sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Cidade Velha

o cinza nubla
a paisagem tímida
da velha cidade.

congestionada,

essas ruas
quase mortas
putrefeitas
de asfalto

martírio
de quem vem
do barro,

traçam linhas
a destinar
seus ciclos
e vícios.

sumo,
invado o nada
que engole
a cidade.

sumo,
esgoto toda
a ternura
que era de cimento.

5 comentários:

Paulão Fardadão disse...

Gosto de urbanidades. O putrefeitas ficou bonito. Putrefazidas, putrificadas.

Me Morte disse...

Esse cara é mesmo porreta!
Cada poema melhor que o outro, lindo.

Fernando disse...

Gostei!

Essa poesia é bela, poesia por si só. O título introduz o cenário, as palavras seguintes tomam conta do resto. Por elas, a cidade velha é apresentada de modo silencioso ou surdo. Uma cidade velha deve ser agitada, suas ruas estão congestionadas, mas a poesia não tem esse som: é de reflexão, de ponderação. A cidade velha deve ser grande, alta, são-paulina, mas o que vemos pela poesia é que sua paisagem é tímida, retraída, não imponente.

A cidade velha parece querer esconder-se. Mas atrás de quê? De nada - e em nada a cidade se transforma. Terá valido sua velhice? Que vergonhas traz o seu passado para esta anulação?

Na cidade velha, as ruas estão congestionadas de pessoas e carros que caminham como formigas sobre um corpo putrefeito. Terá morrido então a cidade velha? E estaremos todos caminhando sobre seu cadáver sem nos apecebermos disso?

Eis uma poesia de reflexão: reflete todo o nosso cinza.

Parabéns, Leo!

Muryel De Zoppa disse...

Acredite no Fernando.

Angela Gomes disse...

um poema necessário. essa poética sobre as raízes e a memória dos espaços nos faz tocar o chão e caminhar sobre as marcas do tempo.