quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Convidado Pedro Arthur Vieira



Sobre o coração.


Eis que encontraram o coração, sozinho e apertado entre costelas e vizinhos, tecidos, musculo, veias e artérias, sangue, pulsação, contração e distensão, cumprindo com sua função designada sem se preocupar com grandes coisas além disso, apenas batendo, batendo e batendo, vinte e quatro horas por dia, estando o portador desperto ou dormindo. Nesse dia a Entidade a qual a existência não cabe a mim discutir disse ao coração:

"Fostes por demais barulhento, enquanto teus irmãos trabalhavam em silêncio foste o único orgão a querer se fazer sempre presente, sempre notado. Todos desempenham suas funções sem causar alarde, sem lembrar que estão ali, sem chamar atenção para o que exista dentro, sois o único chamando constantemente a atenção do portador para dentro de si mesmo. Queres tanto ser notado, o serás então, façamos jus ao seu egocentrismo. A partir de hoje todo e qualquer sentimento será tido por sua culpa, o enxergarão como causa de todo e qualquer mal, assim como toda e qualquer felicidade, qualquer sentimento, qualquer ânimo, todos eles te caberão a responsabilidade, qualquer sentimento será visto como partindo de ti e terá de reponder por eles. Ira, melancolia, júbilo, serenidade, esperança, desesperança, todos poderão ser creditados a ti. Inclusive a paixão e o amor, os mais arriscados, os que mais gratificam e mais fazem sofrer, será recompensado pela missão mas garanto-lhe que hás de sofrer antes de qualquer coisa. Chegará a um ponto no qual as mazelas humanas serão culpa tua e somente tua, mas não se assustes pois será caro aos portadores e eles não voltarão-se contra ti, mesmoo tendo por culpado. Antes de tudo sofrerá e pagará por aquilo que não é teu."

O coração não entendeu, apenas fazia aquilo que lhe incumbia a Natureza, não era sua intenção pertubar, só poderia ser daquele modo e não de outro, no entanto aceitou seu Destino sem levantar objeção. Milhares de anos após, quando a Ciência quis explicar que a culpa de todo o sentimentalismo era do cerebro e não do pobre coração a mesma entidade retornou a aquele mesmo coração:

"Carregastes o fardo de todo o corpo por muito tempo, pagaste o preço pelo teu pecado. Encontraram enfim o verdadeiro culpado por aquilo que tens carregado a culpa durante tantos anos. Estás livre de tua penitência."

O coração calmamente apenas replicou que não, o posto a qual foi designado continuaria sendo dele. A Entidade surpresa indagou porque continuaria carregando sozinho tanto sofrimento, e ele respondeu:

"Muito sofri, é verdade. Mas se ao longo desse anos eu
Era apenas tecido, pude me tornar seda, lã, algodão, ser rasgado e queimado, mas também acolher, abrigar e confortar
Era apenas músculo, pude me tornar muro, vaso, recipiente, ser posto a baixo, quebrado, pichado, mas também defender, guardar, ser colorido
Era apenas véias e artéria, pude me tornar rodovia, encruzilhada, ser pego por engano, confundido, enganar mas também mudança, movimento, caminho
Era apenas pulsação, pude me tornar incômodo, descompasso, criatura inquieta, mas também um alerta, música, vivacidade
Era apenas sangue, pude me tornar olhos, ser água e prantear a melancolia, mas também a felicidade,
Se me contrai no medo e na incerteza, fui arisco e inseguro
Me distendi e fui força, fui impulso
Deram-me tela em branco, pincéis e tinta e fui pintura,
Deram-me mármore, cinzel e martelo, fui escultura,
Deram-me asfalto, pernas, mochila, fui jornada,
Deram-me ritmo, palco e figurino, fui dança,
Deram me cordas extendidas, juntei às minhas batidas, ao meu sopro, fiz acordes e notas, fui música,

Se fui corpo, matéria, me tornei metafora.
Se fui razão me tornei paixão.
Se padeci, também vivi."

Assim, bem antes de surgir a primeira religião na face da terra já se fizera o primeiro mártir da humanidade. 



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 Pedro Arthur Vieira


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Da série: "Minha arma é minha voz" - Um zero à esquerda!

Outro dia um chefe surtou durante uma discussão de trabalho. O que sempre foi normal, uma divergência de opiniões, se tornou um grande problema!
Eu questionei uma porta fechada num ambiente fedorento que acabara de ser pintado. Como trabalhar durante 8 horas num lugar fedendo a verniz? Minha rinite atacada, já viu...Quando percebi que ele não ia facilitar saí de perto. Foi aí que ouvi: "Vai tomar no meio do seu cu". Eu voltei na mesma hora, paralisada, sem saber direito o que tinha ouvido.
_O que você disse?
_"Vai tomar no seu cu sua estressada"! Repetiu.
Perdi totalmente a noção do certo e do errado! Disse que ele não podia falar comigo daquela forma. Que fosse ele tomar no cu e disse que era um chefe despreparado. Saí novamente e ele correu atrás de mim. Quase pude sentir seu hálito nas minhas costas. Aí parei e me voltei novamente:
_Vai me bater? Se vai,  bate logo! Junto mais essa agressão quando for reclamar!
Quando continuei caminhando na direção da sala onde trabalho escutei:
_"É falta de homem! Tanto estresse é falta de um homem na sua vida"!
Fiz BO. Fui ao RH e reclamei. Disseram que tomariam providências.
Isso foi dia 15 de outubro. Depois desse dia tiraram o elemento da minha vista e ainda disseram que seria demitido.
Na segunda-feira, depois das eleições do dia 26, ele voltou. Retomou suas atividades normais e tudo voltou a normalidade.


Continua...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Memorial do Pablo Neruda em Isla Negra

Entrada do museu

Confesso que quase nada conhecia da vida e obra de Pablo Neruda. Em recente viagem ao Chile, pesquisando sobre pontos turísticos do país, descobri que o poeta é um dos grande ídolos nacionais, e suas três casas no país foram transformadas em museus: La Chascona, na capital; La Sebastiana, em Valparaízo e Isla Negra, no povoado homônimo, às margens do Pacífico. Esta última é talvez a mais popular, por abrigar os restos mortais de Neruda e de sua terceira esposa, Matilde Urrutia.



É difícil chegar a Isla Negra. Fomos de excursão, e é fácil reparar que inexistem placas nas rodovias indicando o lugar. Em resumo, só se sabe que está em Isla Negra quando já estamos lá.
Pagamos eu e minha esposa Mônica 10000 pesos para a entrada, o que equivale a uns 45 reais. Todos os turistas recebem um aúdioguia no idioma de sua preferência e faz o percurso pela casa e pelo terreno por conta própria.

Ao final do passeio, chega-se a uma lojinha, com vários produtos temáticos a Neruda. Estão lá seus livros e tanmbém livros de outros autores que tratam de sua obra. Além disso, também se encontram camisetas e artesanato. Comprei um livreto com fotos dos três museus, o famoso "Vinte Poemas de amor e uma cancão desesperada", em espanhol, e "Viaje a la poesía de Neruda", de Bernardo Reyes, que percorre as casas em que o poeta já morou, contextualizando sua poesia ao do ambiente em que viveu em toda a vida.
Infelizmente, não é permitido fotografar o interior do museu.

Meus tesouros

Após o passeio, vale uma caminhada pela praia em frente. O Pacífico, nesse trecho, nada tem de pacífico, as ondas arrebentam forte e há muitas pedras. Sem contar o frio da água. 

Há um café no local, onde pode-se curtir o visual do oceano bravio ao lado



video
Vídeo retratando o mar em frente ao museu

domingo, 26 de outubro de 2014

Triste Outubro

outubro tenebroso
de traumas e provas
de atritos e entraves
uns conflitos graves
outros meras travas
outubro de encrencas que se agravam
de gritos, de crimes
de brigas, de pragas
de atitudes atrozes
de atrasos ferozes
de vozes que se vão em vagas
outubro que ainda é esboço
mas que já é poço infindo
de transes e trânsitos
de espinhos nos cravos
de odores pútridos
outubro negro de primavera fria
que se faz poesia
e complacente
- que remédio -
assiste a tudo em tédio

outubro triste

(em 11/10/2013)

sábado, 25 de outubro de 2014

Queria voar

Não bastava fazer de avião. Ou asa delta. Ou parapente. Ou paraquedas. Queria voar mesmo. Sem artifícios.
Tudo o que conseguiu foi um suicídio aos 25 anos.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Decepção


– E a borboleta?
– Fez um casulo e virou lagarta...
– Ah! Que pena.
– É... Acontece.
– Mas não se preocupe, tem muita borboleta no ar





terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sabor lilás

                                          
                                   Um sabor lilás
                            Na boca da madrugada
                            Bala açucarada

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Convidado Marlon Vilhena




ORA, MERDA

as formigas se enfileiram, seguem-se pela rachadura na calçada.
o pé grande com tênis de R$ 139,90 decreta o fim pelo alto.
um defunto diz valei-me, deus, que o demônio quer comer meu rabo,
começando pelo culhão.
deus esvazia o cinzeiro e com voz de ressaca pelos ventos ressoa
que se foda, arranja-te sozinho praí que eu tenho mais o que fazer.
as formigas fogem, desembestam, esmigalham-se.
uma barriga sente fome, um avião despenca.
um estupro por excelência nos Andes.
um vômito por excrescência em Istambul.
o defunto levanta um cotoco viril da terra,
deus assoa o nariz e vai buscar aspirina na prateleira.
ora, merda.
porque sim.



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Marlon Vilhena - é natural de Macapá-AP e escreve há muito tempo. Depois de viver em Minas Gerais e São Paulo, de ter trabalhado como garçom e professor, e também de ter feito biscates como segurança e músico, formou-se químico e atualmente mora em Belém-PA.


domingo, 19 de outubro de 2014

Assitindo TV, ouvindo rádio...

Caros amigos, se propaganda eleitoral gratuita fosse algo realmente bom, ouviríamos frases do tipo:

Hoje não posso perder o último dia da propaganda. Estou contando os minutos...” ou

Vamos fazer aquela jantinha lá em casa, após o jantar tomamos umas cervejas e assistimos ao horário político, para fechar a noite com chave de ouro!”. Ou até, pessoas desligariam o seu celular na hora da propaganda política, para não serem importunadas durante a transmissão; aumentariam o volume do rádio do carro, na volta do trabalho, como se aquilo fosse uma final de Libertadores.

Se o tema política realmente atraísse tanto assim o interesse da multidão, canais a cabo como “TV Senado” ou “TV Câmara” teriam uma audiência igual ou superior a canais como a Fox ou a Warner. Há quem diga: ‘mas o povo deveria assistir. Saber o que eles fazem lá’. Bem, meus parabéns para quem assiste, afinal, nem os próprios eleitos comparecem regularmente às sessões nem da câmara, nem do senado. Será que até eles, que ganham pra isso, acham tudo uma tremenda chatice?

Outra entre as top preferências nacionais vai para a ‘Voz do Brasil’. Certamente com dezenas de milhões de curtidas no Facebook, este programa de rádio obrigatório é mais um estrondoso sucesso nacional. Instituído na época de Getúlio Vargas, o programa segue com o mesmíssimo padrão de quando começou, ou seja, o padrão dos anos 30. Até o jeito de falar de seus locutores parece dessa época; creio ser esta uma das fórmulas de seu sucesso.

Na TV, há também aqueles que vão morrer fazendo a mesma coisa, sem nada diferente a acrescentar: o mesmo bordão, a mesma piada infame, a mesma deselegância em interromper as pessoas... e ainda assim um sucesso absoluto nas tardes de domingo há, quanto mesmo, 26 anos? Aqui vai o meu muito obrigado a você, Faustão, e a sua grande mentora, a mesma que mantém este seu programa maravilhoso no ar: a insuperável, majestosa, zilionária, Rede Globo. Obrigado a vocês por deixarem tão vibrantes nossas tardes de domingo!

Com certeza eu poderia continuar citando uma pá de programas. Mas, como não sou crítico especializado, apenas mais um simplório brasileiro, deixo assim mesmo, do tamanho que está. Até onde eu sei, na Internet podemos postar, publicar ou blogar o que bem entendermos. Ah, e também podemos assistir e ouvir APENAS o que nos interessa. Ainda bem!

sábado, 18 de outubro de 2014

Pedantrix

Tudo o que sei,
somente eu sei,
que tudo sei.

Gênesis do Meu Mundo

O céu tingido de negro
é a obra-prima
D'algum deus sóbrio
Que só dispunha
D'uma tinta.
As outras, extintas,
Um deus bêbado derramou

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Melancolia Mortífera

                 Uma historia difusa, confusa, um tanto alusiva e imprudente, cheia de parafasias, muito contingente... escrita em meados de maio/abril, tempo em que muito pouco se sabia sobre o que acontecia, e muito menos sobre o que aconteceria. Tempo em que a filosofia era fraca e as meras poesias eram horizontes utópicos, ilusórios, inatingíveis, inalcansaveis, ou não. historia perfazida em outubro.
                Na soma das contas de ambos os lados, cada um chega a um pensamento concludente cabível, desmedido, negativo, diferente ou não. Mas aos que muito sabem, restara uma conclusão mais perto do real acontecido , talvez algo como "uma verdadeira tragédia". Porém só mesmo o ator principal dessa obra sabe de verdade o que aconteceu.


                                              


                                   

                Melancolia Mortífera
                                                 
                    Inspirado nos contos de Edgar Allan Poe


                Sob o parapeito da janela paira uma tênue mariposa megera, e com o peito sobrecaido sob o mesmo parapeito um corpo embriagado e quase já inoperante, a observar num olhar longínquo a linha do horizonte, tão distante. Ansiando pelo deleite de ver o sol no expoente nascer, trajando nos olhos as olheiras esculpidas pela insônia e pelo choro quase incessante, choro que durante dias dançou suas lagrimas tristes da alma a saudade eterna que é o sentimento inquietante que atormenta infindo seu coração, ao remexer das lembranças escritas na memória.
                Haviam se passado dias após a morte de sua amada e embora não tivesse pronunciado nenhuma palavra sequer a ninguém, também porque ninguém quis escuta-lo, seu semblante taciturno dizia tudo, lastimava sua falta, pois fora ela a razão de sua vida, fora ela que o salvou da solidão, ela que agora deixava-o para sempre de onde o tirou. Ao decorrer, dias de tempestades, grandes nevoeiros e fortes ventos haviam saturado de medo e de fome o pobre homem, inconformado, sentia-se sozinho em seu amor por vezes demasiado outrora efêmero
                 Na noite passada o pipocar tormentoso no seu telhado e a cabeça fadigada estarrece e pode repousar algumas horas sob o alivio do barulho da chuva. são nessas poucas e duradouras horas interferiveis senão apenas pelo despertar pavoroso,  que tem um sonho, o mesmo sonho pesado de outras vezes, sonho em que acordado desfruta ter tudo que se quer ao seu lado, de repente num momento inesperado, tudo se desmancha, se destrói, se desfaz, acorda suado, vê-se acorrentado por galhos de um grande arbusto de onde emergem milhares de pássaros negros a voar, que o fazem acordar num susto, dessa vez na realidade de dentro de seu quarto escuro.
                O quarto reproduz um cenário sombrio e de tristeza, no qual rodeado de mobílias antiguadas pelo descuido, livros caídos da estante e um quadro de um pintor surrealista mal pendurado na parede deixa o ambiente com um tom mais sombrio e velharesco. Lá fora o cachorro morre de fome .
                O café frio acolhe as moscas numa curiosidade mortífera, as bitucas no cinzeiro viraram cinzas e mofaram no amargo tempo de solidão em que já não se alimenta direito e nem sente vontade de fazer nada além do que ficar ali naufrago, perdido no tempo, trancado no quarto em estado profundo de depressão, olhando o constante vai vem dos carros e o pendulo do velho relógio na parede oscilando o tic tac; a espera do que lhe foi programado no final, A Morte.
                 Uma voz silenciosa e fria, se aloja cada vez mais em sua cabeça ,fixando a ideia de um caminho a seguir, tornando todas as outras estradas impercorriveis, atropelando os sonhos, despedaçando-os, transformando-os em poeira que o vento se encarregara de levar para longe logo depois, querendo ou não construindo uma muralha cada vez mais impenetrável na sua oposição á vida. Estava vivendo do lado de fora do castelo que um dia tanto sonhou e vendo ele se desmoronar diante seus olhos, sem ao menos poder fazer algo.
                Lhe restara apenas a solidão de um amor, e o ganho de algumas garrafas de wiske e maços de cigarros como consolação pelo mal ocorrido, além de preciosos minutos de vida recheados das mais doces amargas recordações, os pensamentos descordenados voando em sua cabeça deixando-o de certa forma inebriado, absorto, pois do trago foi a deriva, bebeu tanto quanto não devia, fumou até ofegar, guardando o ultimo cigarro para o momento esperado.
                O cachorro lá fora uiva anunciando a chegada hora esperada, o sol estronda o céu com suas cores fulgidas e gritantes e ao mesmo tempo cálidas, e aquela voz que antes o chamava silenciosamente agora ecoa cada vez mais alta pensamentos mortíferos em sua cabeça, sofre o incidiu desejo derradeiro da voz que contamina totalmente seu espirito de assombro e terror. Se dirige com passos arrastados na direção da estante do quarto de onde em meio a livros emaranhados, abre um recipiente  empoeirado, parecido com um baú, de onde tira um frasco de veneno, e volta a se sentar próximo a janela com o frasco na mão, pega o cálice de wiske e despeja o liquido do frasco de cor roxa dentro do cálice, a junção das substâncias torna-se mortal, então bebe daquele cálice como se beijasse a morte, acende o cigarro que esperou, o efeito é quase instantâneo, em segundos o dia amanhece, contemplação e terror, projeta-se uma sombra por trás dele, senti sua  visão embaçar e escurecer sofre uma midríase (dilatação das pupilas) apesar da forte luminosidade do sol impregnando e cobrindo com seus raios de luz cada pequeno espaço do seu quarto e aquecer seu corpo e alma melancólica, deduz ser seu fim, fecha os olhos e senti sua alma escorregar para os braços da morte.

O mundo parou descontinuou ao silencioso triunfar da morte.



- Joel Lavino


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

FLORES EM VASOS DE MOLOTOV

UM POEMA COMO CARNE NO AÇOUGUE
NA VITRINE DA LOJA
UM POEMA EM POSIÇÃO DE DESTAQUE
FEITO ESTANTE LUSTROSA
NUMA PILHA DE NERVOS
SEM DEDOS NEM PROSA

UM POEMA OLHANDO O CAOS, LÁ DE CIMA
NUMA FALTA DE ESCOLHA
COM VISÕES DE ESTOURAR A RETINA
FEITO PLÁSTICO-BOLHA
FADADO À SUA PRÓPRIA SINA
AO VENTO, COMO UMA FOLHA

UM POEMA FEITO LUTA PERDIDA
NUM CAMPO MINADO
TANTA COISA INFRINGIDA,
QUASE NADA CONSIDERADO

UM POEMA COMO FLORES
EM VASOS DE MOLOTOV

COMO O HOMEM NO ESPAÇO
O RECESSO
O CANSAÇO
O AVESSO
O FRACASSO
O EXCESSO
O ESCASSO.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

domingo, 12 de outubro de 2014

A BRECHA

 


Tanto tempo sem escrever
Tudo por fazer
Me preocupa a falta criativa
Ou seria a sobra com falta de tentativa
Tanto trabalho à prescrever
Me subestima sua tentativa
Ou seria a falta do que fazer
Para fazer faltar minha sobra criativa
Soberba militância a sua
Só não arquitetava o que acontecia
Enquanto pairava no ar a falta criativa
A cabeça cheia de sobras esperava a tentativa
Finalmente me deu a brecha
Agora pairam no papel as sobras criativas
Falhou sua tentativa
Findou, por não arquitetar o que acontecia
Não volto plenamente, pois há trabalho à prescrever
Quase tudo por fazer
Porém, já não me preocupa a falta criativa
Sei que são sobras esperando a tentativa
Dê brecha para você vê

sábado, 11 de outubro de 2014

A Cadeira 41

.
- nada pra ler!! - resmungava o velho e bom faxineiro do bar enquanto arrumava a bagunça do ambiente depois de outra madrugada de sexta-feira - assim não dá!! - percebia que sua irritação não era só pelo salário carcomido pela pensão alimentícia ou pelo trabalho 'insalubre' que vez ou outra deixava-o em crise de depressão. - tenho que dar um jeito nessa joça!! - sabia, por mestria na profissão, que a inércia das coisas implorava agoniada por uma ação rápida e precisa porque ali, mais que um local de trabalho, é que resumia sua vida.

naquele instante, ao passar o úmido pano sobre o balcão notou que, sob o cinzeiro ainda repleto de cinzas de Free extra longo, extra fino e extra tudo havia um bilhete destinado ao patrão. e ele, ignorante e ingênuo e intruso, leu.

"Adeus chefia, isso aqui tá uma merda!!

Ass. O Zelador"

-eu avisei!!- pensou alto, enquanto limpava o cinzeiro e amassava o bilhete. -mas ninguém me escuta!!- protestou esmurrando o pote de ketchup cujo jato do vermelho molho foi pintar o retrato do pai e da mãe do dono do lugar.

e esse ato impensado brotado (sic) de um misto de fúria e indignação é que despertou nele uma espécie de luz. viu na sujeira que ele mesmo fez e que ele mesmo limparia o sonhado teorema. tal qual arquimedes, (só não nu, porque aí seria forçar a barra, mas pensando bem, por que não? faxineiro é meu e ninguém tasca) tirou o chinelo, o macacão e a cueca e saiu correndo.

-eureka! eureka! eureka!

pobre sujeito, o rio de janeiro não é na grécia, não era amigo do rei e muito menos da polícia. foi condenado por atentado ao pudor, mas teve sua pena trocada por serviço comunitário. desde então vem fazendo faxina na sede da abl três vezes por semana, onde aproveita para ensinar seu teorema aos 'cadeirantes'.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Convidado Flávio Sanso



O homem é bicho de não ser só

Havia no sertão um lugar desabitado. Tão ermo, enfadonho e desolado, que por lá ainda se esperava a chegada de Cabral. Fazia silêncio absoluto, a ponto de primeiro amedrontar e depois enlouquecer até quem tenha predileção pelo sossego. Pois assim parecia que o tempo não passava, ou nem sequer existia. E só se notava que ele existia e passava, por causa da escuridão da noite que rendia o claro do dia. E vice-versa. Na falta de alguém que mandasse, quem reinava mesmo era o sol, que no alto da sua autoridade esturricava tudo, fazia o chão arder e não é qualquer nuvem que ele deixava passear sobre a paisagem. Não tinha culpa. Afinal, se nasceu quente, dourado e explosivo, não se queira que ele pudesse refrescar.

Mas o homem é bicho teimoso.

Seja em solo árido ou pedregoso, sempre há de aparecer pessoa com ânimo de fazer morada, que nem mato, capim e maria-sem-vergonha, que se dão a brotar em qualquer canto. E do nada surgiu uma dupla, que parecia há muito tempo errante. Por falta de olhos que os cercassem, ninguém os viu chegar, a não ser que os calangos possam ter a qualidade de testemunha. Na falta de melhor nomenclatura, convém que Alto e Baixo lhe caibam como alcunha.

Arquitetaram choupana sem teto, de modo a enxergar o céu escuro antes de dormir. Tentavam plantar de tudo, mas só comiam o pouco que a terra se dispusesse a produzir. E não era raro que faltasse alimento. Quando era assim, não sobrava história que calango pudesse contar. Tudo era questão de se adaptar, e da adaptação chegou-se à rotina, que evoluiu para a afeição ao lugar. Se trabalho é ocupação, o Alto e o Baixo trabalhavam até o cansaço dar aviso de chegada, e era menos pela sobrevivência que precisavam manter, e mais para afastar o tédio. Alto e Baixo levavam uma vida de viver só por viver, o que para eles não deixava de ser o melhor sentido que a vida deveria ter.

Diferente das nuvens, o vento, sempre ligeiro e expansivo, circulava livremente sem que fosse incomodado, e isso em decorrência da artimanha de se aproveitar da sua falta de aparência. E num dia em que estava especialmente disposto, levou para lá um objeto diferente que planava suavemente, dançando ao sabor de redemoinhos. O Baixo estranhou a visita, e, com um pulo certeiro, apanhou a coisa suspensa. Quando se deu conta do que se tratava, pôs-se a esbugalhar os olhos, com sintoma de hipnose aguda. Segurava um retrato do mar.

O Baixo passou a carregar o retrato para onde quer que fosse. Bem aos poucos foi nascendo reflexão persistente. Uma ideia tomou de assalto seu pensamento. Era tal como coceira. Ia e vinha sem parar e cada vez que voltava aparecia com mais sustância. Passou a andar arqueado com o peso da perturbação. E num dia, muito de repente, postou-se em paralisia, inerte como tronco enraizado. Sacou o retrato, posicionou-o à sua vista e, sem aviso do que ia fazer, deu um grito de criar eco, ecos e mais ecos, esvaziando todo o ar que tinha guardado nos pulmões. “Eu não fico mais aqui.” “É na direção do mar que eu quero ir”. Partiu com urgência, sem fazer aceno de despedida.

O Alto não demonstrou reação de se ter abalado. Resignou-se com a imposição do destino, exibindo indiferença que quase esbarrava na altivez. Logo pensou que, se antes eram dois e agora era um, mais comida haveria de sobrar. Deu de ombros e se voltou ao que lhe era rotineiro.

Mas o homem é bicho de não ser só.

Depois que o tempo se arrastou, dando mostras de que a coisa mudou, o Alto se aborreceu de só ter sua consciência para prosear. Pior é que já não havia quem escutasse sua reclamação do calor. Não tinha paz para dormir, tamanha era a aflição de abandonar o corpo desacordado em redor deserto. Nem mais se deleitava com seu prazer de matar sede com água de moringa. Perdia a fome. Sim, tinha desinteresse de comer sua parte da comida e a outra parte que também lhe cabia porque sobrava. Tornou-se dono de tristeza esquisita, e sabia bem a razão. Com o sacrifício dos joelhos, tombou no chão de terra batida e começou a espirrar lágrimas em profusão. Chorou feito criança pirracenta, porque a solidão é coisa que não se aguenta sem chorar.

Enquanto isso, lá pelas bandas do litoral, o Baixo era pessoa transformada e já flertava com o deslumbramento. Conhecia gente, sorvia do coco as delícias da água adocicada, saboreava carne de peixe e salgava-se em banhos demorados.

Mas o homem é bicho inquieto.

Caminhando pela praia, o Baixo desequilibrou-se, tropeçou e caiu de um jeito que foi natural a risada se espalhar. Com o rubor da humilhação, levantou depressa, e olhando para a areia bradou com irritação: “mas que malícia é essa de afundar meus pés? Lá de onde eu vim, tinha a confiança de pisar firme no chão, sem o cuidado de evitar o infortúnio de cair.” E depois disso, o Baixo começou a exercitar a comparação. De um lado a areia mole e de cor aguada, do outro a terra dura e de cor marrom-forte, quase avermelhada. Daí se vê que o Baixo ia pelo caminho de cultivar recordação do seu ponto de origem, e é sabido que amontoar lembrança é querer chamar a saudade, que quando chega sabe muito bem marcar presença. É o que dizem por aí: o mar causa enjoo, e o Baixo enjoou do mar.

O sol já se punha, porque até quem tem poder de mando merece descansar. No horizonte pintado de cor-de-abóbora, o Alto avistou a figura do Baixo se aproximar. Os dois correram um contra o outro e se abraçaram com aperto forte, e foi tão forte que rolaram no chão, levantando nuvem de poeira. Aquilo foi de dar nó em garganta de calango curioso. Tudo voltou ao tempo de antigamente.

Mas o homem é bicho rancoroso.
Dizer que tudo voltou ao tempo de antigamente é querer dar conclusão rasa a questão profunda. O Alto tinha no seu íntimo algo desarrumado, reclamando ajuste premente. Memórias sobre a desgraceira do desamparo eram como filme de reprodução repetida. Uma voz interior atiçava com injúria irritante: “tonto, frouxo e paspalhão”. Essa mesma voz, teimosa que era, passou a cobrar postura de revide. Por aí é que a inteligência do Alto forjou julgamento fundado no preceito de que cada qual tenha que dar paga pelo mal que causou. A sentença estava pronta e acabada. O Alto partiu sem rumo e sem previsão de parada. Deixou para trás o Baixo, que estava condenado a experimentar a mesma dor da solidão que um dia provocou.

O Alto seguiu caminho com passo acelerado, chutando pedra atrevida que parasse à sua frente. E desse modo percorreu trilha alongada, até quando uma segunda voz anunciou advertência: “se o Baixo inaugurava solidão, por causa de condenação, o Alto já ia para a sua segunda vez, e por causa de orgulho ou ausência de perdão.” Então, começou a andar em marcha diminuída. De resoluto passou a vacilante. Agora já quase nem andava. Braços jogados para trás em entrelace nas costas e olhar fixo nos rasgos do terreno. Por ali se viu em grande dilema que precisava solucionar. Parou, fazendo menção de se virar.

Porque o homem sempre será bicho de não ser só. 



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