terça-feira, 24 de novembro de 2015
domingo, 22 de novembro de 2015
Destino bipolar
Escrito por
Rodrigo Domit
Em alguns momentos, a sorte sorri para mim.
Mas, no momento seguinte, emburrada, franze o cenho, faz bico e me dá as costas.
sábado, 21 de novembro de 2015
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
O Primeiro
Escrito por
André Bortolon
José Hilário havia constituído um pequeno império para si. Na vida política há aproximadamente trinta anos, o atual senador da república não precisava mais trabalhar para viver. Mas seguia no poder, como muitos de seu tipo. Aquela sensação de poder o fazia sentir-se másculo, maiúsculo. Poderoso. Bem quisto por onde passava. Com uma infinidade de regalias, e com advogados do mais alto calibre trabalhando a seu favor, José Hilário iria provavelmente morrer na política – isso era o que ele mesmo pensava, o mesmo para quem o conhecia de perto.
Envolvido em vários escândalos ao longo de sua vida, alguns dos quais já de domínio público – como por exemplo, o das propinas, ou o do desvio de verbas ao longo de mandatos passados - o senador ainda assim podia contar com uma generosa multidão de eleitores em cada eleição, além de seus assessores treinados, que faziam tudo como o senador queria. Já com seus filhos legítimos "feitos na vida", mantendo um casamento de trinta e poucos anos só de fachada, o senador parecia naquela semana querer levar uma vida “mais normal”, sem a tradicional importunação de sempre. Tanto que, sua secretária sabia, seu braço direito também: “o senador José Hilário só tem algum horário em sua agenda para, talvez, semana que vem...”
Logo que chegou ao seu luxuoso apartamento, José Hilário desfez o nó em sua gravata, e preparou para si uma dose generosa de uísque escocês dezoito anos. Atravessou a ampla sala, passou o corredor e foi para a sua suíte, afim de tomar um demorado banho em sua jacuzzi. Não sem antes colocar ao som do home theater de seu quarto a sua coletânea de Frank Sinatra. Agora sim: um banho para deixar o senador pronto para, quem sabe mais tarde, uma de suas amantes novinhas. Olhou em seu Rolex, que mostrava apenas cinco horas da tarde. Quando o senador acionou o botão do controle que abria a cortina automática, com a vista envidraçada de uma Brasília ensolarada se anunciando, subitamente a cortina cessou o seu movimento, deixando apenas uma pequena fresta de sol à mostra. José Hilário estranhou e, ao pegar o controle remoto para repetir o processo, uma voz disse:
- Não adianta tentar.
Na hora José Hilário por pouco não deixou cair o copo que estava na outra mão. Seguido ao susto veio a excitação, e um tremor incontrolável que emanava do corpo do senador.
- O quê?!
- Aqui. – disse a voz.
José Hilário então viu, no canto esquerdo logo ao final da grande cortina, imerso entre sombras, um homem sentado ali em sua poltrona.
- É melhor sem claridade. A que tem assim já é suficiente para eu ver você. É só o que eu preciso...
José Hilário virou a cabeça para a porta, pensou em seu celular “onde estaria?” e julgou tratar-se de um assalto.
- Senta. Aí no canto da cama mesmo. E não tenta nada... – nesta hora José viu brilhar uma pistola automática, no punho do homem sentado; que, além de estar no ponto mais escuro do quarto, trajava roupa preta e o que parecia ser uma balaclava, dificultando ainda mais a tarefa de enxergar o seu rosto. Resignado, apenas obedeceu.
- OK. Você tem o controle da situação. Eu vou te dar tudo o que eu puder de dinheiro. – José virou um gole grande de seu copo de uísque, tentando com isso diminuir a tremedeira. Pensou fingir-se de morto, fingir um enfarte, algo do gênero. Tudo muito rápido. Até seu pensamento ser interrompido pela voz do homem:
- Não estou aqui pelo dinheiro. Estou aqui por você.
- O quê? Como? Quem te mandou? Quem quer me matar? Não pode, isso é coisa do PSDB? Não... Ei, eu te pago o dobro do que te pagaram! – José tentava ganhar tempo e pensar em algo, algo que o livrasse desta situação. Sim, algum rival político havia arquitetado o seu assassinato! Só podia ser.
- Não quero seu dinheiro.
- Como não? Posso te deixar muito rico!
- EI, SILÊNCIO!!! – o homem que seguia sentado empunhando sua pistola gritara pela primeira vez.
- Desculpe, eu...
- CALA A BOCA!
Nisso, José Hilário começou a meio que choramingar, esboçando palavras ininteligíveis, olhando para o seu carpete, e ainda pensando o que ele poderia fazer para defender-se do tal assassino – que, por sua vez, acabara de ajustar um silenciador na ponta de sua arma. Quando José olhou, de canto de olho para o homem, ouviu:
- Olhe para mim agora.
- Desculpe... quem é você?
- Eu sou um representante do EEPR. O senhor conhece?
- EEPR? Hum, é um partido, meu filho? Ai, meu Deus, estou tendo um sopro no meu coração... você já tá me matando fazendo isso, por favor...
- O EEPR, seu José, é a sigla para “Esquadrão de Extermínio Pró Revolução”. Se o senhor nunca ouviu falar, é porque eu e demais membros conseguimos fazer um bom trabalho até aqui.
- O que você quer dizer? É-é um gru-grupo armado? – seu José já gaguejava. Só essa hora o político deu-se por conta que havia um pouco de uísque com a água do gelo em seu copo, o que ele virou sem titubear. “Sim, o copo!” pensou “um arremesso certeiro, em sua cabeça. Aí corro pro botão de alarme, ou me atiro ali, antes que ele comece a atirar...”
- E você, seu José, entre tantos outros, é um dos que vão pagar pelos crimes cometidos ao longo de seus mandatos. Há uma lista, bem grande, e você é o primeiro deles a ir daqui pruma melhor. No seu caso, espero que pruma pior.
- Eu sou ino-no-cente! M-meu advogado pro-provou que...
Nessa hora o homem baixou um pouco a mira da pistola, e acertou o joelho de seu José, que na hora caiu da beira da cama, perdendo sua suposta arma de defesa – o copo, que caiu pro outro lado, na cama. Seu José gritou de dor.
- Aaaiiiiiiii... aiaiaiaiai...
- Eu poderia ficar aqui vociferando contra o senhor, lhe dizendo tudo o que muito brasileiro tem preso na garganta, seu José Hilário, senador da República e tal. Mas não.
- Por favor, vamos conversar... Ai, ai... – José tinha a voz trêmula. O sangue vermelho escuro inundava uma respeitosa área do carpete, outrora claro, do quarto do senador.
- Não somos um grupo de papo. Nada do que eu falar agora vai mudar seu destino, seu José. Esse é o nosso objetivo. É isso. Usar tudo o que eu e meus companheiros aprendemos através de treinamentos, para chegar assim, de surpresa, e por um fim a tudo. E ver o que vai acontecer depois que completarmos nossos alvos. Simples assim.
Nessa hora, seu José, contorcendo-se de dor, tocou sua mão num pé do sapato que havia tirado segundos antes de tudo o que estava acontecendo. Em posição ruim, de bruços, com dois dedos trêmulos, segurou seu sapato para uma medida desesperada, buscando algo diferente, que num improvável milagre o salvasse.
- O senhor tem uma bomba nesse sapato? – perguntou o homem, que seguia sentado no sofá, ofuscado pela escuridão.
– Pois, se não tiver, devo-lhe dizer que sua hora chegou.
- Não, não... eu te-tenho diamantes! Eu... te entrego outros políticos, pe-peixes maiores que eu, eu...
- Seu José, hoje venho em nome do EEPR cumprir minha missão perante o grupo e, especialmente, dizer ao senhor... dizer a você... que eu sou o seu pesadelo. O seu inferno que chegou antes da hora. Você não tem voz nem vez comigo. Eu vou finalizar minha missão, desejando que você sinta dor, muita dor nesses últimos minutos...
- Ahhh, nãããooooo...
Nessa hora, outro tiro atingiu a barriga de José Hilário. Ao som de Frank Sinatra, com o silencioso abafando em muito o volume dos tiros da pistola, José já cuspia sangue em seu carpete. Sua visão já ia ficando turva. Aí, finalmente o homem se levantou, e deu dois passos à frente, deixando um pouco da claridade mostrar seus olhos e nariz. Era um homem grande, de porte. Mas José já não atinava direito. Na busca por alguma coisa que o salvasse, já havia perdido muito sangue, pela barriga, boca e joelho. O homem só baixou a mira, e com um tiro certeiro estourou o crânio de José Hilário.
Guardou sua pistola, e para não pisar na poça de sangue que recém se formara à sua frente, desviou dela, andando sobre a cama king size; deu ainda um chutinho no copo de uísque vazio que se encontrava lá, para deixar o quarto do agora defunto ex-senador, José Hilário.
*****Olá a todos leitores e leitoras que visitam o Bar do Escritor! Esta história tem continuação, e quem quiser conhecê-la, a partir da próxima semana você poderá ler sua continuação no Wattpad. É só entrar lá e me seguir! Obrigado*****
Envolvido em vários escândalos ao longo de sua vida, alguns dos quais já de domínio público – como por exemplo, o das propinas, ou o do desvio de verbas ao longo de mandatos passados - o senador ainda assim podia contar com uma generosa multidão de eleitores em cada eleição, além de seus assessores treinados, que faziam tudo como o senador queria. Já com seus filhos legítimos "feitos na vida", mantendo um casamento de trinta e poucos anos só de fachada, o senador parecia naquela semana querer levar uma vida “mais normal”, sem a tradicional importunação de sempre. Tanto que, sua secretária sabia, seu braço direito também: “o senador José Hilário só tem algum horário em sua agenda para, talvez, semana que vem...”
Logo que chegou ao seu luxuoso apartamento, José Hilário desfez o nó em sua gravata, e preparou para si uma dose generosa de uísque escocês dezoito anos. Atravessou a ampla sala, passou o corredor e foi para a sua suíte, afim de tomar um demorado banho em sua jacuzzi. Não sem antes colocar ao som do home theater de seu quarto a sua coletânea de Frank Sinatra. Agora sim: um banho para deixar o senador pronto para, quem sabe mais tarde, uma de suas amantes novinhas. Olhou em seu Rolex, que mostrava apenas cinco horas da tarde. Quando o senador acionou o botão do controle que abria a cortina automática, com a vista envidraçada de uma Brasília ensolarada se anunciando, subitamente a cortina cessou o seu movimento, deixando apenas uma pequena fresta de sol à mostra. José Hilário estranhou e, ao pegar o controle remoto para repetir o processo, uma voz disse:
- Não adianta tentar.
Na hora José Hilário por pouco não deixou cair o copo que estava na outra mão. Seguido ao susto veio a excitação, e um tremor incontrolável que emanava do corpo do senador.
- O quê?!
- Aqui. – disse a voz.
José Hilário então viu, no canto esquerdo logo ao final da grande cortina, imerso entre sombras, um homem sentado ali em sua poltrona.
- É melhor sem claridade. A que tem assim já é suficiente para eu ver você. É só o que eu preciso...
José Hilário virou a cabeça para a porta, pensou em seu celular “onde estaria?” e julgou tratar-se de um assalto.
- Senta. Aí no canto da cama mesmo. E não tenta nada... – nesta hora José viu brilhar uma pistola automática, no punho do homem sentado; que, além de estar no ponto mais escuro do quarto, trajava roupa preta e o que parecia ser uma balaclava, dificultando ainda mais a tarefa de enxergar o seu rosto. Resignado, apenas obedeceu.
- OK. Você tem o controle da situação. Eu vou te dar tudo o que eu puder de dinheiro. – José virou um gole grande de seu copo de uísque, tentando com isso diminuir a tremedeira. Pensou fingir-se de morto, fingir um enfarte, algo do gênero. Tudo muito rápido. Até seu pensamento ser interrompido pela voz do homem:
- Não estou aqui pelo dinheiro. Estou aqui por você.
- O quê? Como? Quem te mandou? Quem quer me matar? Não pode, isso é coisa do PSDB? Não... Ei, eu te pago o dobro do que te pagaram! – José tentava ganhar tempo e pensar em algo, algo que o livrasse desta situação. Sim, algum rival político havia arquitetado o seu assassinato! Só podia ser.
- Não quero seu dinheiro.
- Como não? Posso te deixar muito rico!
- EI, SILÊNCIO!!! – o homem que seguia sentado empunhando sua pistola gritara pela primeira vez.
- Desculpe, eu...
- CALA A BOCA!
Nisso, José Hilário começou a meio que choramingar, esboçando palavras ininteligíveis, olhando para o seu carpete, e ainda pensando o que ele poderia fazer para defender-se do tal assassino – que, por sua vez, acabara de ajustar um silenciador na ponta de sua arma. Quando José olhou, de canto de olho para o homem, ouviu:
- Olhe para mim agora.
- Desculpe... quem é você?
- Eu sou um representante do EEPR. O senhor conhece?
- EEPR? Hum, é um partido, meu filho? Ai, meu Deus, estou tendo um sopro no meu coração... você já tá me matando fazendo isso, por favor...
- O EEPR, seu José, é a sigla para “Esquadrão de Extermínio Pró Revolução”. Se o senhor nunca ouviu falar, é porque eu e demais membros conseguimos fazer um bom trabalho até aqui.
- O que você quer dizer? É-é um gru-grupo armado? – seu José já gaguejava. Só essa hora o político deu-se por conta que havia um pouco de uísque com a água do gelo em seu copo, o que ele virou sem titubear. “Sim, o copo!” pensou “um arremesso certeiro, em sua cabeça. Aí corro pro botão de alarme, ou me atiro ali, antes que ele comece a atirar...”
- E você, seu José, entre tantos outros, é um dos que vão pagar pelos crimes cometidos ao longo de seus mandatos. Há uma lista, bem grande, e você é o primeiro deles a ir daqui pruma melhor. No seu caso, espero que pruma pior.
- Eu sou ino-no-cente! M-meu advogado pro-provou que...
Nessa hora o homem baixou um pouco a mira da pistola, e acertou o joelho de seu José, que na hora caiu da beira da cama, perdendo sua suposta arma de defesa – o copo, que caiu pro outro lado, na cama. Seu José gritou de dor.
- Aaaiiiiiiii... aiaiaiaiai...
- Eu poderia ficar aqui vociferando contra o senhor, lhe dizendo tudo o que muito brasileiro tem preso na garganta, seu José Hilário, senador da República e tal. Mas não.
- Por favor, vamos conversar... Ai, ai... – José tinha a voz trêmula. O sangue vermelho escuro inundava uma respeitosa área do carpete, outrora claro, do quarto do senador.
- Não somos um grupo de papo. Nada do que eu falar agora vai mudar seu destino, seu José. Esse é o nosso objetivo. É isso. Usar tudo o que eu e meus companheiros aprendemos através de treinamentos, para chegar assim, de surpresa, e por um fim a tudo. E ver o que vai acontecer depois que completarmos nossos alvos. Simples assim.
Nessa hora, seu José, contorcendo-se de dor, tocou sua mão num pé do sapato que havia tirado segundos antes de tudo o que estava acontecendo. Em posição ruim, de bruços, com dois dedos trêmulos, segurou seu sapato para uma medida desesperada, buscando algo diferente, que num improvável milagre o salvasse.
- O senhor tem uma bomba nesse sapato? – perguntou o homem, que seguia sentado no sofá, ofuscado pela escuridão.
– Pois, se não tiver, devo-lhe dizer que sua hora chegou.
- Não, não... eu te-tenho diamantes! Eu... te entrego outros políticos, pe-peixes maiores que eu, eu...
- Seu José, hoje venho em nome do EEPR cumprir minha missão perante o grupo e, especialmente, dizer ao senhor... dizer a você... que eu sou o seu pesadelo. O seu inferno que chegou antes da hora. Você não tem voz nem vez comigo. Eu vou finalizar minha missão, desejando que você sinta dor, muita dor nesses últimos minutos...
- Ahhh, nãããooooo...
Nessa hora, outro tiro atingiu a barriga de José Hilário. Ao som de Frank Sinatra, com o silencioso abafando em muito o volume dos tiros da pistola, José já cuspia sangue em seu carpete. Sua visão já ia ficando turva. Aí, finalmente o homem se levantou, e deu dois passos à frente, deixando um pouco da claridade mostrar seus olhos e nariz. Era um homem grande, de porte. Mas José já não atinava direito. Na busca por alguma coisa que o salvasse, já havia perdido muito sangue, pela barriga, boca e joelho. O homem só baixou a mira, e com um tiro certeiro estourou o crânio de José Hilário.
Guardou sua pistola, e para não pisar na poça de sangue que recém se formara à sua frente, desviou dela, andando sobre a cama king size; deu ainda um chutinho no copo de uísque vazio que se encontrava lá, para deixar o quarto do agora defunto ex-senador, José Hilário.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Pagliaccio
Escrito por
Zulmar Lopes
Trata-se de uma deslavada inverdade que eu deteste palhaços. Um equívoco, desconhecimento dos fatos. Gosto inclusive de assistir suas estripulias em programas de televisão e é constante pegar-me em estridentes gargalhadas ao interagir com eles da plateia de um espetáculo circense. Nada contra estes respeitáveis artistas, dignos, a despeito da cara pintada e roupas coloridas. A imprensa exagera a esse respeito. Apenas não quero fazer parte do seu mundo, ser um deles, tenho lá os meus motivos.
Meu incômodo em relação a palhaços iniciou-se no dia em que a Tia Sônia, casmurra professora da turma do jardim de infância, resolveu dividir entre seus pequenos alunos os papéis que cada um desempenharia na festa de encerramento do ano letivo. Eu queira por demais representar um sapo no número musical ambientado em uma floresta, porém, Tia Sônia, mais sorumbática do que nunca, decidiu colocar-me no grupo dos Palhacinhos Dengosos. Reclamei com uma surpreendente polidez para os meus parcos cinco anos e como não consegui convencê-la, terminei por resignar-me, achando que ao explicar o caso à minha mãe tudo ficaria resolvido.
Mamãe já se acostumara com o meu comportamento maduro para a idade. Ela acreditava ser eu um “espírito antigo” desde que fora consultar um pai-de-santo para livrar-me de uma bronquite que nenhum médico da Terra conseguia curar. O pai-de-santo, incorporado por uma entidade que afirmava se chamar “Doutor Marcolini”, médico italiano que habitara Veneza no ápice da Renascença, ao dar de cara comigo abriu um largo sorriso e exclamou.
— Oh! Você por aqui? Que grande alegria! – e virando para minha mãe disse: — Este já sabe de tudo. Deixe-o tomar as rédeas de sua própria vida. É um espírito muito antigo… Muito antigo…
E receitou um preparado à base de xarope de ameixa e uma série de ervas que em dois tempos deu por encerrada a persistente bronquite que me acompanhava.
Sendo espírito antigo, mamãe deduziu que eu trazia de outras vidas aquele comportamento adulto que eventualmente desabrochava, como no episódio do palhaço. Seria comum na minha idade espernear, armar um berreiro, mas qual? De dentro de minha roupinha vermelha do jardim de infância, tão somente dizia que não queria fazer “papel de palhaço na frente de todo mundo”. Preocupada, a mãe foi ter com a professora.
— Não posso mudar o Marquinhos de grupo agora, Dona Veridiana – protestou a casmurra – Como as outras crianças reagirão? Além do mais, os coleguinhas dele estão adorando a ideia de se fantasiarem de palhaços. Não entendo porque só o seu filho está com esta história. Vamos fazer o seguinte: o Marquinhos ensaia e a senhora diz que ele não vai se apresentar. No dia, lá no teatro, vestido de Palhacinho Dengoso, eu tenho certeza de que ele vai adorar e se divertir como todos os outros. E a senhora vai ficar orgulhosa com os aplausos.
Tia Sônia apelou ainda para o conceito de disciplina e que seria bom para o menino aprender desde cedo que na vida nem sempre podemos fazer tudo o que desejamos.
Mamãe achava que deveria seguir as orientações do “Doutor Marcolini” e deixar-me “tomar as rédeas da própria vida”, mas preferiu não se confrontar com Tia Sônia, lembrando-se que meses atrás eu já havia entrado em contenda com minha primeira mestra ao teimar em não tocar “coquinhos” na banda mirim da escola. Sentia-me ridículo batendo duas meias-esferas de casca de coco seco e sempre que o ensaio se iniciava, pegava na caixa de instrumentos um triângulo de aço. Diante da minha firmeza em não ser um mero tocador de coco, Tia Sônia na oportunidade se deixou dominar pela insubordinação de um moleque de cinco anos, mas desta vez seria diferente. Uma maçã podre dentro de uma caixa poderia contaminar todos os frutos e para tia Sônia não perder o leme de sua turma, eu seria um palhaço.
Os primeiros ensaios revelaram que, mesmo sentindo-me desconfortável, eu era o melhor entre os oito Palhacinhos Dengosos selecionados. Ao som da música tema…
O Palhacinho Dengoso,
Dá três pulinhos assim!
O Palhacinho Dengoso,
Vira os olhinhos assim!
…lá estava eu, virando os meus olhinhos infantis com aplicação espartana, dando três pulinhos e cambalhotas com maestria de um palhaço profissional. Tia Sônia, encantada, decidiu que eu me apresentaria na primeira fila, no centro do palco. Desconfiado, afirmei só estar ensaiando e não iria participar do espetáculo. A professora, livrando-se momentaneamente da sua natureza carrancuda, afagou meus cabelos ruivos e disse:
— Como quiser, meu anjo. Você não vai participar…
A traição rondava a minha própria casa, invadia os corredores, transitava pelos cômodos até chegar ao quarto da minha irmã Natália, dez anos mais velha do que eu e cúmplice do plano de mamãe e Tia Sônia em fazerem de mim um palhaço. Foi de Natália a ideia de comprar uns dois metros de uma imitação de cetim branco com motivos em forma de losangos vermelhos e verdes. Pano não muito caro, contudo de efeito arrebatador. “Maninho vai brilhar no meio daqueles remelentos” – declarava triunfante.
Certo dia, ao chegar do colégio, deparei-me com mamãe e Natália num frenético trabalho de preparo da minha vestimenta de palhaço. Em meio aos seus gritos de entusiasmo diante da obra-prima que julgavam confeccionar, pude, pela primeira vez, ver aquela roupa que iria perseguir-me em pesadelos por anos. Era um simples macacão, parecido com os dos pilotos de corrida, porém com losangos verdes e vermelhos espalhados por todo o seu espaço, tendo o branco como cor predominante ao fundo. As mangas, compridas, eram acompanhadas em toda a sua extensão por uma fileira de guizos que tilintavam enquanto as duas davam os últimos retoques na fantasia. Surpreendidas pela minha chegada, ainda tentaram esconder a roupa. Magoado, resmunguei:
— Já disse que eu não vou me vestir de palhaço!
— Mas a roupa não é para você, Marquinhos, — mentiu mamãe. É para o Rogério. A mãe dele não sabe costurar e pediu para eu fazer.
— O Marquinhos tem o mesmo tamanho do Rogério, mãe. Vamos medir a fantasia nele para ver como fica? — perguntou Natália.
E sem que me dessem oportunidade, mediram em mim a roupa que eu ainda guardava pálidas esperanças em realmente pertencer ao Rogério.
No dia da apresentação, um calor infernal assombrou a cidade. Dirigimo-nos, os três, para o teatro onde seria o espetáculo. No táxi eu ainda protestei, dizendo mais uma vez que não iria participar. Mamãe, sorrindo, tranquilizou-me, afirmando que só iríamos assistir, mas a bolsa que minha irmã levava no colo pelo volume denunciava que eu não teria escapatória.
Dentro do camarim, várias crianças eram aprontadas por suas mães, cuidando de suas fantasias como escudeiros zelavam pelas armaduras dos seus cavaleiros. Sem opor resistência, deixei-me vestir e ser maquiado. Na cabeça, recebi uma peruca improvisada com uma meia feminina cujos cabelos em lã vermelha só aumentaram o calor. Nos lábios, um batom que tornou imprestável o sabor do refrigerante a mim oferecido minutos antes da apresentação. Estava vencido, domado, obrigado pela primeira vez em minha curta existência a fazer algo que eu não desejava.
Fomos chamados ao palco. Palmas nos receberam. As cortinas foram abertas. Resignado, encarei o público. Temia a vergonha de me expor diante daqueles desconhecidos, ser ridicularizado pela minha condição, ainda que temporária, de palhaço. Porém, aquele bando de pais e parentes que compunham a audiência pareceu-me amistoso, quase encorajador. Mamãe e maninha, sentadas na primeira fila, aplaudiram freneticamente a nossa entrada.
Um tanto encabulado, corri os olhos pelos meus sete companheiros de jornada. Todos pareciam deslumbrados com a oportunidade de estarem ali. Por um momento pensei ser apenas eu a criatura destoante da atmosfera de alegria a envolver o teatro. De súbito, a introdução da melodia já tão íntima explodiu nos alto-falantes.
O Palhacinho Dengoso, dá três pulinhos assim!
Desviei os olhos da plateia e procurei executar a coreografia ensaiada da melhor maneira possível. O calor por debaixo da vestimenta incomodava, as gostas de suor banhavam o meu rosto e misturavam-se com as rodelas de ruge que circundavam as bochechas. Uma sensação de total abandono me consumia.
O Palhacinho Dengoso, vira os olhinhos assim!
Esta era a parte do número que eu mais detestava. Tínhamos que nos posicionar de frente para o público, pôr as mãos nos joelhos e ao mesmo tempo arregalar nossos olhos e revirá-los. Tia Sônia havia ensaiado aquele momento até a nossa quase exaustão. Creio que nossa atuação deva ter causado um efeito arrebatador a julgar o “oh” de entusiasmo emitido pelo público. Percebi, em um canto do palco, Tia Sônia com uma expressão de alegria construída no semblante costumeiramente tão sisudo. Em vez de me sentir recompensado, desejei que os minutos corressem, e que tudo aquilo se encaminhasse para o fim.
O Palhacinho Dengoso, dá piruetas assim!
Meus guizos emitiram um estridente som, fruto das minhas piruetas, executadas com maestria. Deus! Como eu queria ir embora!
Por um momento tudo pareceu distante. Já não era eu que ali estava. Meus pensamentos cavalgavam no cérebro desconexos, enquanto o corpo, vazio de emoções, executava o mecânico bailar. Vieram à minha mente as figuras de mamãe e Natália. “Traidoras”, rosnei. O desejo de chorar apoderou-se de mim, contudo, finou-se, sendo substituído por uma poderosa sensação de alívio ao perceber que a apresentação terminara.
Foi então que algo surpreendente aconteceu, moldando para sempre os rumos da minha existência.
Aplausos pipocaram de várias partes do auditório. Longe de serem polidos, levavam consigo a marca do entusiasmo verdadeiro. A plateia havia amado nossa apresentação. Agradecemos com o conhecido aceno que os artistas fazem ao final do espetáculo, mãos dadas, reverência conjunta. A cortina cerrou-se e o público continuou sua manifestação de agrado. Surpreso, eu e meus colegas presenciamos as cortinas serem reabertas e os espectadores levantando-se para aplaudirem de pé! Sugiram os primeiros pedidos de “bis”, que pouco a pouco cambiaram para o desejo quase unânime da plateia. Os acordes de “O Palhacinho Dengoso” foram novamente executados e, quando dei por mim, já estávamos em plena encenação do nosso número sob palmas frenéticas. E eu estava adorando tudo aquilo!
Décadas consumidas por estas lembranças de infância, sentado diante do espelho do meu camarim, chego a rir refletindo sobre as ironias da vida. Não fosse o Palhacinho Dengoso, meu début nos palcos, eu hoje não seria o aclamado cantor lírico Marcos Marcolini, tenor brasileiro de sucesso na Europa. O sobrenome artístico eu tomei emprestado do espírito que mamãe consultara. Em idas posteriores ao centro de umbanda, o próprio Doutor Marcolini revelara ter sido eu um cantor de operetas, seu contemporâneo em Veneza. Afirmava ele que estivéramos juntos “na experiência da carne”. Segundo o médico do outro mundo, eu voltara com o encargo de brilhar através da arte, incumbência que fracassara na vida anterior. Já Marcolini se viu obrigado a dar consultas por séculos até o resgate de suas dívidas contraídas em outras existências. Ainda que duvidasse das crendices cultivadas por mamãe, não desmerecia a boa vontade do médium pelo qual o doutor renascentista se manifestava e considerei justo homenageá-lo usando seu nome.
Apenas um detalhe intrigava os amantes da ópera e a crítica especializada: por que o grande Marcos Marcolini nunca havia interpretado Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo? Diante da dúvida, eu sorria sempre que tal questão brotava em alguma entrevista e, brincando, dizia não estar à altura de representar o personagem imortalizado pelo mito Enrico Caruso para, em seguida, invariavelmente brindar o meu interlocutor com um tostão da famosa ária: “No! Pagliaccio non son, se il viso è pallido, è di vergogna…”
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Gravatas
Escrito por
Júlio Freitas
Não gostava de gravatas. Saía pela manhã cheirando a café, cigarro e mofo, suas baratas e ratos de estimação ficavam na porta, acenando, enquanto passava o ônibus com alguns tripulantes engravatados. Seu olho esquerdo tremia freneticamente ao vê-los de relance, preferia ficar em pé, estático, os dentes acirrados e as mãos suando, geladas. Ficava a planejar numa forma de pôr um fim naquilo tudo. Todos os dias.
Já não enxergava mais as pessoas, eram tudo gravatas. No trabalho, mais gravatas. Gravatas tomando café, coçando o saco, contando piadas, peidando. Gravatas trabalhando na grande máquina sanguessuga, chupando a alma dos pobres diabos que chegavam se arrastando, suplicando menos taxas e juros.
Na rua, gravatas berrando ao telefone, xingando umas às outras, gravatas enfileiradas esperando seu McLanche Feliz, assistindo a um imbecil qualquer na TV, outras em transe, rodeando uma gravata com bíblia na mão.
Não gostava de gravatas. Precisava acabar com aquilo.
Certo dia chegou em casa, atirando a pasta na cama e afrouxando o gola da camisa. Pegou a garrafa e começou a mamar seu bíter, ele queria evitar as palavras de seu falecido pai, mas elas marretavam cada vez mais forte em sua cabeça: "- Filho, espero ainda estar vivo para vê-lo homem, com um bom emprego, de terno e gravata. Um homem sem gravata não deve ser levado a sério. Mulher, traga-me o torresmo!".
Então foi até o fundo do guarda-roupa e a retirou de dentro da caixa de uma sandália da Azaléia. Estava intacta, vermelho-sangue, hipnotizante: a gravata que roubara de seu pai quando este descansava no caixão. Colocou-a, e imediatamente sentiu seu sangue fluir, ferver, pulsando nas veias; sente algo com um soco no estômago e começa a ficar sem ar, debruça-se na mesa e aos poucos vai aliviando, a cada inspiração e expiração. E então se sente bem. Melhor do que nunca.
Sai de casa como se um véu tivesse sido retirado de sua cabeça, tudo é muito claro e já não enxerga somente gravatas. Consegue ver os rostos, analisa-os, sente-se feliz. Uma alegria como há muito não sentia. Passeia sem rumo pela cidade até anoitecer. Então chega em casa e tudo é diferente, senta-se no sofá, a paz reina em sua cabeça. Dorme profundamente.
No dia seguinte foi encontrado morto, dizem que se enforcou com a gravata, que havia ultrapassado a pele de seu pescoço, mas ainda assim sorria. Um sorriso satisfeito de alguém que talvez tenha levado a sério demais o nó da gravata.
sábado, 14 de novembro de 2015
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
O Outro
Escrito por
Deveras
Sou outro, outra vez
refletido em um rosto que não reconheço
não sei onde me encontro
não sei qual é o preço
da sanidade que não controlo
da ingenuidade que me consola
da concordância com o mundo
ou da revolta que ainda guardo
há na mente tantos quartos !
Tantas lembranças, tantos fardos
mas vou à luta novamente
erguendo-me da lona
onde atirado estava
no fundo da minha vala
que cavei para me defender
dos assaltos ao coração
da covardia e da traição
da minha própria condenação !
sem defesa e sem juiz
me acuso continuamente
por teimar em ser feliz
por sorrir serenamente
enquanto o caos me consumia
levando os socos ainda sorria
fingindo ser tão poderoso
inatingível e inalcançável
Era outro eu que se valia
da bravura e covardia
que dissimuladamente exibia
Estóico !
era o brado que retumbava
por qualquer lugar que eu passava
Heróico !
feitos meus que não contei
que nem mesmo acreditei
terem sido obras minhas...
Mas isso é passado de um outro
que guardo longe dos olhares
e me acompanha aos lugares
sem ser visto por ninguém...
Mesmo comigo ele insiste
quer provar que ainda existe
quer provar que é alguém
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Pivetes
Escrito por
Glauber Vieira
Acordou com dor de cabeça e sentimento de
culpa.
Soubera na noite anterior que um grupo de
extermínio eliminara três pivetes que perturbavam o sono e o sossego dos
comerciantes do bairro.
Ele não tivera qualquer participação no
episódio.
Mas ficara feliz quando soube do ocorrido.
sábado, 24 de outubro de 2015
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Todo dia
Escrito por
Rodrigo Domit
– Eu passo o dia todo esperando ela aparecer.
– Que triste isso...
– Não é triste não. Triste é quando ela não vem.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Ah, é mesmo? Tá bom, então...
Escrito por
André Bortolon
Você é uma pessoa que lê muito?
A pergunta, neste caso aqui retórica, faz a gente se questionar: afinal, o quanto significa “ler muito”? Existe uma medida para tal? E se existe, seria esta mensurada pelo número de páginas lidas? Ou pelo histórico de leitura de cada indivíduo? Seria pela média de livros lidos em um ano?
Bem, independente de como medir o quanto cada um de nós lê, hoje em dia vale a pena lembrar o que de fato estamos lendo. Por exemplo: uma piada que você recebe no seu WathsApp. Ah, isso certamente entra para o seu repertório de leituras. Mesmo que você não esteja procurando ler uma piada naquele instante, você a lê! – seja por curiosidade, por respeito à pessoa que lhe enviou, ou para se livrar de uma tarefa chata no seu trabalho. No fim, valeu a pena – você riu um pouco (ou não), mas definitivamente leu esta piada que estava lá em seu Whats. Se você não a entendeu bem, bastou uma segunda leitura para finalmente entender a piada, o que levanta mais uma questão: ler duas vezes a mesma coisa conta como “ler mais”? Eu diria que não, até porque no caso específico da piada, se ela não tinha graça nenhuma na primeira lida, você, querendo mostrar os dentes para o amigo (a) que lhe enviou, gentilmente a lê novamente, desta vez de forma mais pausada, para ver se você não perdeu nada lá pelo meio dela. Se ainda assim você julgá-la sem graça, talvez na próxima vez você leia só a primeira linha dela...
Outra coisa que se lê muito hoje em dia é a data de validade de qualquer produto alimentício que você compra no supermercado. A tarefa às vezes é inclusive taxada de complicada, afinal, muitas vezes a data está apagada e borrada, ou fica em lugares difíceis de achar, o que ocasiona de a pessoa ler por engano outras informações desnecessárias até chegar a tal data – apesar de quê, dizia-se antigamente: “ler demais não mata ninguém”. Já de menos...
Sabia que, neste papo todo de ler pouco, muito ou nada, um aluno adolescente me respondeu outro dia o seguinte, após eu questioná-lo acerca de o quanto ele lia:
- Ah, professor, eu prefiro ver vídeos no Youtube.
- Mas, meu caro, são duas coisas distintas, veja bem que ler é...
- Não professor, na verdade eu quis dizer que SOU BOM em ver vídeos do Youtube, não em ler livros. Isso é o que sei fazer. Sabe fêssor, cada um cada um, né?
- Ah é mesmo? Tá bom, então... - Após uma explicação tão boa como essa, não tive mais o que falar ao meu aluno...
Bem, agora sendo sincero com você que me leu até aqui, em primeiro lugar MEUS PARABÉNS por sua força de vontade por chegar aqui; penso que das duas uma, ou você é um leitor ou leitora contumaz, ou, alguma amiga ou conhecido meu que de tanto ver o link em minha página do Face, tomou coragem e disse “Meu Deus, vou ler este cara ou ele vai me perguntar qualquer coisa algum dia... Que saco!!!” – o que não quer dizer que esta pessoa não tenha o hábito de ler, talvez ela não tenha tempo ou não goste de crônicas mesmo... Enfim, o que lhes peço agora é que você poste um OK para mim, seja aqui nos comentários logo abaixo, ou nos comentários do Face ou do Twitter. Tudo bem? Isso é fácil de fazer; o mais difícil, que era você chegar até aqui, já está feito: missão cumprida. Ponto pra você, leitor e leitora!
A pergunta, neste caso aqui retórica, faz a gente se questionar: afinal, o quanto significa “ler muito”? Existe uma medida para tal? E se existe, seria esta mensurada pelo número de páginas lidas? Ou pelo histórico de leitura de cada indivíduo? Seria pela média de livros lidos em um ano?
Bem, independente de como medir o quanto cada um de nós lê, hoje em dia vale a pena lembrar o que de fato estamos lendo. Por exemplo: uma piada que você recebe no seu WathsApp. Ah, isso certamente entra para o seu repertório de leituras. Mesmo que você não esteja procurando ler uma piada naquele instante, você a lê! – seja por curiosidade, por respeito à pessoa que lhe enviou, ou para se livrar de uma tarefa chata no seu trabalho. No fim, valeu a pena – você riu um pouco (ou não), mas definitivamente leu esta piada que estava lá em seu Whats. Se você não a entendeu bem, bastou uma segunda leitura para finalmente entender a piada, o que levanta mais uma questão: ler duas vezes a mesma coisa conta como “ler mais”? Eu diria que não, até porque no caso específico da piada, se ela não tinha graça nenhuma na primeira lida, você, querendo mostrar os dentes para o amigo (a) que lhe enviou, gentilmente a lê novamente, desta vez de forma mais pausada, para ver se você não perdeu nada lá pelo meio dela. Se ainda assim você julgá-la sem graça, talvez na próxima vez você leia só a primeira linha dela...
Outra coisa que se lê muito hoje em dia é a data de validade de qualquer produto alimentício que você compra no supermercado. A tarefa às vezes é inclusive taxada de complicada, afinal, muitas vezes a data está apagada e borrada, ou fica em lugares difíceis de achar, o que ocasiona de a pessoa ler por engano outras informações desnecessárias até chegar a tal data – apesar de quê, dizia-se antigamente: “ler demais não mata ninguém”. Já de menos...
Sabia que, neste papo todo de ler pouco, muito ou nada, um aluno adolescente me respondeu outro dia o seguinte, após eu questioná-lo acerca de o quanto ele lia:
- Ah, professor, eu prefiro ver vídeos no Youtube.
- Mas, meu caro, são duas coisas distintas, veja bem que ler é...
- Não professor, na verdade eu quis dizer que SOU BOM em ver vídeos do Youtube, não em ler livros. Isso é o que sei fazer. Sabe fêssor, cada um cada um, né?
- Ah é mesmo? Tá bom, então... - Após uma explicação tão boa como essa, não tive mais o que falar ao meu aluno...
Bem, agora sendo sincero com você que me leu até aqui, em primeiro lugar MEUS PARABÉNS por sua força de vontade por chegar aqui; penso que das duas uma, ou você é um leitor ou leitora contumaz, ou, alguma amiga ou conhecido meu que de tanto ver o link em minha página do Face, tomou coragem e disse “Meu Deus, vou ler este cara ou ele vai me perguntar qualquer coisa algum dia... Que saco!!!” – o que não quer dizer que esta pessoa não tenha o hábito de ler, talvez ela não tenha tempo ou não goste de crônicas mesmo... Enfim, o que lhes peço agora é que você poste um OK para mim, seja aqui nos comentários logo abaixo, ou nos comentários do Face ou do Twitter. Tudo bem? Isso é fácil de fazer; o mais difícil, que era você chegar até aqui, já está feito: missão cumprida. Ponto pra você, leitor e leitora!
domingo, 18 de outubro de 2015
Caro Amigo Fred
Escrito por
Zulmar Lopes
Antes de tudo, queira desculpar-me por escrever-lhe esta carta tanto tempo após o acontecido, mas você há de convir que fui pego de surpresa pelo desenrolar dos fatos e só agora me sinto em condições de relembrar todos os momentos que juntos passamos. Nada como o tempo para cicatrizar tristezas e fazer germinar alegrias.
Lembro-me bem do dia em que o vi pela primeira vez. Mal desconfiava que, algumas horas depois, você já estaria instalado em minha casa. Logo que lhe avistei, saído do ninho em sua inaugural excursão junto com seus outros dois irmãos no telhado da fábrica que dava para a varanda do meu apartamento, desconfiei que você, amigo Fred, era o mais levado do trio e daria muito trabalho à sua mãe. Você não curtiu cinco minutos em liberdade, caindo pela fresta que existia no teto da loja abaixo de casa. Como já era fim de expediente e o estabelecimento estava fechado, você miou por toda a noite. Miado de filhote, assustado, temeroso do desconhecido e do desamparo.
No dia seguinte, eu fui resgatá-lo, lembra-se? Meu plano era devolvê-lo ao telhado, mas, apesar de estranhar o local, você me conquistou e foi ficando. Com dias de convívio era praticamente o dono da casa e, já que insistia e permanecer junto a nós, que ao menos tivesse um nome. Frederico José, nome de imperador, Fred para os íntimos.
Curti por demais suas brincadeiras de filhote, como a de se atracar com o meu braço que, por consequência, vivia arranhado. Você ainda desconhecia o poder de suas garras, mas com o passar do tempo soube domá-las. Meu braço agradeceu sua disciplina.
Quem disse que gatos são indiferentes aos seus donos? Se a afirmativa estivesse correta, você, Fred, possuía então alma de cão. De fidelidade canina, sempre ao meu lado em casa, varava madrugadas deitado sobre a minha impressora enquanto eu trocava a noite pelo dia em salas internéticas de bate papo. Era divertido abrir a porta da casa e você vir receber-me, revelando haver passado o dia dormindo eu seu gesto de espreguiçar-se.
Fatos pitorescos envolveram sua curta existência, meu amigo, como aquele em que, durante sua primeira ida ao veterinário, o mesmo, ao examinar sua genitália, declarou solenemente: “é uma fêmea”. Por dois meses você foi chamado de “Frida”, até os testículos aflorarem, revelando sua masculinidade.
Ou quanto você “surtava”, correndo de um lado a outro da casa, subindo nas camas e nos encarando com um olhar ao mesmo tempo brincalhão e assustador? Durante seus surtos, eu tinha a impressão de ter um tigre, um puma ou pedaço da selva dentro do meu apartamento.
Imaginei que conviveria no mínimo dez anos com você, caro Fred. Durou um ano e meio. Gatos em geral morrem de forma violenta, diziam. Eu não acreditei.
Ficou a lembrança Frederico José, doze anos depois, tornada pública.
Do seu amigo,
Zulmar Lopes
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Marcha
Escrito por
Júlio Freitas
Tem protesto lá na esquina democrática
Me convidaram
Não vou
Eu sou bundão
E covarde
Estou cagando e andando
Protesto em casa
Fazendo sexo
Os miliquinhas
Continuarão abusando
O Zé não vai para de gritar
Vai ficar tudo na mesma merda
Algum fulano
Até vai ocupar novamente
Os painéis de controle do poder
Mas não irá desligá-los.
Me convidaram
Não vou
Eu sou bundão
E covarde
Estou cagando e andando
Protesto em casa
Fazendo sexo
Os miliquinhas
Continuarão abusando
O Zé não vai para de gritar
Vai ficar tudo na mesma merda
Algum fulano
Até vai ocupar novamente
Os painéis de controle do poder
Mas não irá desligá-los.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Aliviado
Escrito por
Rodrigo Domit
Puxou o ar, para espairar, e soltou lentamente. Sentiu como se há muito tempo não tivesse respirado, inspirado.
Dissipou a neblina que lhe cobriu o mundo e deu um passo atrás. Dali, aliviado, olhou para a própria vida e esboçou um sorriso no canto da boca.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Pó de estrelas
Escrito por
Angela Gomes
Pulsar de estrelas
Presas a partículas particulares
Púrpuras galáxias
Em transe cósmico
Adensando luz aos que dormem
Sonambúlicos sonos quânticos
Estendendo véus de fótons, por
Nebulosas planetares
Astronômicas naus irrompem
Em órbitas oculares
Desejos múltiplos e atônitos
Unir versos solares
sábado, 19 de setembro de 2015
Fuga de Los Angeles
Escrito por
André Bortolon
Phil às vezes ficava cansado da vida em Los Angeles. E sua vida não era ruim por lá. O que não tinha cabimento para Phil eram aquelas festas nas mansões de Beverly Hills, ou à beira do Pacífico em Malibu, que davam uma falsa impressão de que todos ali estavam vivendo no seu auge. Mentira. A grande maioria ali já estava podre. A heroína havia acabado com os sonhos mais belos de uma vida perfeita e estável. Dali para frente, só uma boa clínica poderia salvar aquelas pobres almas. Phil sabia disto. Já havia caído nesse buraco antes; não cairia de novo.
O sexo. Ah sim, Phil já nem lembrava mais quando nem onde havia feito sexo sentindo amor, sentindo algo a mais que não fosse só entra, sai, entra, sai e aquele prazer momentâneo, de segundos, com uma aspirante qualquer à estrela – quase sempre uma figurante novinha, com um rosto bonito e um corpinho sarado, querendo ser alguém no meio do cinema. Phil sabia que, salvo alguma exceção à regra, toda menina nova faria uma ou as duas coisas: transar com algum figurão do show business e injetar heroína na veia. Na melhor das hipóteses, uma nova alcoólatra. Afinal, Phil entendia do assunto, uma que ainda lutava contra a bebida todos os dias. Sem sucesso.
Pois naquele fim-de-semana, Phil deixou em seu aparelho celular apenas o chip dedicado a uma seleta lista de pessoas: seus familiares, seu empresário e amigo Rick Andrews, sua ex-esposa e seus filhos. Que, por sinal, não moravam com o pai em LA. Nenhum havia pego o atalho do cinema como Phil; o que ele considerava bom. Certamente seus filhos estariam em um meio mais responsável, menos nocivo à própria saúde deles. Já Phil queria mesmo distância dos holofotes naquele fim-de-semana. Saiu em seu Corvette de West Hollywood ainda escuro, com direção ao deserto. Só com a roupa do corpo, a carteira de motorista que estava para vencer, seus cartões e algumas centenas de dólares. Mas Phil conhecia aquele caminho. Phil não queria Las Vegas desta vez. Não. Vegas seria um atalho fácil, com jogos, prostitutas, champanhe, uísque, vodca, festas na piscina. Mulheres nuas usando droga.
Mudou sua rota para o sul, em direção à Phoenix. O calor começou a bater, Phil percebia na paisagem árida, nas montanhas secas que pareciam fazer fila em torno da estrada, que o calor e a secura se multiplicavam. Quando percebeu, passava das 120 milhas em seu Corvette. Decidiu tirar o pé. Phil não apostava corridas com ninguém. Queria apenas sair do seu dia-a-dia, pensar mais claramente em sua vida. E principalmente, não ter nenhuma festinha de cinema para ir. Não naquele fim-de-semana.
Quando a madrugada chegou, Phil, que estava em um motel simples nos arredores de Phoenix, decidiu dirigir novamente pelo deserto. Notou que não havia bebido nada ainda, e se motivou com a ideia de ir ao deserto à noite, e são. E foi. Phil encontrou uma brecha por entre os arbustos, e viu um flanco onde seu Corvette cabia bem certinho. Entrou ali e ficou. Sentindo o frio da noite. Ouvindo o barulho dos coiotes, ao longe. Ouviu o vento cantar. Viu, de tempos em tempos, veículos variados passando pela estrada. Não sentiu medo. Phil estava ali buscando consolo na solidão. E estava bem, tanto que dormiu ali mesmo em plena luz do luar, para acordar só ao amanhecer.
E no domingo, Phil seguiu rodando. Andou por outros caminhos no deserto, qualquer um que não o levasse à Vegas. Reparou nos detalhes que o cercavam. Como naquela paisagem, que abrigava apenas alguns tipos de vida, tão forte e intenso era o seu clima, os seus extremos – calor de matar de dia, frio de gelar cara e mãos à noite. Phil sentia-se um pouco assim também. Forte e intenso, ÚNICO, assim como um deserto – Phil era “aquilo” e nada mais.
Já à noitinha, Phil regressou à LA. Sentiu o corpo um pouco cansado, mas a mente renovada, como que nova em folha. Chegando em casa abriu a porta de sua geladeira enquanto ouvia uma entre dezenas de mensagens em sua secretária eletrônica. Reparou que fora bebidas de álcool, havia apenas água com gás na geladeira. E foi o que Phil bebeu, na sala de sua casa, enquanto ouvia Miles Davis e fazia uma reflexão a respeito daquele inédito fim-de-semana. Até pegar no sono ali mesmo.
Na manhã seguinte, Phil saiu cedo em direção à Burbank. Tinha um filme para acabar, e iria dar conta do recado, isso ele tinha certeza. Dirigir uma superprodução hollywoodiana não era fácil, mas era o que ele gostava de fazer. Tanto ou mais, do que do próprio deserto americano. Assim era Phil.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Desejo
Escrito por
Zulmar Lopes
Estancou maravilhado diante daquele peitão ali à mostra. E as coxas carnudas então? Deixavam qualquer mortal babando de vontade. Entusiasmou-se com sua pele bronzeada, douradinha, cheirosa. Mas era um sonho quase inatingível para ele, um reles mendigo. Resolveu passar o dia esmolando na esperança de conseguir o dinheiro suficiente para saciar o carnal desejo, afinal, também não era ele um filho de Deus?
Terminado o dia, notas amassadas dentro dos puídos bolsos, tomou coragem e foi direto ao assunto.
- Boa noite.
- O que há de boa nela? – foi a resposta indelicada.
- Quanto custa? – perguntou apontando com o queixo.
- Dez real, completo.
- Farofinha também?
- Incluída.
- Vou querer.
Voltou para a praça onde dormia feliz, de posse do suculento frango assado que tanto sonhara. O arrogante e mal-educado português da padaria que se danasse.
Nós, O Rio e a Lua
Escrito por
ofilhodoblues
Eu bem poderia
Ser o próprio Rio Capibaribe
Sempre preso no mesmo lugar,
Com suas águas escuras
Seguindo caminhos
Que nunca sabem onde vão dar.
Desde que tu fosses a Lua
E viesses todo dia
Me beijar.
André Espínola
(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")
Ser o próprio Rio Capibaribe
Sempre preso no mesmo lugar,
Com suas águas escuras
Seguindo caminhos
Que nunca sabem onde vão dar.
Desde que tu fosses a Lua
E viesses todo dia
Me beijar.
André Espínola
(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
The lunatic is in my head
Escrito por
Júlio Freitas
Tem um lunático lá no pátio
Ele brinca com o cachorroE atira o gato para cima
Pela manhã
Ele conta as gotas de orvalho
Por toda a grama
Tem um lunático na minha sala
Ele recita mantras e joga I-Ching
Conversa por horas sobre suas viagens
E projeções astrais
De noite sobe no telhado
E fica olhando os cometas
Tem um lunático na minha cabeça
E não quer sair
Ou talvez eu não o queira
Ele chora
Ele ri
Após vislumbrar este caos
Ou quando a dor se acentua
Ele some
E se esconde
No lado escuro da Lua.
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
Fotos de viagem
Escrito por
Glauber Vieira
Para variar um pouco, postarei agora fotos da viagem que fiz aos Lençois Maranhenses, há poucos dias. Vale muito a pena.
Praça da Matriz, em Barreirinhas, cidade de apoio ao Parque Nacional dos Lençois Maranhenses.
Barreirinhas
Calçadão ao lado da Avenida Beirario, em Barreirinhas
As lagoas são formadas com a água da chuva, e por isso são temporárias. Podem ser visitadas durante 3 meses ao ano.
Cabanas com artesanato e lanche, vistas do alto de uma duna
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
Nuance
Escrito por
Cesar Veneziani
vida pulsante
vida que vibra
em cada traço
do semblante
em cada nuance
em cada gesto
o riso do ser grato
que elege
valer a pena
cada cena
cada segundo
neste mundo
vida que contagia
quem diria
o cético descrente
vida que dá vida
à pobre vida da gente
(em 18/07/2014)
vida que vibra
em cada traço
do semblante
em cada nuance
em cada gesto
o riso do ser grato
que elege
valer a pena
cada cena
cada segundo
neste mundo
vida que contagia
quem diria
o cético descrente
vida que dá vida
à pobre vida da gente
(em 18/07/2014)
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
sábado, 22 de agosto de 2015
Alheio
Escrito por
Rodrigo Domit
Mal sabia que seu trabalho fazia dignos apenas aqueles que colhiam os frutos de seu esforço.
Sádico e bem treinado, agradecia de bom grado todo resto que lhe era dado
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Se Essa Porra não Mudar, Olê Olê Olá...
Escrito por
André Bortolon
Cássio tem 14 anos. Como todo adolescente, já se sente um pouco adulto. Não só pelo tamanho – já ultrapassou o pai em 3 centímetros – mas, porque também está descobrindo coisas de adulto. Cássio é, acima de tudo, um adolescente ‘cabeça’. Certamente um garoto especial. Assistindo da sacada de seu apartamento aos protestos do último domingo, foi que ele bateu este papo com o seu Valdir, seu pai:
- Pai?
- Fala filhão. O que manda?
- Você não protestou nenhuma vez, desde aquela vez do aumento das passagens de ônibus. Por quê?
- Não, não... não tenho saco para esse tipo de coisa, filho...
- Mas, pai – Cássio olhou nos olhos de seu velho – Você não fala sempre que esse país é uma bagunça? Que nada funciona direito?
- Hum...
- Você não acha que o protesto é um bom jeito de reclamar do que está ruim?
- É sim, filho. É uma forma de o povo se expressar sobre o que não está agradando mais. Você tem razão, moleque.
- Então por que você nunca foi a nenhum?
- Hum... – seu Valdir deu uma pensada, talvez tentando achar argumentos não tão radicais. Afinal, não queria desmotivar o filho com pensamentos negativos. Após titubear um pouco, enquanto Cássio ficava impassível aguardando uma resposta de seu velho, seu Valdir disse:
- Olha, filhão. Eu já não acredito mais que essa joça possa mudar. Por isso não vou. Prefiro fazer qualquer outra coisa do que gastar minha energia num protesto que... que... não dá em nada filhão.
- Mas, pai, parece que a Dilma vai sair. Querem o impeachment dela, não é?
- OK. Mas ainda assim não vai mudar porcaria nenhuma. Sai uma bandida, entra outro. Ou outra, sei lá.
- Mas... – Cássio mostrava esperança em sua fala – ...se muda quem está roubando, quem entrar vai se tocar de que o povo não quer mais roubo e patifaria no governo...
- Olha Cássio, acho que não. Não quero parecer um negativo de carteirinha. Acho legal que você acredite, viu?
- Mas...?
- Bem, faça a seguinte analogia meu filho: digamos que sou chamado para trabalhar em uma nova empresa. Meus objetivos são os melhores, você me conhece: trabalhar certinho, se possível não faltar, trazer conforto e qualidade de vida para você e sua mãe, não fazer nada de errado no serviço... Mas, supondo que eu não saiba que na verdade esta empresa em questão não passa de uma quadrilha de bandidos. Que os diretores, gerentes, supervisores, todos nos melhores cargos são preenchidos por pessoas do mal; que esta empresa, por conseguinte, faz o mal a outras pessoas, seja roubando, mentindo, coagindo...
- Bem, você sairia na hora pai, sem dúvida.
- Justo, Cássio. Mas, suponha que eu continue lá e permaneça trabalhando com esses caras ruins. O que você acha que ia acontecer?
- Olha pai... Acho que eles iam tocar um terror para cima de ti, e você ia ter que fazer o que eles te mandassem fazer. Se você fosse contra eles, iria se dar mal.
- Perfeito. Eu teria que consentir com os crimes que esta empresa comete. Teria que ficar de bico calado, e provavelmente passaria a agir como eles, me tornando um homem mal também.
- É... – agora Cássio tinha um olhar meditativo.
- E se, por alguma razão os mais afetados por essa empresa, no caso, os consumidores do produto que ela oferece, saíssem para protestar e botassem a boca no trombone, você acha que os bandidos que a comandam sairiam numa boa de lá?
- Eles iriam aos seus advogados perguntar o que fazer.
- Na mosca filho. E com dinheiro pesado, eles contratariam bons advogados, certo?
- Os melhores, eu acho.
- Sem dúvida. E, se por um acaso eu lhe disser que a chamada LEI, que deveria em teoria ser imparcial, FAVORECE as empresas, muito devido ao dinheiro que elas movimentam ao longo do ano, você acreditaria?
- Sim, pai. Do pouco que eu sei, o dinheiro manda.
- Então, num possível imbróglio judicial, quem se daria melhor: a empresa multimilionária e poderosa, regida por mentecaptos, ou o povo afetado pelos produtos desta empresa?
Cássio sorriu esta hora. Olhou para a rua, lotada de gente, bandeiras, buzinassos e faixas, e disse para o seu Valdir:
- Ah pai... Deixa eles sonhar, deixa. É tão bom acreditar em algo... mesmo que esse ‘algo’ seja impossível... Ainda assim a sensação é boa, certo pai?
- Certo, meu garoto. Agora vem cá dar um abraço no seu velho, vem!
Pai e filho se abraçaram na sacada, por quase um minuto. Aí entraram no apartamento e foram ver uma comédia besteirol americana no Netflix.
- Pai?
- Fala filhão. O que manda?
- Você não protestou nenhuma vez, desde aquela vez do aumento das passagens de ônibus. Por quê?
- Não, não... não tenho saco para esse tipo de coisa, filho...
- Mas, pai – Cássio olhou nos olhos de seu velho – Você não fala sempre que esse país é uma bagunça? Que nada funciona direito?
- Hum...
- Você não acha que o protesto é um bom jeito de reclamar do que está ruim?
- É sim, filho. É uma forma de o povo se expressar sobre o que não está agradando mais. Você tem razão, moleque.
- Então por que você nunca foi a nenhum?
- Hum... – seu Valdir deu uma pensada, talvez tentando achar argumentos não tão radicais. Afinal, não queria desmotivar o filho com pensamentos negativos. Após titubear um pouco, enquanto Cássio ficava impassível aguardando uma resposta de seu velho, seu Valdir disse:
- Olha, filhão. Eu já não acredito mais que essa joça possa mudar. Por isso não vou. Prefiro fazer qualquer outra coisa do que gastar minha energia num protesto que... que... não dá em nada filhão.
- Mas, pai, parece que a Dilma vai sair. Querem o impeachment dela, não é?
- OK. Mas ainda assim não vai mudar porcaria nenhuma. Sai uma bandida, entra outro. Ou outra, sei lá.
- Mas... – Cássio mostrava esperança em sua fala – ...se muda quem está roubando, quem entrar vai se tocar de que o povo não quer mais roubo e patifaria no governo...
- Olha Cássio, acho que não. Não quero parecer um negativo de carteirinha. Acho legal que você acredite, viu?
- Mas...?
- Bem, faça a seguinte analogia meu filho: digamos que sou chamado para trabalhar em uma nova empresa. Meus objetivos são os melhores, você me conhece: trabalhar certinho, se possível não faltar, trazer conforto e qualidade de vida para você e sua mãe, não fazer nada de errado no serviço... Mas, supondo que eu não saiba que na verdade esta empresa em questão não passa de uma quadrilha de bandidos. Que os diretores, gerentes, supervisores, todos nos melhores cargos são preenchidos por pessoas do mal; que esta empresa, por conseguinte, faz o mal a outras pessoas, seja roubando, mentindo, coagindo...
- Bem, você sairia na hora pai, sem dúvida.
- Justo, Cássio. Mas, suponha que eu continue lá e permaneça trabalhando com esses caras ruins. O que você acha que ia acontecer?
- Olha pai... Acho que eles iam tocar um terror para cima de ti, e você ia ter que fazer o que eles te mandassem fazer. Se você fosse contra eles, iria se dar mal.
- Perfeito. Eu teria que consentir com os crimes que esta empresa comete. Teria que ficar de bico calado, e provavelmente passaria a agir como eles, me tornando um homem mal também.
- É... – agora Cássio tinha um olhar meditativo.
- E se, por alguma razão os mais afetados por essa empresa, no caso, os consumidores do produto que ela oferece, saíssem para protestar e botassem a boca no trombone, você acha que os bandidos que a comandam sairiam numa boa de lá?
- Eles iriam aos seus advogados perguntar o que fazer.
- Na mosca filho. E com dinheiro pesado, eles contratariam bons advogados, certo?
- Os melhores, eu acho.
- Sem dúvida. E, se por um acaso eu lhe disser que a chamada LEI, que deveria em teoria ser imparcial, FAVORECE as empresas, muito devido ao dinheiro que elas movimentam ao longo do ano, você acreditaria?
- Sim, pai. Do pouco que eu sei, o dinheiro manda.
- Então, num possível imbróglio judicial, quem se daria melhor: a empresa multimilionária e poderosa, regida por mentecaptos, ou o povo afetado pelos produtos desta empresa?
Cássio sorriu esta hora. Olhou para a rua, lotada de gente, bandeiras, buzinassos e faixas, e disse para o seu Valdir:
- Ah pai... Deixa eles sonhar, deixa. É tão bom acreditar em algo... mesmo que esse ‘algo’ seja impossível... Ainda assim a sensação é boa, certo pai?
- Certo, meu garoto. Agora vem cá dar um abraço no seu velho, vem!
Pai e filho se abraçaram na sacada, por quase um minuto. Aí entraram no apartamento e foram ver uma comédia besteirol americana no Netflix.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Dona Ondina e Seu Teto
Escrito por
Zulmar Lopes
Desde a mudança para o novo apartamento, aqueles
passos vinham lhe martelando a cabeça. Pesados, firmes, marciais, passos de
quem nenhuma consideração nutria pelo vizinho de baixo. E o morador sob aqueles
pés que pisavam com tamanha voracidade era ela, viúva, inválida, prisioneira de
uma cadeira de rodas, clamando por sossego no apagar de sua existência, sossego
quebrado pelos maus modos do morador do 802.
Menos de uma semana convivendo forçosamente com
aqueles pés de pedra e pouco sobrara da curta paciência de Dona Ondina. Bastava
o morador do 802 chegar em casa e o tormento se iniciava. Passos, a qualquer
hora do dia. Uns secos, denunciando os pés descalços do vizinho em contato com
o assoalho - Dona Ondina tinha a certeza pela natureza dos sons que o chão
acima de sua cabeça era forrado por tacos - outros, agudos, quando a criatura
portava sapatos. "Maldito! Se ao menos tivesse um piso para amenizar o
trote", lamentava.
Certa noite, despertada pelo andar paquidérmico do
vizinho, Dona Ondina, abandonou sua cama e embarcou na cadeira de rodas rumo ao
interfone. Reclamou com o sonolento porteiro do comportamento anti-social do
morador do 802 e pediu providências. Minutos depois, o empregado, agora
desperto, certo assombro modulando a voz, informou à importunada velhinha que o
"Seu Rosalvo" havia demonstrado bastante irritação com a abordagem
àquela hora da madrugada e, como conseqüência, mandara um recado à reclamante.
— Que tipo de recado, Diderot?
O porteiro, iluminista só no registro de
nascimento, ainda tentou amenizar a situação.
— Com todo o respeito, Dona Ondina, ele mandou a
senhora tomar naquele lugar onde o sol não bate...
O incidente fez que dela germinasse profundo ódio
em relação ao morador do 802. O rude trotar de Rosalvo tornou-se apenas um
componente no manancial de insatisfações que a anciã cultivava por ele. Suas
gargalhadas, visitas, músicas escutadas, barulho da descarga, cheiro das suas
frituras de homem solteiro, tudo era motivo de reclamações. Diderot ainda tentava
apaziguar a contenda porém, Dona Ondina era resoluta: “Até a respiração desse
calhorda me incomoda”, dizia ela ao porteiro da noite.
A solidão de Dona Ondina provocada por sua
dificuldade em locomover-se era, diluída pela visita semanal da faxineira e
pela internet. Os netos, presença bissexta no apartamento, costumavam
provocá-la, chamando-a de “Vovó Internauta”. Ela assentia rejubilada àquelas
homeopáticas manifestações de carinho dos seus enquanto conectava-se em ondas
cibernéticas com o mundo que lhe era privado pela fraqueza das pernas. Cadeira
de rodas em frente ao computador, Dona Ondina surfava na rede, comprando o que era necessário para sua
sobrevivência de mulher que pouco ia à rua, fazendo amigos virtuais, trocando
receitas por e-mails, vasculhando a vida alheia nas páginas de relacionamentos
pipocantes no universo web.
Foi quando ela chegou, obra do acaso, em curioso
endereço eletrônico intitulado “Despacho.com”. No site a anciã descobriu, num
misto de encantamento e horror, diversos trabalhos de religiões afros para o
bem e para o mal. Numa seção, o
internauta poderia enviar o seu “ebó virtual” para prosperidade, saúde, doença
ou morte de algum desafeto.
Rosalvo estava impossível naquele dia, sapateando
nos miolos de Dona Ondina, cd dos sambas-enredos no último volume. Ela olhou a
tela iluminada à sua frente, encarou o teto como se dali brotasse o barulho
provocado pelo morador do 802, suspirou e pediu perdão a Santa Prisciliana, de
quem era devota.
Selecionou com o mouse o mais perverso dos ebós.
Clicou em “enviar”.
Os dias correram em velocidade banda larga e Dona
Ondina esqueceu por completo Rosalvo, macumbas virtuais e netos ingratos,
mergulhando por inteira em sua invalidez e no passatempo da internet. Em certo
momento, percebeu que há dias nenhum barulho partia do andar de cima. Agora era
o silêncio que a incomodava. Incômodo de mãos dadas com o remorso. Temeu que o
ebó encomendado houvesse surtido efeito e internamente se justificava: “Foi um
momento de desespero, o homem me perturbava o dia inteiro”. Ou ainda: “Não
levei a sério o Despacho ponto com, foi uma brincadeirinha de velha”.
Entrou em pânico ao sentir o cheiro da carne
apodrecida vindo do andar de cima. Imediatamente ligou para a portaria.
Aristófanes, porteiro do dia, atendeu e de pronto foi averiguar. Minutos depois
o interfone soou no apartamento de Dona Ondina:
— Ligue não, Dona. Era um pacote de carne podre
que alguém jogou fora e ficou entalado na porta da lixeira do oitavo andar. Seu
Rosalvo deve estar vivo e gozando a vida por aí.
— E você sabe dele, Aristófanes?
O porteiro do dia, que de gracejador possuía algo
além do nome de batismo, não perdeu a oportunidade de vomitar um gracejo:
— Seu Rosalvo viaja muito. Faz uma semana que eu
não vejo ele. Deve estar queimando a rosca em algum lugar.
— Como?
— Essas coisas, Dona. Tenho até vergonha de falar
com a senhora. Esses negócios estranhos, de homem com homem, a senhora entende?
Dona Ondina entendia, mas não eram os gostos
sexuais do vizinho do 802 o alvo de suas preocupações. Queria o silêncio
pairando sobre sua cabeça e temeu o regresso de Rosalvo, pisando duro,
gargalhando alto, ladrão de sua paz.
— Quem sabe ele se casa, Dona, com um gringo
bonitão que leve ele lá pras estranjas? Copacabana tá cheia deles!
Se casou, não deu notícias. Meses avançaram sem
que um único barulho escapasse do andar de cima. Nem o som de uma chave girando
dentro da fechadura chegava aos ouvidos de Dona Ondina. Arrependida por julgar
haver vitimado Rosalvo com as artes do ciberfeitiço, a anciã acendeu uma vela
virtual e deixou uma oração pela suposta alma no “Santa Prisciliana on line”.
Alívio percorreu seu ser quando foi acordada uma
noite pelos passos de Rosalvo. Por debaixo das cobertas, chegou a sorrir ao
reconhecer as passadas familiares, rítmicas, do vizinho do 802. Ele estava de
volta. Nada acontecera. Certamente, largado pelo namorado estrangeiro que não
deveria existir somente na cabeça maledicente de Aristófanes, Rosalvo
retornara. Dona Ondina reencontraria o
sossego de espírito, roubado pelo silêncio que tanto ansiara. Jurou nunca mais
reclamar de Rosalvo, emitir-lhes pensamentos rancorosos ou botar seu nome em
bocas de sapos de mentira nas páginas da
internet. Tentaria selar a paz com o
morador de cima.
Porém, dias transcorriam e os baques provocados
pelos pés de Rosalvo tornaram-se insuportáveis. Houve momentos em que ele
chegou a andar por horas a fio massacrando os miolos da anciã a qual deixou de
lado a trégua e acionou o porteiro da noite.
— Diderot, avisa para o Seu Rosalvo que ele está
me deixando doida com esse barulho na minha cabeça.
— Como assim, Dona Ondina?
— Os passos, Diderot, desse cavalo batizado do
Rosalvo.
Percebeu uma sensação de constrangimento do outro
lado da linha.
— Dona Ondina, Seu Rosalvo morreu. O corpo foi
encontrado semana passada lá na estrada das Paineiras. Desovaram o coitado...
— Tem alguém no apartamento?
— Não, os parentes dele vêm amanhã para tirar a
mobília.
Dona Ondina negou-se a consultar um psiquiatra. Os
filhos, agora mais presentes, tentaram de todas as formar dissuadi-la da
decisão, mas ela manteve-se firme. Era o finado vizinho que estava lá,
sapateando sobre sua cabeça como forma de vingança por ela ter encomendado sua
morte através das forças ocultas. E ela, pecadora, teria que permanecer ali até
o final dos seus dias purgando a sua maldade com um semelhante. “Deixe de
besteira, mãe” dizia um filho. “Se ouvem a senhora falando deste modo, acabam
acreditando e te denunciam”, dizia o outro. “Vocês não o percebem porque ele é
esperto. Fica quietinho quando tem mais alguém em casa. Ele só que me
atormentar, e com justiça”. Os filhos desistiram. Que a mãe ficasse com suas
loucuras.
Dona Ondina passou a pesquisar em sites sobre
fenômenos mediúnicos e descobriu que o modo mais fácil de se comunicar com
aquele tipo de espírito seria através das pancadas que ele emitia.
Logi que as batidas no teto voltaram, ela
perguntou com firmeza:
— É você que se manifesta, Rosalvo? Se for você,
bata duas vezes.
Três batidas secas.
Repetiu a pergunta diversas vezes. Sempre as
mesmas três pancadas em negativa.
Intrigada, ela catou caneta e papel para em
seguida pergunta:
— Pode então soletrar seu nome através de um
número de batidas correspondente a cada letra do alfabeto? Um batida para a
letra "A", duas para "B" e assim por diante? Se concordar,
bata uma vez.
Uma batida.
— Então, vamos ao trabalho.
Gastou a tarde inteira conversando com o morto
pelo método das pancadas. Descobriu chamar-se Ângelo e que vivera naquele
apartamento 30 anos atrás. Permanecera no imóvel sempre assustando àqueles que
se aventurassem nele morar, porém, estava cansado dessa vida de fantasma
batucador de tetos. Antes, tentara fazer o mesmo com ela, Ondina, mas ficara
decepcionado com a confusão que a velhinha fizera entre suas batidas e os
passos de Rosalvo, realmente barulhentos. Estava mesmo surpreso por ela
imaginar ser ele o espírito de Rosalvo. Tranqüilizou a anciã afirmando que o
morador do 802 não fora vítima dele, nem tão pouco dos seus ebós à distância.
Rosalvo morrera por obra de um assaltante especializado em seduzir homens para
roubá-los. "Reagiu, o pobre coitado".
Aperfeiçoaram o método de comunicação, passando
das batidas, alvo das reclamações do vizinhos, para a escrita no computador.
Dona Ondina digitava e Ângelo respondia logo abaixo, guiando o cursor como por
encantamento.
Dona Ondina viveu seus últimos anos assim, em
colóquio diário com o espírito batedor. Soube noticias do outro lado, inclusive
de parentes. Ângelo revelou-se um ótimo correspondente do além. Guardou segredo
até o fim. Ninguém acreditaria mesmo...
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