sexta-feira, 22 de abril de 2016

Baleado

Quando chegava ao quarto cambaleando, sentia-se como um voluntário do atirador de facas; Enquanto a cama girava, ele ficava inerte, incapaz de desviar das acusações.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Trabalho

Almir é aquele tipo de cara que sempre prezou pelo seu trabalho. Dedicado na função, nunca deixou que outro compromisso, fosse este por lazer ou pura diversão, o atrapalhasse na execução de seu trabalho. Como Almir dedicava sua atenção máxima ao que fazia, seu foco raramente permitia que ele fizesse algo diferente quando em serviço. Normalmente mantinha o celular desligado - não naquela quarta-feira.

Almir vinha saindo com uma daquelas garotas difíceis de encontrar por aí; daquelas, como se diz, “para casar”. E foi dela a ligação que Almir recebeu, fato este que o fez no mesmo instante contrariar todos os seus princípios, mesmo que ele estivesse prestes a executar uma função importantíssima de seu trabalho.

- Alô? Oi Ritinha, tudo bem, e você? ... Sim e não. Tô a trabalho e não tem problema não, pode falar comigo sim... Não, só achei que seria importante te atender, afinal de contas, a gente tá se vendo bastante ultimamente né? ... Hum? Ah, eu gostei do suflê de batatas que você fez... Por que eu não comi muito? Ah, eu tinha comido um doce que não me caiu bem naquela tarde.... Sim, é claro que gosto de você também, você sabe que nunca ligo o celular em meu trabalho, só o deixei ligado por sua causa, Ritinha... É, prestação de serviços, entende? Ah... não, claro que posso te falar Ritinha... Sim, eu sei, eu sei que você me conta tudo. Puxa, te admiro mais ainda por isso! ... Não, nunca! Nunca casei, nem sequer namorei por muito tempo seguido, imagina que ia estar te escondendo uma relação... Não, esse não é meu perfil... E por que eu escondo o trabalho? Não, espera, eu vou te dizer quando chegar a hora certa, meu amor... Hã? ...Você gostou que te chamei assim, de “meu amor”? Ah, imagina. O quê? ... Ator pornô? De onde você tirou essa ideia maluca, Ritinha?? ...Ah, faça-me o favor... Eu tenho vergonha de pôr sunga quando vou à praia, imagina ficar pelado em frente às câmeras... não, eu prometo que vou te dar mais detalhes, não tem nada de mais mesmo... Vergonha? Não, nenhuma. É algo particular apenas, sei lá. Olha, posso te dizer isto de certeza: esse dinheiro que vou ganhar por esse trabalho vai me deixar tranquilo por, digamos, uns dois meses... Podemos sair jantar juntos, ir até Campos do Jordão pegar um fim-de-semana na serra... Ah você prefere Búzios? Ótimo, Búzios será... também gosto de praia Ritinha, adoro o mar. Já falamos sobre isso na noite do estrogonofe de frango que você preparou... Ah, era de carne, claro! O quê... Ritinha, não vamos começar uma discussão sobre isso. É claro que gosto da sua comida, eu não limpei o prato aquela noite? ... Sim, tá vendo? Ops, Ritinha, agora tenho que desligar que o batente me chama... eu também... um beijo bem gostoso para você, preciso desligar mesmo. Nos falamos à noite!

Almir desligou o telefone e deu uma última olhada na foto que seu cliente havia ele enviado pelo celular. Sim, os dados batiam. Almir discretamente saiu de seu carro, usando o seu tradicional uniforme – terno de tom escuro, gravata de cor única, e seus óculos Ray-Ban que sempre lhe davam sorte no cumprimento de suas metas. Atravessou a rua, aproximando-se do cidadão da foto:

- Com licença, o senhor é Aldo Viriato, certo?
- Sim. Quem gostaria? – respondeu o senhor de meia-idade num tom de voz um tanto autoritário, e o olhar desconfiado.
- Eu tenho uma encomenda enviada pelo Tarcísio, da factoring que o senhor tomou dinheiro emprestado alguns anos atrás, lembra?

O homem de meia-idade engoliu a seco a informação. Mudando o olhar de inquisitivo para surpreso numa fração de segundos, ainda tentou dizer:

- Eu ia mesmo ligar para ele hoje, agora na verdade eu estava prestes a fazer isso...
- Tarde demais, seu Aldo.

Com uma habilidade de quem conhece o que faz, Almir sacou a pequena pistola Beretta de dentro do seu paletó e disparou um, dois, três tiros na barriga de Aldo; que, impotente, caiu de joelhos na calçada. A passos rápidos, Almir atravessou a rua e voltou para o seu carro, antes olhando para os dois lados a certificar-se de que não havia ninguém na rua. Deu partida no motor, e foi para casa pensando que não deveria ter mentido para Ritinha.

Realmente, o suflê de batatas não estava bom. Um tanto quanto abatumado.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

Dona Dora

O que me trouxe aqui é uma história pra lá de inusitada, seu Júlio. Caso o senhor disponha de tempo, gostaria de narrar os acontecimentos nos mínimos detalhes para lhe inteirar de todas as circunstâncias. Espero que ao final da minha narrativa você, desculpe-me, o senhor tenha dados suficientes para poder nos ajudar, livrando-nos deste pesadelo. É difícil iniciar o relato desta estranha, e porque não dizer, desagradável experiência, mas é melhor deixar os rodeios de lado e ir direto ao assunto.
Eu nunca imaginei uma mãe sendo capaz de vingar-se dos seus filhos. Sempre acreditei piamente na impossibilidade de sentimentos vis por parte de alguém capacitada a produzir vida. Deus é criador e é amor. As mães também criam, geram vida e são amorosas. Então, como explicar a atitude de mamãe para conosco, seu Júlio?
Tudo bem, estou calmo, fique tranquilo. Bom, somos em três irmãos, todos gravitando na faixa dos quarenta anos. Como já lhe disse, me chamo Alexandre e sou o caçula. Temporão por acidente e solteiro pela ausência de paixão, acredite.  E sendo o único livre de responsabilidades familiares coube a mim a missão de cuidar de mamãe quando ela enviuvou. Tão logo papai desceu à sepultura após o aneurisma, desmontei meio a contragosto o meu apartamento e fui viver com ela na ampla casa de subúrbio que meu pai erguera “tijolo por tijolo” como ele orgulhosamente dizia. O senhor fuma, seu Júlio? Ah, não posso fumar aqui? Sem problemas. Como e ia dizendo, sou o único solteiro e o senhor há de convir que para um homem acostumado a independência de morar sozinho, foi um tanto sacrificante esta mudança de hábitos, mas alguém tinha que renunciar  parte de sua vida para o conforto de mamãe que vivia há quase cinco anos em uma cadeira de rodas desde que uma poderosa artrose lhe assaltara os movimentos das pernas. Alberto, meu irmão do meio, mora com mulher e filhos em outra cidade e Acácia, primogênita e oito anos mais velha do que eu, tem sua própria família composta de marido e filhas problemáticas para  zelar.
Assim, mamãe ficou entregue aos meus cuidados. Eu procurava facilitar-lhe a vida, administrando o pequeno patrimônio que papai nos legara sem, contudo, deixar de viver a minha existência com certa autonomia. Isto significava dedicação ao meu trabalho como cronista de um jornal popularesco no horário comercial e eventuais casos amorosos tão logo a noite se desfraldava. Não me leve à mão, mas não vejo porque mentir para o senhor. Sou mulherengo mesmo, desculpe a franqueza. E por estas e outras, mamãe passava a maior parte do dia sob responsabilidade da Marta, uma simpática e robusta enfermeira por mim contratada. Ela parecia entender minha condição de homem e de profissional e, resignada, aproveitava minha parca companhia quando o meu tempo livre se dilatava.
Meus irmãos pouco apareciam para visitá-la. Alberto ligava semanalmente, mas demorava poucos minutos no telefone com ela, como se uma obrigação cumprisse. Acácia fazia aparições relâmpagos na casa do subúrbio e invariavelmente saia munida de um empréstimo cujo pagamento minha mãe raramente via concretizar-se. E assim a gente ia tocando a vida.
A primeira vez que eu percebi em mamãe certa mágoa com o nosso descaso foi cerca de três dias após a noite de autógrafos do meu primeiro livro. Sim, sou escritor. Não falei que escrevo crônicas para um jornal? Ah, o senhor mão me conhecia. Bem, vê-se então que eu sou bem menos popular do que imaginava, mas isto não vem ao caso agora. Toda a família estava presente na livraria onde seria a noite de autógrafos. Meu irmão despencou lá de Minas trazendo de contrapeso a mulher e os meninos. Acácia, que detesta livros, mas adora uma festa, não deixou de comparecer e mamãe ficou aos seus cuidados, sendo assessorada pelas minhas sobrinhas já adolescentes.
O senhor deve imaginar que eu era o centro das atenções naquela noite e isto me manteve todo o tempo ocupado, autografando o livro, atendendo à imprensa, forçando sorrisos e outras pequenas atitudes necessárias para o sucesso do evento. Lembro de haver tirado fotos com boa parte da parentada. Tinha certeza que mamãe estava em uma destas benditas fotos e qual foi a minha surpresa quando ao pegar loja os negativos revelados não encontrei nenhuma foto com a mamãe. Estavam todos lá, seu Júlio, divididos em várias imagens, sorridentes, segurando meu livro, abraçados a mim, mas faltava mamãe. Vendo as fotos, mamãe demonstrou uma surda mágoa com o incidente. Na mesma hora liguei para a Joyce, minha sobrinha mais velha e dona da câmera fotográfica, perguntando o que  havia acontecido. Ela disse ter certeza que havia clicado a mim e mamãe juntos e que talvez a máquina tivesse travado ou o filme houvesse chegado ao sem fim, ela não sabia ao certo. Moral da história, seu Júlio: ninguém assumiu a culpa pelo constrangedor episódio.
E o senhor nem imagina o que aconteceu depois. Isso mesmo! O ocorrido repetiu-se! Desta vez, nos 15 anos de Leonora, a outra filha de minha irmã. Fotos reveladas, mamãe ausente. Puro esquecimento e desconsideração. Minha também, o senhor está coberto de razão. Só que desta vez mamãe soltou o verbo: “esqueceram que eu pertenço a esta família, ou então vocês têm vergonha da aleijada aqui” – ela repetiu esta frase por meses, seu Júlio. Eu até a decorei de tanto que a ouvi.
A partir de então, em todas as ocasiões festivas, tomávamos as devidas precauções para retratarmos mamãe, mas, observando recentemente algumas fotografias daquela época, percebi em seu semblante a tristeza como que nos demonstrado que aquele nosso gesto em verdade consistia em nos livramos de uma eventual culpa de pisarmos na bola do que sincera consideração para com ela.
Viveu mais cinco anos, seu Júlio, e morreu como um passarinho. Estávamos nós dois na sala de casa, numa daquelas noites que me faltava uma companhia feminina, conversando banalidades quando o telefone que ficava em meu quarto tocou. Foi o tempo entre ir atender a chamada, constatar o engano e retornar à sala. Encontrei mamãe morta. A gente soube pelo Doutor Peçanha, cardiologista dela há muitos anos, que ela foi vitimada por um ataque fulminante. Ele me garantiu que nem dor mamãe há de ter sentido. Mas foi muito triste, ver o corpo dela ali, jogado sem vida naquela cadeira de rodas, cabecinha branca pendendo de lado como se dormisse. Lembro como se fosse hoje, parece que eu estou vendo a cena. Eu sentei-me ao lado da cadeira, acariciei seus cabelos ralinhos e, derramando lágrimas sentidas e sinceras, pedi desculpas por mim e pelos meus irmãos pela falta de atenção nestes últimos anos, pelo nosso descaso. Apesar de tudo, ainda tentei argumentar com o seu cadáver que as nossas ocupações e o ritmo de vida que levávamos eram os verdadeiros culpados por nossa pouca dedicação. Só depois eu liguei para a mana. Perdão pela voz embargada, seu Júlio, mas o senhor entende, não?
Bom, agora, o motivo que me trouxe aqui. Mamãe se vingou de todos nós, seu Júlio. É sério! E Alberto foi a primeira vítima. Calma, eu vou contar. Alberto e Isabela são pais de dois meninos com menos de cinco anos e curtem registrar o crescimento dos garotos através de fotos. Após uma das inúmeras sessões fotográficas, no quintal de sua casa, Alberto percebeu um vulto estranho em uma das fotografias, próximo ao muro, meio por detrás de um arbusto. Intrigado, pois só ele, Isabela e os meninos encontravam-se em casa, ampliou a foto e, assombrado, descobriu o rosto de mamãe! Sua expressão era de uma perturbadora sisudez. Uma imagem vale mais do que mil palavras, o senhor já deve ter ouvido esta frase, não é verdade, seu Júlio? Pois é. Mamãe decretara toda a culpa de Alberto por sua desconsideração com ela, intrometendo-se em um momento de lazer e felicidade de sua família.  Meu irmão enviou-me a foto  pelo computador e eu de início custei a acreditar. Briguei feio com ele, condenando o que eu julgava ser uma brincadeira de mau gosto com a memória da mamãe, que aquilo não se fazia, etc. Fique puto dentro das calças, seu Júlio. Desculpe, desculpe, não vai se repetir. Fiquei injuriado com o meu irmão. Cheguei a cortar relações com ele, embora Alberto afirmasse não se tratar de uma montagem.  Minha irmã também não acreditou na história porém, semanas depois, mamãe deu o ar de sua graça em uma fotografia de viagem que ela e o marido fizeram a Itatiaia. Era temporada de inverno e uma neblina torrencial cobria o cenário fotografado e, por detrás dos dois, via-se ao fundo uma silhueta a uns dez metros de distância que lembrava mamãe, com os mesmos vestidinhos estampados que ela costumava trajar! Somente uma silhueta era perceptível, mas eu tinha certeza que era ela!

E minhas certezas se confirmaram com a foto que eu tirei para renovar o passaporte. Aqui está ela, veja o senhor mesmo! Nítida, sorrindo, atrás de mim. Ao menos por mim ela teve piedade, não se apresentou aborrecida, a me censurar. Aterrorizados, estamos há semanas sem tirar uma mísera foto, impedidos de guardar nossas mais estimadas recordações. Meus sobrinhos correm riscos de crescer sem os seus momentos registrados, tudo por culpa deste capricho da mamãe. Sim, é espantoso, seu Júlio. Concordo com o senhor, mas, já que o senhor é médium e tem linha direta com as almas do outro mundo, venho lhe pedir por caridade. Numa próxima reunião espírita neste centro, evoque minha mãe. O nome dela é Dora, Dona Dora, e peça a ela para deixar de aparecer em nossas fotos. Já fui a parapsicólogos, exorcistas, pais-de-santo e só gastei dinheiro e ouvi conversa fiada. Após consultar estes especialistas, batia uma chapa e lá estava mamãe, onipresente, invadindo o papel fotográfico. O senhor é minha última esperança. Vai nos ajudar, seu Júlio?

Salvifici Dolores



outrora os penitentes
eram mais felizes.

ah, Deus, perdoa!
não se faz mais
cilícios
como antigamente!


domingo, 17 de abril de 2016

MinhA'lma

Minha alma é repleta de flores, 
onde cultivo meus amores,
onde minha felicidade habita, 
e só a bondade sobrevive.

Ao sol

No
Esforço
que sou
meu ser
secou
o caroço
ao sol

Virou arte

Te amar
     amar
       mar
          ar
          arte.


sábado, 16 de abril de 2016

Todos estavam errados

ele cresceu
e a vida adquiriu aquela cor
que tanto lhe diziam ser impossível

finalmente mar
finalmente flor
finalmente rosa


rosa como veneno de rato.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Matt Walters I Would Die For You


 
Thanks Matt Walters!
As coisas têm o seu tempo, enquanto cá estivermos.
Não deixarei por mãos alheias as minhas lutas pela minha liberdade intelectual.
O sofrimento pode trazer-nos felicidade, e é assim que a espero...

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Um porre

Um porre de poesia para que acordes.
musica livre, arranjos harmônicos.
o copo sobre a mesa, suando.
a luz do bar acessa, piscando.
o fio do horizonte paira, ondula.
perdura no amor de cada dose
no calor de cada arrepio.

terça-feira, 22 de março de 2016

segunda-feira, 21 de março de 2016

Moro na “República de Curityba”


Sou cidadã brasileira, porém
Moro, por mera tolice
Dita “República de Curityba”.
Onde moro as leis são diferentes.
Questiono se,
Moro, sobretudo, por soberba e vaidade.
Irresponsável ou, quiçá, ardil;
Supostamente no suprassumo do poder,
Moro qual deidade, com a mídia alienante, 
Fomenta confronto civil.
Disseminar subterfúgios para “subjugar” 
Representante democraticamente eleito
Parece, no mínimo, desconfiável.
As diferenças clamam por respeito.
Todos têm ou não iguais direitos?
E, a vestir as cores da bandeira?
Ideologias separam pessoas, separam partidos.
Mas, respeitadas as diferenças
Somos todos, nação brasileira.

Imagem: da web

sábado, 19 de março de 2016

Sem Eira nem Beira

Certa vez, fiz aqui uma rima
Sem nenhuma métrica
Apenas para levantar a estima
Em meio a uma situação tétrica

Por vezes, caótica
Para muitos, despótica
Que, independentemente de ótica
Segue sendo completamente idiótica

O assunto mais uma vez
É a tal da política
Que, mês após mês
Se tornou paralítica

Difícil de entender como uma mula
No caso, o ex-presidente Lula
E depois dele, uma jumenta
Conseguiu tornar-se presidenta

É tanto, mas tanto o cinismo
Dos que estão no poder
Que vão enfiando o país num abismo
Só mandando o povo se foder

É impressionante
E enervante
Em pleno século vinte e um
Enganar a todos, um por um

O refrão “Ordem e progresso”
Virou “Desordem e retrocesso”
Não há mais um pingo de respeito
E os calhordas ainda enchem o peito

Buscando sempre uma escapatória
Para essa situação vexatória
Se apoiam na ideia da democracia
Enquanto o país vive uma hemorragia

É, é foda mas é verdade
Toda essa insanidade
Essa máscara de falsidade
Já virou simples banalidade

Apenas para eu finalizar,
Até porque isso já está a me embrulhar
Essa é para você, político de terno,
Quero que você apodreça no inferno!!!

sexta-feira, 18 de março de 2016

Testemunho para o Futuro



dessa noite fria,

eu escrevo pra vocês
que,
como testemunho
da frágil democracia
brasileira,
em
dezoito de março
de dois mil e dezesseis,

o ódio é o amor dos nossos dias.

André Espínola

O Sacrifício

Perdido naquele inóspito lugar, ele se debatia procurando livrar a cabeça que ficara presa entre os galhos de um arbusto um tanto ressecado pela aridez da região. Nervoso ante o fracasso das tentativas e temendo pela possível asfixia, berrou por alguns minutos, na vã esperança que o seu pastor o encontrasse, cordeiro desgarrado e rebelde, fugitivo na intenção de conhecer o mundo que ele desconfiava não estar restrito ao rebanho do qual pertencia. Empenhara fuga sorrateira, escalando aquele monte ausente de qualquer pasto ou água com a qual pudesse acalmar a sede provocada pela ansiedade da aventura. Quanto mais se afastava do nível do mar mais as sensações de privação de fluidos e alimentos provocavam o seu corpo, até que, diante de um solitário arbusto esquecido no meio da imensidão de pedras e terra ressequida, os cuidados foram deixados de lado e, por consequência ali ele se encontrou aprisionado a própria sorte.
Fazia horas que o incidente ocorrera e o cansaço já começa a abatê-lo. As pernas doíam, assim como o pescoço apertado entre os galhos do arbusto. Sentiu arrependimento pela ousadia da fuga. Melhor faria se fosse obediente como os outros cordeiros e se mantivesse cortês, servil à família de pastores zeladora do rebanho. Porém, temia o sacrifício e a morte que tantas vezes presenciara. Nem só de lã e leite eles cordeiros tinham serventia. Eventualmente, um ou outro era abatido em rituais estranhos ou mesmo para a carne fornecer alimento aos pastores e aquilo o revoltava.  Tanto bem eles cordeiros faziam à família, dando o sustento necessário para a sua sobrevivência e, como prêmio alguns recebiam a degola na ponta da faca. Sua vontade em desbravar o mundo aliada ao temor da morte, para ele injusta, reforçaram a decisão da fuga.
Estava quase desistindo, aceitando passivamente o seu fim quando percebeu duas figuras humanas aproximando-se.  Imaginou que talvez fosse o pastor com um dos seus filhos que seguira o seu rastro marcado no chão infértil daquele monte e seu coração encheu-se de esperança pela salvação. Pensou em berrar para que a dupla o localizasse, mas, á medida em que os dois humanos se aproximavam, não distingiu em nenhum deles alguém conhecido, e preferiu, assim, exercer a prudência. Tratava-se de um homem já entrado na velhice, acompanhado de um jovem imberbe. O rapaz trazia entre os ombros um pesado feixe de lenha que o encurvava a cada passo. Um pouco a frente, apoiado em um cajado, vinha o ancião, levando um cutelo na mão esquerda.
Pararam cerca de 100 metros do arbusto que mantinha o cordeiro aprisionado. Descarregaram seus pertences e iniciaram desanimada confabulação. Seguindo as ordens do mais velho, o jovem começou a recolher pedras de tamanhos medianos e dispô-las de modo a formar uma mesa retangular. De onde se encontrava, o cordeiro atinou que a construção lembrava os altares onde seus companheiros de rebanho eram eventualmente sacrificados naqueles inexplicáveis rituais de fogo que ele tanto temia e, assustado, procurou ocultar-se ainda mais no arbusto que, antes carcereiro, agora lhe servia como protetor.
Foi quando o tom da conversa entre os homens pareceu sofrer certa transmutação. O cordeiro divisou no semblante outrora sereno do ancião sinais de desespero enquanto o rapaz metamorfoseava em sua face a obediência decepcionada. Não compreendeu o cordeiro a atitude do menino quando se deixou de modo resignado que o velho o amarrasse. Os dois caminharam para o altar improvisado e o jovem pousou sua cabeça sobre imitação de távola. Agora, o cordeiro observava que os dois choravam. Parecia também que os céus cairiam em pranto visto o tom pesado das nuvens cinza-chumbo que o vento carregava para o monte. O velho rezava. O jovem também parecia em oração. O cordeiro, prisioneiro em seu esconderijo, esperava curioso, o desenrolar dos acontecimentos.
Viu o cordeiro o braço direito do velho tomar o cutelo e posiciona-lo à altura do pescoço do rapaz. Misto de dúvida e horror passeou por sua mente. Acaso os homens sacrificavam-se entre si? Resoluto, o ancião levantou o cutelo e mirou a cervical do jovem, pronto para o golpe final. O terror tomou-lhe de assalto e o animal deixou escapar um berro que se espalhou pelo lugar através do vento que preludiava uma tempestade.
O velho então estancou a pancada derradeira e descobriu o cordeiro preso a armadilha natural do arbusto. Uma alegria incontida tomou o seu ser, deixando o animal ainda mais desnorteado com os acontecimentos que presenciava. Enquanto chorava, levantando em conjunto as mãos para os céus em agradecimento, dirigiu-se para o altar de sacrifícios no intuito de libertar o rapazinho trêmulo diante da morte que em segundos se fizera vida em razão de um golpe abortado. Os dois se abraçaram e encararam o animal. O cordeiro sentiu-se aliviado. Por algum motivo, ele havia feito o ancião mudar de ideia e não sacrificar o jovenzinho e, em contrapartida, seria ele libertado como prêmio.

Os dois homens cuidadosamente separam os galhos, livrando o animal da incomoda prisão mas, ao invés da liberdade, o cordeiro foi surpreendido pelas cordas amarrando suas patas. Compreendia agora o que iria se suceder enquanto era levado para o altar. Berrava em desespero diante do pavor pela morte que se aproximava. Bando de malditos, raça vil a humana, bradava mentalmente. Amaldiçoou aqueles homens e seu olhar, longe do perdão, denotava o mais extremo ódio quando o cutelo atingiu seu pescoço. Sentiu o sangue molhar o pelo alvo a ainda teve tempo de perceber e o cheiro nauseabundo das suas carnes começando a serem consumidas pelo fogo antes de perder por completo a razão.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Cuspindo sangue em manhãs de glória

encarou as paredes
atirou o copo
mastigou os cacos
e bebeu a canha
da garrafa

a noite estava somente começando
os outros celebravam qualquer coisa
suas vitórias, talvez

e ninguém nunca iria entender
que nenhum mal
ou dor
da vida
jamais
iria afetá-lo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

E por aí?


A vida por aqui anda meio conto, nada de poesia.

Mas, pelo menos, não está crônica.





domingo, 21 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Svalbard

Me lembro como hoje, o dia em que Chico me disse:
- Estou indo morar em Svalbard, cara. Eu e a Mia.
- Onde?
- Svalbard, cara. O lugar mais ao norte do mundo.
- Não conheço...
- Olha no mapa. Mas olha bem em cima, lá pra cima da Europa. Tu vai ver tudo branco lá...
- Tu tá é louco, meu!
Essa foi a minha primeira reação. Isso não faz muito tempo - quatro, talvez cinco anos atrás. Pensei no frio. Não no frio que temos, por exemplo, lá no sul do Brasil; mas sim, um frio pior que o dos Estados Unidos quando aparece em notícia do Jornal Nacional. Daí perguntei:
- E que língua eles falam lá?
- Norueguês. Lá pertence à Noruega, Andrezão (assim, bem como ele costuma ainda me chamar). Mas todo mundo fala inglês, sem stress. E pagam uma grana pra quem for trabalhar lá.
Mesmo após questioná-lo por mais um tempo, ainda assim achei difícil de engolir a ideia de meu amigo morar num lugar meio que, sei lá, tão isolado.
Dito isto, decidi por seguir minha vida no Brasil.
Após alguns meses, Chico estava lá empregado, ganhando bem e vivendo feliz com sua cônjuge sueca. E volta e meia me ligava, contando-me novidades. Sempre excitantes. Nunca pra baixo, nem uma vez sequer. Eu ainda resistia:
- Mas e a noite polar cara? Tudo na maior escuridão... não bate uma deprê fodida?
- Bate nada, cara. O negócio é não esquentar. Depois vem o período de sol pra compensar. Três meses de noite, três meses de dia. Louco né?
"Louco é você!" pensava cá com meus botões. E seguia eu, vivendo minha vida abaixo de sol, calor úmido e muito suor no Brasil.
Um par de anos já haviam se passado quando, numa noite qualquer, nos falamos novamente. Desta vez, Chico disse-me que já tinha uma bela casa própria por lá. Não só isso, mas ele e sua escandinava viajavam tudo o que podiam e mais um pouco. Não era à toa que ele fincava sua bandeira no chão quando falava em Svalbard:
- Aqui é minha casa, cara. O meu lugar. Moro numa baita casa aqui, com tudo. No Brasil, não teria nem uma bicicleta própria, eu acho.
Novamente, uma aura pessimista, provavelmente com uma pontinha de inveja, teimava em emanar de dentro de mim; aí lhe perguntei:
- Mas, me diga uma coisa amigo velho... compensa trabalhar um monte só pelo dinheiro...???
Aí ele me contou que estava abrindo a sua própria empresa por lá e, pasmem, fazendo o que ele mais gostava na vida: fotografando e filmando. Seus panos de fundo? Montanhas cobertas de neve, geleiras, ursos polares e (a preferida dele) a aurora boreal. Depois que soube das últimas novidades, parei de nadar contra a corrente. Deixei o negativismo de lado - e se esse ficou em algum lugar, foi lá no Brasil - e me mudei de mala e cuia para cá, há exatos 8 dias e algumas horas atrás. Ao teclar estas últimas palavras, ninguém mais, ninguém menos do que o próprio Chico bateu à minha porta. Já era 1 da madrugada. Apressado, foi logo dizendo:
- Corre Andrezão, desce logo. Tá bombando uma aurora no céu. Vamos lá ver e fotografar ela, agora!!!

Botei um ponto final na história e me mandei pra rua com ele...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A Mulher e o Gorila

... e o segredo é a sincronização. A mulher e o gorila têm que estar em marcações certinhas, para que a imagem de um sobreponha a do outro no reflexo do vidro. Só não é um truque mais velho do que o circo porque a lâmpada foi inventada por Thomas Edson somente no século 19, meu camarada. Mas é claro que é necessário ter luz! Eu te explico o funcionamento: em um cubículo fica a garota, trajes sumários, bem sensual, em outro, num ângulo de 90 graus e de frente para a plateia fica o cara fantasiado de gorila. No meio, perfazendo um ângulo de 45 graus, um vidro. No mais, basta um bom iluminador. No início, o público vê a imagem da mocinha de biquíni refletida no vidro. Quando a luz vai se apagando e simultaneamente vai se acendendo a do cubículo do gorila tem-se a impressão que a menina está se transformando no primata. É... primata. Um lance de escala zoológica, não estudou isso na escola? Desculpe, não quis ofendê-lo. Mas, onde é que eu estava? Ah... depois que o público está vendo só o gorila, remove-se o vidro, ele rompe o cadeado da jaula, sai correndo atrás dos expectadores, é contido pelo domador e o número acaba. Acho que essa gente que mora no cu do mundo — quando aparece um cirquinho mequetrefe é um acontecimento para a cidade — acredita realmente na mulher-gorila. Povinho ingênuo, hein? Como é que eu sei tudo isso? Fui o gorila durante anos em um espetáculo circense, ora.
Calor aqui, né? Que espelunca. Bebida horrível, música mais brega que Reginaldo Rossi. Mais uma branquinha? Por minha conta. Obrigado por me ouvir. As pessoas perderam a paciência de escutarem umas as outras. Sim, sou novo na cidade, difícil de me enturmar. Como eu ia dizendo, fiz o gorila durante um tempo no Circo Irmãos Graziani cujos proprietários na verdade eram dois paraguaios que usavam o nome de um atacante perna-de-pau da seleção italiana de 82. Vida boa, comida mais ou menos, trailer para dormir e um salariozinho para gastar na zona de cada cidade onde parávamos. Trabalho fácil. Bastava fazer uns ruídos de gorila, socar o peito e correr atrás dos idiotas. O que estragou foi quando a Giovana deu um chilique, deixou o circo e contrataram uma nova mulher-gorila. Mulherão, altona, cabelão descendo em cascata pelas costas, pele de marfim, peitões de americana de filme pornô e uma bunda incomensurável, bunda brasileira, carnuda, redonda, algo divinal. Gamei na hora. Foi uma merda. Todo dia ela de biquíni rebolando na câmara ao lado e eu de fantasia de gorila, transbordando tesão por todos os poros. Ela era safada, me dava trela e depois fugia, escorregadia feito um peixe ensaboado. Não sei por que esse negócio de peixe ensaboado. É verdade, fico divagando, fugindo da narrativa. Bom, fiquei meses nessa lenga-lenga, me declarei, disse estar apaixonado, o diabo a quatro. O máximo que ela me deixava era tocar naquelas mamonas assassinas, mas por cima do sutiã do biquíni antes da apresentação e mesmo assim tinha que pagar vinte contos para a ordinária. Isso, uma grandíssima piranha, você tem razão.
Meu mundo ruiu quando eu descobri que ela era amante de um dos Irmãos Graziani, o Paquito, se eu não me engano. Eram gêmeos idênticos. Envenenado de ciúmes, julgando-me traído toquei fogo no circo, literalmente. Um prejuízo enorme. Não, não morreu ninguém. Apenas dois pôneis e a pombinha do mágico. Do circo, não sobrou nada para contar história. Julgado, peguei cinco anos de tranca. Saí com dois. Réu primário, bom comportamento. O processo civil ainda corre na justiça. Temo pagar milhões de indenização para aqueles italianos de araque com sotaque espanhol.
Agora, estou aqui, dentro desse cabaré infame, com a infeliz ali, razão da minha perdição, ex-mulher-gorila dos infernos, pendurada no poste, se rebolando para os clientes. Se chama pole dance? Esquisito. É inglês? Qual é o nome de guerra da vagabunda? Gigi? No circo se chamava Laurinda. Sei lá se esse é o nome verdadeiro da desgraçada. Soube que ela está de rabicho com um mágico, um tal de Mondrique, de um circo mais chinfrim que o Irmãos Graziani armado por estas bandas. Quer saber? Pego mais trinta anos mas me vingo desta mulher. Dizem que o novo macho dela tem poderes sobrenaturais? Pago pra ver!
Obs: terceiro conto publicado na antologia "Respeitável Público - Histórias de Circo e Outras  Tragédias" - Editora Penalux

O Julgamento




Estava sentado no banco dos réus, disperso, com o olhar preso ao chão.

Que surpresa tive eu quando vi a mim mesmo no alto da tribuna determinando minha sentença:

- pena capital a todos os sabotadores da própria felicidade!

 nossos olhos úmidos entrecruzaram-se uma última vez.

 voltei a baixar a cabeça.

e pensei:
é justo.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O Queijo

A última safra tinha sido o ponto final de uma vida inteira dedicada à terra. Dona Eulália, Seu Bento e o filho Zeca tinham agora que encarar o rumo da cidade em busca de serviço. Qualquer serviço. A praga devorara o milho até não restar nada. Dava a impressão até que, em seu voraz apetite, a praga devorara a si mesma inclusive, numa violenta autofagia. Os poucos pertences da família, em trouxas, já estavam arrumados para a partida na primeira hora da manhã. Pegariam o caminho com o carroceiro que levava as verduras à Santana. Deram três contos por cabeça por um transporte lento e judiado. Aquela janta seria a derradeira em casa, com os parcos recursos que sobraram da família. Dona Eulália chegou do mercado com dois pacotes, o habitual de farinha e outro que causou estranheza a Seu Bento: grosso, bem embalado em papel branco, amarrado com uma cordinha. Zeca também parou pra olhar, curioso do que seria. Dona Eulália se adiantou: - Trouxe a farinha pro mingau salgado. E mais uma coisa. Como é nossa última refeição aqui, trouxe um queijo. O dinheiro que sobrou deu pra um pedaço modesto, mas é do melhor. Dá uma fatia grande pra cada um. Nisso ela foi desnudando o pacote, abrindo com delicadeza a cordinha, retirando lentamente o papel. O cheiro do queijo chegou ao olfato dos três, encontrando a fome que traziam consigo, uma fome que não era de ontem somente, era de toda uma vida desvalida e aliviada tão somente no mínimo. Foi então, sem mais, que o demônio da cobiça e da discórdia se instalou entre os três. Cobiçaram aquele queijo, não uma lasca apenas, mas a sua totalidade. Naquela hora, eles quiseram o queijo com o desejo mais egoísta que se pode desejar. Eles desejaram com raiva e beligerância em seu íntimo. Fez-se porém silêncio em suas intenções; um não sabia da ameaça que o outro representava por uma porção a mais daquele manjar, que parecia ser a última fatia digna de uma vida que acabava no campo para virar algo diferente, algo pior do que já fora. Quietos, faziam planos para terem o prazer de usufruir sozinhos do deleite do queijo. Naquele momento, não importavam consequências, o que viria a seguir. Importava apenas se apropriar sozinho do manjar, saciar o desejo ardente, tão somente. O resto era o resto. Dona Eulália se achegou ao velho fogão a lenha para preparar o mingau salgado. Zeca pensava numa forma de pegar o queijo e sair dali correndo. Seu Bento procurava a arma pra ameaçar o filho e a esposa enquanto comeria sozinho o pomo da discórdia. - Vamos sentar pra comer – disse Dona Eulália, servindo a porção de mingau de cada um. Os dois homens comiam lentamente, calculando o momento certo de agir para apossarem-se do queijo. Foi quando uma sensação estranha, de mal-estar, tomou conta deles: num instante estavam caídos no chão, convulsionando entre a vida e a morte. – Aquele veneno de rato viera a calhar – pensou Dona Eulália. E sentou-se diante do queijo com um ar tranquilo, apreciando aquela dádiva com todos os sentidos, lentamente. Uma refeição nobre como nunca tivera em toda sua vida. Depois tomaria também sua porção de mingau.