela (como deve ser, a despeito dos implantes e peitos de jabulanis e ferraris e perfumes importados que fazem espirrar), a deambulação emitiu seu derradeiro estertor, descambou onde deveria - quiçá - o inevitável dever desgraçado e a monocórdia ladainha incessante: só pode nunca nada poder. se foder-se! de verde, de amarelo, de azul, de branco. de preto & branco. a vascaína tá dobrando a esquina. vaza, vagabundo! desinfle até virar galho de goiabeira. vou e volto sem sair do lugar. será a tal metamorfose? ansiada, dentre outros malucos, por literatos?, musicistas?, vates?. ah! vá te danar! ou vai se! pra não eriçar tão-só um gramático braço. não dá pra ser metamorfose, tampouco ambulante. os GM zunem cassetetes na cacunda e ninguém tá aí de plantão louco pra sofrer. só os S&M de araque e os leitores do caderno B. se uso avanço, ninfas avançam; se axe, exalo axiomas. piadinhas infames. adoro. e tudo isso somente pra dizer que cheguei à DP. comichão nos dedos. vontade de atirar da porra! tem nome isso, certamente tem. síndrome do desejo irrefreável e irresistível de atirar com armas de fogo (há atiradeiras ou bodoques no Sítio do Pica Pau Amarelo, nunca é demais relembrar, mesmo que os garotos informáticos e x-bóxticos desconheçam). deve existir. outra psicossomose bacana que consta ou deveria constar do vade mecum da psiquiatria: dependência de dupla penetração na delegacia de polícia. a merda é que só mulher feia e viado iam sofrer dessa porcaria. bosta!



giroflex vermelhos girando e girando e girando. sem parar. vermelho. sangue. vermelho-sangue. um sujeito negro chafurdando no seu próprio sangue no piso amarelo. pms com testas franzidas, fardas cinza engomadas, olhos injetados. sangue. olhos de sangue. sangue nos olhos. ao balcão, uma mulata chora. olhos entalhados no fundo de olheiras negras chovem em conta-gotas. lágrimas ininterruptas, fartas. sangue. lágrimas de sangue. farto, de novo novamente mais uma vez. estou farto e trêmulo. insano, enfim, estremeço. atirar! quero muito. necessito atirar! e atiro. descarrego minha pistola. recarrego, atiro de novo e de novo e de novo. alvoroço. pandemônio. pessoas ao chão. pms e civis e santiago se entreolhando, atônitos. em meio ao caos, transtornadamente tresloucado, sinto o calor no ombro somente quando a munição acaba. fumaça, neblina e cheiro de pólvora. o fluido vermelho que jorra, a cântaros, torna-se uma mancha crescente no piso amarelo. concomitante, choro e rio. babo também, acho. ora penso estar louco e sou tomado por um sentimento que acredito ser a alardeada, almejada felicidade; ora sobrevêm a decepção a partir da constatação de que ainda concateno pensamentos. dizem que os loucos não pensam. penso, logo, raciocino, logo, ajo em conformidade com a razão. quem disse isso? há estudos científicos comprobatórios de tal assertiva? ou serão meras quimeras dos dementes? não tenho respostas nem as desejo, quero apenas prolongar essa sensação de purificação libertária, esse júbilo remissivo que me enche de paz e me dá ganas de morder os dedos do pé e cantar as músicas do Benito di Paula. justo nesse instante - por que tão fugaz? - vejo a luz. vá para a luz, caroline! feliz, sim!, imirjo na lagoa rubra iluminada por pássaros de fogo emissários do hades. apago a luz e acendo um sorriso sem dentes no canto da boca. desapegado e telúrico, etéreo e com pés plúmbeos, não ascendo. a vida, afinal, não é assim tão ruim.



dolorido, desperto. deparo um mar de branco hospitalar. sinto-me um náufrago em minha solidão. a felicidade debandou ou viajou em férias ao camboja. quem sabe virou cinzas, causticada pelos pássaros de fogo. as lembranças vêm em pequenas doses, ao sabor do latejar do meu ombro. santiago aparece. segundo ele, surtei de alto a baixo, de frente e de costas, por dentro e por fora. em suma: endoideci geral e de vez naquela vez. serei avaliado e muitíssimo provavelmente - creio ainda não ter referido a simpatia de santiago pelos superlativos absolutos sintéticos - afastado pela psiquiatria; readaptado, talvez. felizmente - disse-me ele - não matou nem feriu ninguém. o computador do plantão, porém - coitado! - já era. virou uma peneira. trinta e um tiros é tiro pra caralho! você tava mesmo com raiva do pobre. volvi a cabeça e de soslaio, sorri esboçado e satisfeito como o jogador que vence a partida. missão cumprida. eu destruíra a caixa de pandora e salvara o mundo. glória a hesíodo! e a mim, claro. de preferência, acompanhada de uma medalha e uma promoção por bravura. afinal, a escassez de heróis demanda lauréis aos intimoratos necessitados de um cascalho a mais pra gastar com pornografias culturais e vícios legais. porque sou - convém jamais esquecer, sequer por um (seria ótimo?) átimo: um homem da Lei! VAGABUNDOS DE TODO O ESTADO, DO TIPO CORRIQUEIRO OU NEO-CONVERTIDOS CAOZEIROS, TREMEI! investigador arquimedes, o martelo da justiça, o flagelo dos párias, ainda está no páreo! a trovoada seguida do matraquear do granizo sobre o telhado galvanizado deu o tom maldito propício ao fechamento da diatribe. o céu desabava sobre as cacholas dos humanos, contribuintes e não. uma exaltação brotada na planta dos pés - pra não dizer frenesi, sempre achei um termo meio gay - escalou, deliciosamente implacável - nada adiantou, ficou gay do mesmo jeito - meu corpo e descambou e explodiu no cérebro. olhei a cidade enevoada e fluida e tive a certeza da inutilidade da minha existência. por isso e somente por isso, pela primeira vez, senti-me parte do todo social, mais idiota do que nunca. tive ímpetos de gargalhar.



e gargalhei.



Carlos Cruz - 18/12/2011

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

ARITMÉTICA NOTURNA




Dois copos
um cinzeiro
várias idéias
nenhum rumo

Seis cervejas, dois whiskys
mililitros alcoólicos
dez da noite
noves fora
páginas rabiscadas
péssima caligrafia
sem enxergar direito
tentando escrever poesia:
completamente bêbados
não fizemos porra nenhuma
só o de sempre. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Carta a Kerouac parte XIII, com cena de Sheyla de Castilho e a Palavra elétrica

http://www.youtube.com/watch?v=x-1eJr7ediQ&list=PL3DF0D8F92B3AED9B&index=1&feature=plpp_video


O que acaba comigo é a realidade, baby!

A verdade sobre os ombros dói mais que os golpes da palmatória e ainda trago marcas desses golpes em toda extensão da alma. A realidade arde bem mais que mãos depois do castigo!

Por muito tempo me enganei inebriada pela inocente certeza de ser única, especial, insubstituível.

Mas ao comprar meias-finas entendi que não fazem apenas uma e sim milhares delas, para mulheres que por algum tempo têm o mesmo gosto, vestem o mesmo número que eu!

O que me diferencia das outras são esses olhos enormes e agateados, vêem longe e atraem rápido demais!

Nunca quis esses olhos, nunca quis olhar as coisas com esse jeito de cachorro-do-mato, como quem assalta o galinheiro com prazer e foge para não ser apanhado.

Vejo as coisas como são e não quero encarar, desejei um filtro que me protegesse dessa dor nos olhos e não há óculos escuros que me livrem da verdade.

Recordei-me de uma noite em que me perguntou por que eu pedia para me foder com a força que tivesse e naquela época não tinha a resposta.

Hoje tenho.

O que não dói, não machuca, não penetra fundo e não rasga, não é real, baby!

terça-feira, 2 de outubro de 2012


SÁBADO 03 DE NOVEMBRO
AS 19:30 HS NA CASA DAS ROSAS
TEM SARAU A PLENOS PULMÕES
Lançamento do Livro da poeta Flá Perez , "POESIA SE ESCREVE COM T"
ENTRADA FRANCA MICROFONE E PALCO ABERTO
Av. Paulista , 37 Casa das rosas
Apresentação : Marco Pezao, Carlos Galdino e Jaime Matos


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Coloque o cinto, cidadão



- sabe por que te parei? – o guardinha da PM conferia meus documentos.
“Denúncia de que vim a esta favela para comprar maconha?”, mas deixei o pensamento só na cabeça e a sacudi num muxoxo de dúvida.
- o senhor não está usando o cinto.
“Ufs”. E respondi numa indefectível rima urbana: - sinto por isso.
- o senhor sabe que o uso do cinto é obrigatório, a falta de uso é passível de multa...
Fui concordando, enquanto pensava que essa lei servia apenas para o Estado exacerbar seus deveres e transferir ao cidadão o direito de escolher como se proteger em seu próprio carro ou na sociedade, igual o uso obrigatório de capacete para pilotos de motos e bicicletas e a proibição da posse de armas.
- mas desta vez vou te deixar ir embora. – Falou, magnânimo.
“Ah, a providencial preguiça das autoridades públicas que regula o sistema”. Assenti num ok, dei ré e engatei a primeira.
- coloque o cinto, cidadão.
- ué, você não disse que me deixaria ir embora?
- sim, mas de cinto.
Fingi que prendia o cinto e acelerei. Soltei meu corpo tão logo rodei alguns metros. “Sinto mais uma vez, seu guarda, mas sigo regras somente quando são úteis”. Peguei o baseado no cinzeiro, traguei e joguei a bituca pela janela, entristecido, eu não gosto de jogar lixo na rua, mas não podia manter o flagrante no automóvel. “Tchau, seu guarda”.

---
publicado originalmente no blog Bastardos do Velho Safado.