terça-feira, 10 de setembro de 2013

Convidado Samuel Giacomelli



Quem Sabe

Aqui começa a nascer um poema sem nome
como qualquer outro que em si se basta
um poema como os outros que a si consome
e como se perde, se procria e se alastra
cada qual toma seu rumo, cada qual sem prumo some
e na soma de trajetos seu caminho traça
sem perder de vista o outro, sem que se tencione
cada momento de vida que aos olhos passa
e ainda que, a tudo o que é beleza, ambicione
de qualquer boca alheia se derrama em graça

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Samuel Giacomelli 
http://www.verdadeprovisoria.blogspot.com.br/
 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

PSICOPUTA - porque tem coisas que não aprendemos na escola


Desde novinha só pensava em pica
Sempre fui bonita e gostosa
Nunca faltou nada
Meus pais são ricos
Fiz todas as viagens
Todos os cursos
Falo inglês, francês, alemão.
Autodidata em espanhol e italiano
Melhor aluna do balé
Toco piano e harpa
Campeã de esgrima na modalidade sabre
Aptidão nata pra aprender
Nunca fiz esforço
Formei-me pela UFRJ frequentando lavatórios
Mestrado e Doutorado
Sou engenheira química
Antes estudei no Santo Inácio
Foi lá que tudo começou
Com dezesseis anos já tinha chupado quase todos
Era eu a verdadeira putinha de banheiro
Nunca fui pega em flagrante
Não pelas candinhas religiosas
Boatos são só fofocas
Negávamos tudo
As freiras nunca tiveram certeza
Qualquer rumor era sem procedência
Os meninos eram cúmplices
Não se importavam com suspensões
Eles tinham muito a perder
Minha fama era o discurso abstrato da balela
Meus pais eram chamados pra conversar
As pedagogas com nada conseguiam corroborar
Para meus progenitores era cômodo não acreditar
Não tive problemas por conta do improvável
Minhas amigas, as idiotas da repetição de conceitos estabelecidos, diziam eu ser virgem.
Aquele papo de hímen sem pé nem cabeça
Não dar a buceta era minha perversão
Pra pessoas inteligentes eu posso dizer
Perdi a virgindade chupando dois alunos no banheiro
Aos quatorze
Nascia uma lenda
Adorava isso
Pau na buceta só aos dezessete
Hoje tenho trinta
Sustento meu vício
Meu teste vocacional deu pessoa amoral
Sou puta
Não sou garota de programa
Não sou acompanhante
Sou puta
A puta
Lembro de uma amiga falando da superclasse:

“Prostituição é profissão
Putaria é diversão
Puta é uma coisa
Prostituta é outra
Tudo é uma questão de atitude
A puta brinca
A prostituta não
A puta goza
A prostituta cobra
Mas existe a superclasse da fusão dos gêneros
As prostiputas
Essas trabalham por vocação”

Nunca esqueci tais palavras
Sou extraclasse
A prostiputa
Perpetro por gosto
Faço de tudo
Beijo na boca
Dou o cu
Bebo porra
Apanho
Sou submissa
Mulheres seguras são submissas
Só as inseguras são feministas
Sou uma devassa
Ironias da vida
Tenho hímen complacente
Eternamente “virgem”
Com vinte e quatro anos comecei a cobrar
Antes tinha uma profissão normal
Concursada da Petrobrás
Mauricinhos me comiam pouco
Prefiro desconhecidos
Um dia, num banheiro sujo de beira de estrada, um homem falou:

- Você gosta muito! Poucas pessoas ganham por prazer! Você merece receber!

Ele me deu uma nota de cem
Não foi o valor do dinheiro que me convenceu
Foi o símbolo
Cem Reais era muito dinheiro pra ele
Hoje cobro dois mil por três horas
Mas ainda dou de graça nos banheiros imundos dos homens fétidos
Gosto de esculacho
Nascida para fuder
Nem um homem pode resistir
Dias vãos
Noites vêm
Atualmente fetiches sussurram no meu ouvido
Fetiches macabros gritando todas as noites
Acordo assustada ouvindo:

- Broxar é inaceitável!

Coisas mudam quando demônios gritam
Contrariando os requisitos de segurança, recebo clientes na minha residência.
Existe um motivo
As vozes nos meus pesadelos
Tenho nojo de homem frouxo
Homem que não dá no couro é rato
E ratos têm de ser exterminados
Outro dia vi um cara comprando uma pá num sobradinho de Copacabronx
Podia pensar nele cuidando do jardim
Não
Pensei nele enterrando corpos
O sujeito olhou-me os olhos e saiu da loja
Tive certeza
Ele ia enterrar um corpo
Que mal há nisso
Existem muitos corpos que merecem ser enterrados
Cerrados e encerrados
Os errados excitam
O homem da pá
Tive um estalo
O insight da minha vida
A partir daí matei todos os broxas que não cruzaram os meus caminhos
E não é que tem broxa a rodo não fazendo o serviço!
Pior pra eles
Prefiro ser enterrada de piroca a ter de enterrar meninos flores
Pois é
Enterro mais meninos flores do que cuido do jardim
Moro numa casa imensa na Estrada do Joá
Terreno amplo
Muitas terras
Também comprei a pá
Eu não gosto de estatísticas negativas
Aí é sacanagem
Comigo é assim
Escreveu não leu, pau não comeu, morreu.
Vai pro buraco
Esse é o meu slogan
Pague para trepar e reze pra não broxar
Broxou é vala
Não sinto culpa
Meu analista já me diagnosticou
Dr. Gustini Victor Strasser
Ele sempre diz gozando em minha boca:

- Você não é puta. Você não é psicopata. Você é psicoputa.

E eu respondo de boca cheia:

- Porque tem coisas que não aprendemos na escola.

Dá mole pra mim

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

domingo, 8 de setembro de 2013

arestas



arestas

tuas letras cascateiam
despencam pelas arestas
vestidas de hecatombe

elas espreitam

vastas e vazias
as palavras ressoam

mortas e agourentas

são assovios no vento frio
fantasmas de acertos, erros e fados

no céu escuro as vozes troam
reboando sibilantes

relâmpagos alumiam instantes

“But don't play with me,
 'cause you're playing with fire”

partem-me a cabeça
nessa epifania esquisita

febre

milhares de cacos tilintam
minhas almas espargidas pelo chão

não escute o sonido

cobre os ouvidos
cerra teus olhos
trinca bem os dentes

e espera a treva


sábado, 7 de setembro de 2013

O amor é uma febre




que maravilhoso isso!
maravilhoso


verdade e dor

molas mestras do xadrez de lençóis, fronhas e edredons
equilíbrio no picadeiro de carne e caos de nossos corações

em acrobacias felinas; leve salto silencioso sobre a vida
pouso garras afiadas em tuas ancas

e com vontade, lhe comerei. 
pouco a pouco. de colherinha!
com o sabor de suas entranhas em minha boca
o suco da sua fruta, imolada à minha ceia me deleito e deito o copo
sobre teu corpo arqueado
lhe arranco um naco das costas,; sua alma escorre pelos meus dedos


rente a seus cabelos
nosso gozo servido em uma travessa de prata

seus olhos como lagos imensos no interior do deserto do Saara
à despistar andarilhos nômades tuaregs
e criar oníricas miragens incandescentes


tua boca, dita ao mundo clap clap clap o maior dos poemas
teu sexo a me devorar, recita, silenciosamente, uma ode mortal
nosso balé particular e febril

e nesse já extinto instante
quase morrendo deste brutal enlace
sussurramos, perigosamente,  um o nome do outro


ressuscitados,
voltamos à vida, nunca saciados
com mais fome
e ainda melhores do que antes

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

El Ingenioso Hidalgo Don José de la Portela



Num vilarejo perdido no cume das distantes montanhas do Reino Esquecido de Miguel Pereira, vivia um fidalgo que diuturnamente se dedicava à laboriosa tarefa de medicar notebooks enfermos e ressuscitar computadores mortos. Conquanto seu mister não o desgostasse, o jovem, dado a leituras de livros de cavalaria revolucionária e farto dos desmandos e tiranias de Sua Majestade, o Rei Rói, e dos seus sectários, que se autodenominavam Os Cavaleiros da Távola Quadrada e cujo lema não deixava dúvidas quanto ao modelo -dito democrático - governametal adotado: "farinha pouca, meu pirão primeiro.", decidiu agir. Imbuído do espírito guerreiro dos seus antepassados, limpou, com escova de aço e kaol, a ferrugem da velha armadura do seu finado avô, lançou mão da faca de churrasco à guisa de espada, a tampa da lixeira lhe serviu de escudo, da velha piaçava fez sua lança e assim, devidamente paramentado, montou seu Rocinante VW Fusca 1973 que reunía a força de 1300 cavalos em apenas um, e partiu para a guerra, em nome de sua musa, a combalida, rota mas inda bela Democracia del Toboso. Alguns diziam-no louco, outros faziam troça, chamavam-no O Cavaleiro da Triste Figura, ninguém acreditava nele. Mas Don José de la Portela era brasileiro, miguelense, portelense, intrépido, sagaz, indômito, amava sua cidade e sua família (o adesivo no vidro traseiro de Rocinante clamava em caixa alta esse apreço) e não desistia jamais. Poucas luas após o início de sua aventura, a Providência, que assiste os homens de coração bom e caráter retilíneo, ofereceu ao desacreditado cavaleiro a oportunidade de mostrar a todos - nobres e plebeus - seu enorme valor. Pairavam sobre a reluzente coroa de Sua Majestade graves suspeitas de mau uso do erário real na contratação de carroças destinadas a recolher o lixo feudal, falava-se em favorecimento ilegal ao suserano de um reino vizinho. O Povo clamava por esclarecimentos. Foi marcada, então, uma assembleia na qual decidir-se-ia quanto à instauração de procedimento investigatório em desfavor do monarca. O Povo acorreu em massa e lotou a audiência, gritando palavras de ordem. A vassalagem não destoou nem surpreendeu, vassalo é vassalo. A grande surpresa ficou a cargo de nosso intimorato fidalgo que, malgrado as severas ameaças - que incluiam degredo, bastilha e guilhotina - proferidas pela Ordem dos Cavaleiros Encarnados, à qual era filiado, votou, em meio a lágrimas profusas e reminiscências das façanhas do avô, o Duque del Futurista, e para desgosto do Monarca e seus asseclas, a favor do investigatório. A turba foi ao delírio. O outrora chacoteado Cavaleiro da Triste Figura foi carregado nos ombros pelos populares, heroi merecidamente aclamado cujo novo cognome condiz melhor ao seu brio, à sua coragem e caráter: O Cavaleiro da Esperança. O final da novela ainda está por contar, todavia, uma coisa é certa: não há mais bobo de bobeira no Reino de Miguel Pereira.

Carlos Cruz - 19/04/2013

com vistas à contextualização e compreensão:

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Hoje vou postar um poema e um pedido:
esse meu poema foi escolhido para ser exibido no telão do Cabaré Soçaite do Ricardo Kelmer..


O pedido: 
Estou participando do  

CONCURSO FOTO-CURTIÇÃO 24.08.13


Cliquem no link e vão lá votar! beijooooossss



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Múltiplo



Tenho um caso clássico
de múltiplas personalidades;
já fui Caravaggio
Tasso, Ariosto,
já me senti santo
já fui encosto
(encostado no canto)
chorando alegrias
e sorrindo prantos
encontrei toda a lucidez
quando perdi a razão:
tornei-me Sócrates
Iscariotes
e Platão,
um dia era Garrincha
no outro era o “joão”

Várias vida de um salto
experimentando de tudo um pouco
nesse mundo-hospício-palco


Publicado no livro "Balada do Homem sem nome", parte da coleção Goiânia em Prosa e Verso 2013. 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Solitária inocência


Sabe quando bate aquela saudade
e você simplesmente desconhece?
Tenta uma vez, duas, três...
Mas o bar já está fechado?
Negociar com prostitutas
sem compreender o real sentido
"ménage à trois".

Onde estão as moitas
ou banheiros públicos
que tudo acontece?
Tudo se planeja!
Como descobrir essa merda que me aflige
se até mesmo ela é uma derrota.  

Paulo Roberto 

álbum de fotografias




quanta sorte sonhar quando se é verde
não gosto de falar de minha infância
não há atos nobres nessa época
o que tenho certeza é que queria
crescer logo e me livrar da caolhice
do manco de pés tortos
da aparência desengonçada
e da opressão dos adultos

mal sabia eu que a miopia aumentaria
que os pés continuariam tortos
que a aparência piora com a idade

mal sabia que a opressão maior
é a da realidade e não dos velhos
mal sabia que ser cuidada e oprimida
é mais acolhedor que ser ignorada
ou ser preterida

não me recordo de tempos para sonhar
havia um medo velado em meus olhos miúdos
e um silêncio imposto
naquela casa sempre cheia de visitas importantes
era proibido correr
dizer palavrões ou se manifestar

ali criança não tinha vez
pular o muro e viver uma alegria clandestina
rendeu-me ora a cinta ora a palmatória
quem dera ter tido a glória
de saborear da liberdade

luxo seria ser uma criança
numa casa de velhos burgueses
não me recordo de um momento
de êxtase livre de culpa
ou de uma satisfação
não fadada à mentira

sou fruto do que fui
no fundo ainda sou
aquela criança.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

a mosca ou o único cliente da noite


a mosca zunia em torno da lâmpada velha e suja. as cinco mesas do boteco infame estavam vazias. a pouca luz não escondia a gordura entranhada nos copos e toalhas plásticas nem as paredes descascadas e rachadas. no ar cheiro a mofo e mijo. o dono da pocilga era um gordo fedorento que mastigava o palito usado e limpava o balcão com um pano sórdido. e lá estava o único cliente da noite encostado no tal balcão. do rádio de pilha em cima da prateleira, ao lado das garrafas, saia uma música antiga que falava de um bordel e suas putas tristes. o copo de cerveja do único cliente estava pela metade. ele tira do bolso da camisa um cigarro. pede fogo. ganha uma caixa de fósforos. acende o cigarro, dá uma tragada longa, acaba com a bebida num gole só. puxa o revólver do bolso de trás da calça jeans e dá um tiro no dono do bar e outro na própria cabeça. ficam ali os dois estendidos no chão imundo. lá fora apenas um cão late ao longe. a música no rádio continua. a mosca desiste da lâmpada velha e pousa na boca do único cliente da noite.

domingo, 1 de setembro de 2013

João





Ele ainda não consegue falar muita coisa, mas já nos comunicamos perfeitamente.
- João, olha os passarinhos.
- uh?
- perto das flores.
- uh!
- E veja o Auau.
- Auau. – Ele abre os braços e o sorriso que me derrete.
- quer beber água?
- água.
Coloco a mamadeira em sua boca e ele dá só um golinho, depois outro, repete várias vezes. Parece comigo quando birito uma cachacinha.
- você quer comer alguma coisa, joão?
- uh?
- comer?
- uh?
- você quer nhame-nhame?
É aquele sorrisão e a resposta: - nhame-nhame nhame-nhame.
Dou uma fruta de petisco. Ele sempre estranha os novos sabores, mas prova, sabe que pode confiar no que ofereço.  Quando gosta, repete ”nhame-nhame”, mas se não gosta, pede água e prova de novo. Fecha o cenho, me olha e come até o fim. Confiança.
- como foi seu dia, meu filho?
- uh?
- tem curtido essa onda de ser um bebê?
- uh?
- vamos brincar de rasgar papel?
- uh?
- o que você quer fazer?
Ele repete o “uh” e suspira, se cansa de pensar em tantas palavras difíceis, parece comigo quando tento conversar em inglês, é realmente estafante.
- João, olha o vovô João.
Os olhinhos se arregalam ao notar o homenzarrão de cabelos compridos, longa barba branca e uma enorme cabeça que impõe respeito. Me agarra os braços e se encolhe.
- calma, filhote. É o vovô João. Veja, vou pegar na barba dele.
Ele faz uma cara de espanto, como se eu estivesse me arriscando em algo assustador. Não cede às brincadeiras do vovô, ainda tem medo do meu velho.
No fim de semana encontramos um casal de amigos. Apresentei o João à Fernanda e ele, sempre simpático, sorriu, mas quando o mostrei ao amigo João Barbosa, ele se encolheu.
- calma, João. Este é o tio João. Ele se parece com o vovô João, lembra? É grandão também, tem cabeção e barba branca como o vovô.
- uh? – Os olhinhos ainda estavam arregalados.
- veja, vou pegar na barba dele.
Então abriu o berreiro. Me puxou o braço como se falasse: “tira a mão da boca desse monstro, papai”.
- calma, meu filho. É só o tio João. Veja, é amigo do papai. – Mais puxões na barba. – é o tio João, parecido com o vovô João.
Ele se acalmou, mas continuou alerta. Eu o sentei no sofá.
- tá mais tranquilo, neném João?
Pude jurar que ele fez umas avaliações mentais antes de escancarar novamente a boca num choro ressentido. Era como se me dissesse: “o vovô João é aquele monstro com cabelos no rosto. O tio João é este gigante com a cara peluda. E eu sou o neném João. Será que vou me transformar num João grandão, cabeçudo e cabeludo como eles? Nãããooo...”.
- calma, João.  – Eu ri, mas não dele, foi pela satisfação com sua inteligência. -Grandão, cabeçudinho e cabeludo você já é, filhote, mas é muito mais bonito que os outros joões por ai.
- uh?
- Já te contei, filho, que Giovani em italiano é João?
Ele me olhou, tremeu os lábios e buáááá.
Quando voltei pra casa, raspei a barba de domingo e penteei os cabelos. Ele fala pouco, mas nos entendemos muito bem.