sábado, 30 de julho de 2011

Convidada Simone Pedersen

FIM DA VIDA

I
Tem dias que acordo, assim, com medo da vida. Fecho as cortinas, tiro os sapatos, me visto de silêncio e me alimento de lágrimas.
Desligo o telefone, dispenso a empregada e coloco meu gato para fora. Tento afastar o mundo com as mãos enquanto me cubro com as cobertas.
Dizem que é coisa de poeta. Outros, que é coisa de louco. Como se dor fosse privilégio de alguns. Mas o que vejo quando permito que o mundo entre em minha casa, pela tela falante, causa muito mais dor do que eu já sinto. O mundo está rachando em tsunamis e terremotos. Furacões furiosos devastam o que destruímos antes superficialmente. Vejo crianças com fome, outras trabalhando enquanto sonham que estão brincando de escravos. Escuto mentiras vestidas de promessas. Assisto a comerciais que oferecem sonhos. Vejo, assustado, dragões se alimentando da esperança de inocentes.
Percebo que sou uma sombra projetada na parede, distorcida e fraca. Fecho os olhos e busco desesperadamente, no cinema de minhas memórias, lembranças que sirvam de elixir da vida. Penso no meu jardim, com sua jabuticabeira que enfeita os cabelos com brancas flores, como noiva ao caminho do altar, fecunda e acreditando em seus frutos. Sinto o pelo macio de um cachorro feliz, que abana o rabo somente porque eu cheguei. Escuto a gargalhada de um bebê encantado com uma bexiga que lhe escapa das mãos e vai cambaleando como um bêbado pelo teto da sala. Lembro-me dos aniversários festejados com beijos e abraços.
Onde estarão meus filhos? Onde estarão os amigos? Onde estará a vida? Se eles soubessem que os velhos precisam de tão pouco... Uma visita de cinco minutos é o melhor analgésico. Notícias dos netos que fizeram um passeio nos levam a viagens indescritíveis. Tão pouco para nós. Sei que muito para eles. O mundo dos jovens é outro. Cheio de aventuras. Conquistadores, desbravam o mundo.  Mas ainda não são altruístas o suficiente para dividir com os idosos. Com o tempo, perceberão que tudo passa. Não há tristeza eterna. Nem felicidade.
Olho no calendário e controlo as datas marcadas em vermelho. Nos aniversários eu posso ligar, que os encontro em suas casas. E aguardo ansiosamente o dia dos pais, do meu aniversário e do natal. É tudo que resta do ano para mim. Três dias em que eles aparecem. Três dias em que eu abro minhas cortinas, me visto de terno e gravata, e sento-me na varanda para aguardá-los.

IITalvez sejam agraciados os que lá chegam. Há poucas semanas, perdemos um amigo de cinquenta e quatro anos que teve um ataque cardíaco após jogar futebol por meia hora. Deixou esposa e duas filhas adultas, além de uma netinha. Semana passada, perdemos uma amiga de apenas trinta e cinco anos. Ela deixou o marido e o filho de quatro anos cuidando da bebezinha recém-nascida de quinze dias. Teve um AVC seis dias após o parto, foi internado em coma e não mais acordou. Morreu feliz por ter tido a menina e completado a família que não pode acompanhar. As fotos da gravidez, ultrassom, escolha do nome, cada momento foi compartilhado com amigos pelo Facebook, inclusive a notícia de sua morte. Quando a morte chega tão perto de nós, refletimos sobre a vida. Cada dia é um mistério. O simples fato de viver é um mistério. Seria prudente se celebrássemos a vida e dedicássemos mais tempo às pessoas que amamos e menos tempo ao mundo das coisas.
Todos que se foram até hoje, foram de mãos vazias. Só nos resta preencher o coração. Agende, se preciso for, uma visita aos familiares e amigos. São os únicos que nos amam independente do que temos ou somos. E, quando partem, não temos como voltar nem um dia para dizer o quanto os amamos, fazer uma visita ou um carinho.

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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Fotos do Brasil

Pessoal, resolvi variar um pouco e resolvi publicar algumas fotos de lugares por onde passei.


BONDE EM SANTOS (SP)


MUSEU DOS DINOSSAUROS (PEIRÓPOLIS, DISTRITO DE UBERABA-MG)



FÓSSIL NO MUSEU DOS DINOSSAUROS



ESTÁTUA EM PEIRÓPOLIS



MARIANA (MG)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A cadeira


Ali sentado. O cansaço bate. E nada acontece.
E o cansaço bate mais forte. Bate no corpo, bate no rosto. Não há distração que faça o relógio correr. Ou ao menos andar. No momento, ele parece parado. Parado naquele momento. Todo o resto correndo. E ele parado.
Esperando.
Esparramou-se na cadeira. Como um sorvete que se der­rete na casquinha. Tomou a forma da cadeira. Inerte. Angústia, cansaço. Uma dor que não sabe ao certo se é no pescoço, na nuca, nas costas ou nos três.
Esperando.
Pegou mais um café. Já é o terceiro (é grátis mesmo). Sen­tou novamente, corrigiu a postura. Queimou a ponta da língua. Arqueou novamente a coluna, tomando a forma da cadeira. Su­biu o olhar para o relógio. Aproximou o copo da boca e asso­prou. Seguiu assoprando. O café esfriando.
Esperando.
Pensou que podia ter aproveitado melhor esse tempo. Umas horinhas poderiam fazer alguma diferença. Talvez pu­desse ter adiantado aquele trabalho. Podia ter conversado com alguém interessante. Chegou à conclusão de que nada o impe­dia de conversar com alguém ali mesmo. Era o que pensava. Na prática percebeu que muita coisa o impedia de ter uma boa con­versa. A pressa, o medo, a tendência a não falar nada interessan­te, a falta de intimidade, o distanciamento mínimo comum, o pensamento múltiplo comum, as idéias vagas, as vagas idéias, as idéias procurando vagas, sem espaço para estacionar em meio aos transtornos que ocupam as mentes. Desistiu após duas con­versas sobre o clima, quatro sobre futebol, uma sobre violência e outras três sobre religião. Caminhou desoladamente, de volta para sua cadeira. Não que fosse sua, mas aquela onde ele estava antes, na qual devia ter sentado muita gente diferente. Tentou fazer um cálculo de quantas pessoas deviam passar ali por dia, dividir pelo número de cadeiras e talvez chegar a um número médio de pessoas por dia naquela cadeira. Podia fazer um livro só sobre aquela cadeira e os tantos personagens incomuns que passam por ali. Mas desistiu da idéia. Esparramou-se novamen­te na cadeira. E ficou ali.
Esperando.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Convidado Edson Rossatto

Dia desses, minha mãe veio me perguntar se eu sabia de alguma empresa que estava contratando, pois o filho da vizinha dela estava desempregado, e entre os argumentos de que ele era uma pessoa que merecia a tal chance ela mencionou “honesto” e “sempre chega no horário”. Realmente ser pontual é uma grande vantagem em relação a maioria dos profissionais por aí, porque hoje, se você marca uma reunião às nove da manhã no escritório, ela não começa às nove. Ela começa umas nove e quinze, nove e vinte… Então, quando dizem “te espero às nove” isso pode ser traduzido como “te espero lá pelas nove” ou seu equivalente “a gente se encontra nove horas mais ou menos”. Honestidade também é algo que as pessoas se orgulham em ter. Outro dia, fui tomar um café e paguei com uma nota. O caixa me deu o troco. Eu ia saindo, quando ele me chamou. Ele havia me dado troco para vinte, quando deveria ser para cinquenta. Ele me entregou a quantia certa, abriu um sorriso, como se quisesse dizer “viu como sou honesto?”. Acho que ele esperava ser agradecido por isso, então dei o que ele queria: “Obrigado por ser honesto!”. Isso me fez pensar em quanto nossos valores sociais mudaram. Quando na História “honestidade” e “pontualidade” se tornaram qualidades? O mesmo vale para “justiça. Deveriam ser obrigação de qualquer cidadão. E destaco “justiça”, pois se as pessoas fossem justas não tirariam vantagem das outras e assim extinguiríamos o “jeitinho brasileiro” tão vergonhoso, uma vez que não é justo cortar uma fila, pois as pessoas que estavam na frente chegaram antes. E em algumas situações, essa mentalidade de valorizar aspectos que deveriam ser obrigação de todos nos cega. Quantas vezes, no ônibus, metrô ou trem você se deparou com um vendedor ambulante com o seguinte discurso: - Eu poderia estar roubando ou matando, mas estou trabalhando. Vendo essa caneta por um real. Aí você se sensibiliza e compra a tal caneta, pensando “poxa, o rapaz está trabalhando”. Mas, na verdade, ele está querendo dizer: - Se eu não tirar dinheiro suficiente desse trabalho, vou virar ladrão ou assassino. A responsabilidade é sua. Os valores sociais e a cidadania não podem mudar com o tempo. Pelo menos não negativamente como tem acontecido. Uma forma de preservá-los é manter os olhos e a mente aberta e enxergar as situações como elas realmente são. Fiz o que minha mãe pediu e encaminhei o currículo do rapaz para algumas empresas que eu conhecia, mas não antes de dar uma bela olhada. Entre os motivos que ele julgava que o tornavam apto a exercer uma função naquela empresa, ao lado das palavras “honesto” e “pontual” estavam “ético” e “educado”.

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Edson Rossatto

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Bar do Escritor na FLIP 2011




O escritor Wilson R, da Academia Joeense de Letras, preparou o jornal abaixo, com as principais atividades do BdE em Paraty. Clique para ver em tamanho grande.

Abaixo, clipping da Folha de São Paulo, com a foto do Cristiano Deveras como "ativista cultural de grupo alternativo".

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Revisando conceitos

Esse desmanche de fetiches sob meus pés ferem-me as retinas
e hoje eu não estou para limonadas.

Pouco me importa esse seu olhar enviesado
a atravessar meu semblante interditado;
tudo não passa de um espetáculo improvisado
onde citronelas se defumam lentamente
espantando mosquitos, besouros sensíveis e transeuntes anônimos.

Repare nas minhas mãos esburacadas:
elas estão vazando e não consigo mais
segurar suas mentiras nem meus delírios.
Perceba, minha fome está voltando
e meu desejo de devorar feitiços se manifesta
em cada serpentina
lançada de antigos carnavais.

Hoje eu posso digerir o fogo dos dragões sem queimar minha armadura.

Estou jogando as cartas para o ar a espera da mágica;
não se iluda, que a inocência já se foi há muito.
Agora eu vou morder a mesma víbora que me picou e sorver o seu veneno.
E o deleite é nosso, meu amor.

Então vamos, que o inferno ainda não chegou e temos muito o que morrer.


(Celso Mendes)

domingo, 10 de julho de 2011

Convidado Alexandre Brito

ouvi do Leminski num dia de vai e vem
quem gosta de poesia é poeta também





ouvi do Quintana
num dia que ía e vinha
poeta é quem se adivinha
ouvi do Mario no meio da mata
Pirata é leão com espinho na pata


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Alexandre Brito é poeta.

sábado, 9 de julho de 2011

MARIA

MARIA
Romeu e Julieta?


Estávamos sentados
Eu
Lia
José
O lugar
Bar Hipódromo
Baixo Gávea
Conversávamos bobagens
Bebíamos muito
Cheirávamos cocaína
Na mesa em frente
Sentado o tal do Fábio
Namorado da Maria
Não falo com Maria desde o fim de nossa história
Contei ao Fabio as barbaridades que fiz com Maria durante o romance dos dois
Deve ter três meses que não falo com Maria
Cheguei a vê-la uma vez
Ignorei
A vi tremendo de raiva
Querendo matar-me
Voltemos ao Hipódromo
Percebi Fábio observando-me algumas vezes
O fato dele não levantar e vir tirar satisfações comigo
Deixou-me tranquilo em relação a minha infantilidade
Ele ficou com ela depois de eu ter dito tais sevícias
Certamente, ela o convenceu que era mentira.
Homens acreditam em qualquer coisa, quando estão embucetados.
Sabemos só a verdade existencial da mulher dos outros
As nossas mentem sua essência
Não contei a ninguém o observar-me dele
Foda-se
Uma morena deliciosa entrou no bar
Cabelo negro liso
Costas nuas
Um rabo muito tesudo
Deliciosamente, caminhando em direção ao toalete.
Passou por mim
Olhou-me os olhos
Sorriu
Piscou
Nunca foi tão fácil
Mentira
Mulheres são fáceis
Levando-se em conta a maioria numérica das fêmeas no mundo
Fica óbvio o desespero delas por homens
Os homens estão virando viados
Elas descontroladas
Levantei da mesa
Fui atrás do rabo tesudo
Sempre vou atrás de rabos tesudos
Uma coisa mais gostosa na mulher que a própria mulher
É o rabo
Já namorei vários rabos
Levei os rabos pra jantar
Levei os rabos à praia
Levei os rabos ao cinema
Sempre gostei de levar minha vida de mãos dadas aos rabos deliciosos das fêmeas
Na porta do banheiro
Eu espero a saída da morena rabuda
Ao sair
Vendo-me esperando
Foi suficiente
Beijamos loucamente
Entre um beijo e outro
Sugeri a minha casa
Ela aceitou
Chegando lá, trepamos.
Seis vezes
Todas sem camisinha
É ilógico
Deve ser
Assim tem sido minha ativa vida sexual
Mulheres não estão nem aí para preservativos
Querem sentir a porra jorrando dentro
Mulheres são reservatórios de porra
Não sou eu que digo
Quem afirma isso em autobiografia publicada
É a francesa e crítica de artes
Catherine Millet
Bagatela à parte
Acordarmos pela manhã
Eu e a deliciosa morena
O rabo e eu
Trepamos
De novo
Duas vezes
Ela tomou banho
Foi embora sem eu saber nada
Nem mesmo precisei levá-la à porta
Adoro mulheres independentes
...
Dois dias passaram
Eu em casa sozinho à noite
Toca o telefone
Atendo

EU - Alô

ELA - Alô

EU - Quem tá falando?

ELA - Sou eu Maria, posso falar com você?

EU - Tá maluca, tá me ligando depois de tudo que falei pro corno do seu namorado.

ELA - Tudo bem com você?

EU - Você é barata mesmo

ELA - O Fábio falou que viu você no Baixo Gávea

EU - Pois é eu o vi e daí

ELA - Por que você não falou comigo outro dia?

EU - Depois do que eu fiz?

ELA - E daí, tô morrendo de saudades de você, te adoro.

EU - Porra, eu te vi tremendo naquele dia, achei que você queria me matar.

ELA - Eu te amo

EU - E o Fábio?

ELA - Esquece o Fábio, ninguém é homem como você.

EU - O que você quer?

ELA - Quero você, me fode hoje.

EU - Claro que não, já tivemos cinco anos de doença sentimental juntos, não quero.

ELA - Eu faço o que você quiser, pode-me sodomizar.

EU - Não quero

ELA - Por favor, eu pago o motel, preciso da sua pica.

EU – Nem vem

ELA - Me come amanhã, amanhã é meu aniversário, eu dou perdido no Fábio, olha a moral que tô te dando.

EU - Tá bom, só vou te comer e você paga o motel.

ELA - Obrigada, não vai se arrepender, te amo.

Dia seguinte
Encontramos um ao outro
Abraçamos
Dei os parabéns
Fomos ao motel
Transamos como condenados
Três longas vezes
Depois conversamos
Nossas vidas sem o outro
Maria disse amar-me
Eu diria
Amarrar-me
And...
... End...
Pediu pra voltar
Esvaindo em lágrimas falou ter que confessar coisa horrível

ELA - O Fábio falou que você tava com uma morena no Baixo Gávea

EU - Quem?

ELA - Uma morena

EU - Sou solteiro, você tem namorado, tá me cobrando o quê.

ELA - Eu mandei a morena pra você

EU - Você é maluca, sabia que era roubada te encontrar. Sempre da merda.

ELA - Eu estava com raiva de você, você me ignorou.

EU - Eu já disse, achei que você queria me matar.

ELA - Eu te amo

EU - Ama porra nenhuma, por que mandou uma mulher ficar comigo, você é louca...

ELA - Ela tem aids

EU - Você é doente...

ELA - Eu estava com muita raiva de você

EU - Não acredito

ELA - Por isso te liguei, por isso estou aqui, por isso transei com você sem camisinha, agora eu também tenho aids, estamos ligados pra sempre, quero sofrer com você, eu te amo.


FIM

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

sexta-feira, 8 de julho de 2011

sinas e tentáculos


Finalmente desentendi
Não me pergunte quando
Deslembro, apago e afago
O dia, a semana, o mês

Você estava lá e basta

Desmonto todos os fatos
Desencaminho sinas e tentáculos

Teu sorriso assassina regras e atos

Ando farta de fatos
Dessas dúvidas órfãs

Numa tarde vazia
Recito orações tecidas em desvario

quinta-feira, 7 de julho de 2011

a música



a música, ela é mais forte que você
ela se impõe ela se instaura e te leva

renega tua face cotidiana

e te sacode na esquina, no ponto de ônibus
ou em frente à loja de conveniências

move o ar à sua volta e negocia vácuos na retidão

não importa quem você
seja
ou
seja

a música

a música é um deus secreto e sacana

a música dói, machuca e fede
a música ri, masturba e gargalha.
a música ilude, ilumina e inaugura.
a música ruge, range e reza
a música lounge
a música love
a música leve
a música naife

a música

a sua música.

aquela música

“lembra?”

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Idiossincrasias


Tinham gostos semelhantes, opiniões semelhantes, temperamentos semelhantes, ideologias semelhantes, genitálias semelhantes. Duas mulheres lindas, exuberantes, inteligentes, bem-sucedidas, perfeitas! Amavam-se com um amor de fêmea: intenso, sutil, oral. Certa noite, surgiu um falo. Não um falo qualquer, mas um falo grande, volumoso, de avantajado diâmetro e envergadura. Duro, vibrante, pujante. Meteu-se no meio das amantes, separando-as. Foi o racha, a divisão das rachas. Tempos depois, surgiu outro falo, tão grande, volumoso, de avantajado diâmetro e envergadura, duro, vibrante e pujante quanto o primeiro. Meteu-se no orifício que fica atrás do saco. Após o encontro dos falos, as rachas uniram-se novamente, as fêmeas reconciliaram-se. Os quatro concupiscentes promoveram bacanais, muitos. Falo e falo. Vulva e vulva. Vulva e falo. Falo e ânus. Falo e vulva e falo e ânus. Gozaram e viveram felizes para sempre.

Carlos Cruz - 06/11/2007


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Confissão

Se hoje trago um rasgo,
no riso,
explico:
é porque já beberiquei
da felicidade alheia
de vossas seivas
de suas sereias,
herdei a devassidão.

domingo, 3 de julho de 2011

Antologia III do BdE - escritores sem orkut

amigos de letras,
por conta da nossa centralização no orkut, vários escritores interessados em participar da nossa antologia não puderam acessar as informações de participação. por conta disso, abrimos novamente a inscrição, deixando aqui as regras e as datas.

Bar do Escritor
a terceira dose

o grande diferencial desta antologia é a quantidade de livros recebidos pelo participante (da cota inteira), CEM EXEMPLARES, além da expressiva distribuição nacional, pois a edição tem em média 3000 livros. os textos da antologia são contos, crônicas e poesias, dispostos livremente no livro, logo após a apresentação do autor.
o sucesso das edições anteriores (Anarquia Brasileira de Letras e Brand) incentiva a produção literária nacional e aumenta o intercâmbio entre os autores, sem contar a expressiva mídia espôntânea em tvs e jornais (veja no blog).
as cotas podem ser divididas segundo a classificação abaixo:

- cota inteira - 530 reais - 10 páginas - 100 exemplares.
- meia cota - 290 reais - 5 páginas - 40 exemplares;
- 1/4 cota - 160 reais - 2 páginas - 20 exemplares.

Para participar, envie um e-mail para bardoescritor@gmail.com , indicando o tamanho da cota que deseja e como fará o pagamento (em ATÉ 03 VEZES). Na resposta, receberá os valores, as datas e também OS CENTAVOS que deverão ser acrescidos ao valor para ser reconhecido na conta bancária.
Ex: cota inteira – 02 vezes = R$ 250,55 em 20/07 + R$ 250,55 em 20/08.
Obs.: sem os centavos, o reconhecimento é muito mais difícil. Não o esqueça.

o pagamento será efetuado em conta bancária do Banco do Brasil (depósito ou transferência):
agência 1419-2
conta 6389-4
nome: giovani g iemini de rezende

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após cumprir as etapas acima, envie os TEXTOS, a FOTO e a BIOGRAFIA para:
e---------e@gmail.com (o e-mail será encaminhado após conferência)

sob as instruções abaixo.

textos

cada página de texto tem até 480 palavras e 2650 caracteres!

dessa forma, a página fica recheada de texto, mas não caberia uma poesia em que cada três palavras formam uma linha, por exemplo. tenham essa perspectiva em mente.


a página de apresentação, a primeira, poderá ter no máximo a metade dos valores acima, pois nela constarão a foto e a biografia ocupando espaço.

lembre-se que no papel a informação é eterna. busque sua melhor obra para publicar na antologia.
- ENVIE MAIS MATERIAL que o previsto, para facilitar a diagramação.

foto

por indicação profissional, a foto deverá impreterivelmente ser do rosto ou busto, de frente ou perfil, mas com os dois olhos na perspectiva da foto (óculos, inclusive escuros, são permitidos).

qualidade mínima de tamanho 480x640mm, colorida ou PB, mas de preferência em cor, para que o tratamento em preto e branco seja feito pelo nosso diagramador, utilizando as mesmas tonalidades de cinza para todas as fotos.

e o mais importante: o fundo na foto, atrás da imagem do escritor, deverá ser uniforme e sem detalhes, como uma parede, mas de cor diferente do branco, pois ele se confunde com a cor do papel e dá um efeito estranhíssimo. ou seja, foto com fundo liso e não branco.

- não serão permitidas fotos em que não apareçam a cara do escritor. se não quer mostrar a fuça, não pode participar.

atenção - o nome da foto deverá ser o nome e sobrenome do escritor.


biografia

nela deverá constar o NOME do autor, na forma que será divulgado na capa da antologia e no índice, depois a origem (cidade ou estado de nascimento ou de onde se criou ou vive) e então as informações da carreira literária.
lembre-se que a soberba na auto descrição é desinteressante, mas não esqueça de citar as conquistas e os prazeres.

para divulgar algum site ou blog, escreva o link a partir do WWW. esqueça o https.
só poderá ser divulgado UM link, o principal. não relacione os 27 blogs em que participa.
os links do site do bde, do blog e das comunidades relacionadas já serão divulgados em outra parte da antologia.

- ex:
giovani iemini, de brasília, não entende joça nenhuma de literatura mas fica nesse nhenhenhém. acha que é dono do bar do escritor. nunca ganhou concursos literários mas publicou uns livrinhos.
www.giovaniiemini.blogspot.com


ah, lembre-se: quanto maior a biografia, menor o texto da página de apresentação do autor.
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dúvidas podem ser resolvidas pelo email bardoescritor@gmail.com
no orkut (hehehe) a comunidade da 3a antologia tem melhores detalhes e esclarecimentos.




sábado, 2 de julho de 2011

Semi deus

Escreve uma história de heroísmo no meu dorso:
começando pelos ombros
e descendo,
vai desafiando meus demônios

e vencendo todos,

até a curva das minhas costas
- estrada tão macia
para o que há tempos fantasias
receber em troca de toda essa luta -

e pontua tatuando a tua boca
no teu prêmio
e dele, desfruta.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

citações bíblicas

"Citações bíblicas usadas como verdade universal me matam de rir! São pensamentos arcáicos, parvos e apedeutas, mas dizem às pessoas vazias o que fazer. Sempre que os escuto, sei que tem alguém perdido por perto"
Giovani Iemini, facebook, 2011
---
o textículo acima é uma citação. isso o torna real e absoluto? hehehe

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Convidado Rubén Vedovaldi (Ar)

PÁJARO DEL VINO
 
en medio del patio
soplaba la flauta
los parches latían
al ardor del canto

y amor era algo
que soltaba dulce
silencio de pájaro

la arena se amaba
con manos de niños
que alzaban cohetes
puentes y castillos

y vos derramaste
tu efímero sueño
de vino encendido
en medio del patio
la luna apoyaba

sus pies delicados
en alada danza
y yo deshojaba
las alas del sueño
por mis ojos de agua.


---
Rubén Vedovaldi

* Grabado en el Disco Compacto: CUANDO LA PALABRA CANTA, con el músico Carlos Medrano, en ARGENTINA, otoño de 1999.

domingo, 26 de junho de 2011

Tempo

passo
pelo presente
como quem sente
o passado
passando

apresso
a ânsia
da vivência

atraso
a incerteza
do porvir

deixo
no eixo
da memória
a lágrima
do que se foi
cair

quarta-feira, 22 de junho de 2011


Passou o dedo pela cabeceira e mostrou para a garotinha deitada na cama ao lado:
- Olha essa sujeira, minha filha, isso aqui está uma vergonha!
- Mas não fui eu que sujei.
- Foi você sim; Está aqui no seu quarto.
- Mas...
- Nada de “mas”! Ainda hoje você pega um paninho e limpa. Quando eu voltar, quero ver isso aqui brilhando.
A garotinha, ainda deitada na cama, refletiu sobre o pó em cima da cabeceira e sua relação de culpa em relação ao pó.
Quando a mãe voltou, a cabeceira ainda estava toda empoei­rada. Ao notar a sujeira - ainda a pairar por ali, ela logo cobrou da filha:
- Por que é que a cabeceira continua cheia de pó?
Com um ar de saber só de experiências feito, a garotinha respondeu, até com certo desprezo:
- Não adianta limpar. Vai sujar de novo. É pó de gente.



segunda-feira, 20 de junho de 2011

Convidado Robson Batt

Desinência

Desperto com sono
Desligo o alarme
Desnudo o pijama
Despido no banho
Desenho você no vapor do espelho
Desjejum com café
Descafeinado
Desloco o pé
Despencando da escada
Desfilo trôpego
Desanimado
Desvio do tráfego
Desfoco a dor
Desejo um táxi ou uma carona
Desabo no chão
Descubro um café
Desses meio parisienses
Descanso sentado
Descabelado e choroso
Decido ligar e te ouvir
Desmentir novamente
- Desposar...
- Deslize...
- Desleal!
- Desonesta!
Desligo de súbito
Desaforado
Desnorteado
Desolado
Desonrado
- Destilado duplo!
Despejo tudo de uma vez
Desopilo o fígado
Desafogo com a moça ao lado
Desabafo tudo
Desocupo a cabeça
Desobrigo do trabalho
Desabrocho meus olhares para ela
Deslumbrante
Descasada
Desimpedida
Descubro afinidades
Desconcerto, desconcertado
Desembaraçado a convido
Desavergonhada ela aceita
Desinibidos saímos
Desabotoamos
Desgrenhamos
Desfrutamos
Desmaiamos
Desfecho:
- Desforra!

---
Robson Batt é cineasta e empresário.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Círculos

Deitava o vento com a boca amordaçada. O seu silêncio era imposição dos girassóis que refletiam-lhe os braços, as mãos e seus dedos amarelecidos. Mascava o sol dia pós dia, desconfiado, e se sentia cada vez mais enraizado. Gostava do azul das manhãs e do laranja das auroras. O marinho da noite o embriagava. Mantinha, secretamente, olhos de nadar estrelas. A lua costumava tocar suavemente suas costas até que adormecesse. Após isso era a o medo da treva, era atrás dos astros, era depois dos sonhos. Se houvera luz, não se lembraria. Mas o tempo sempre lhe foi muito orbital. Não entendia por que as coisas tinham essa mania de orbitar. Retas, pois sim, retas eram apenas uma eterna ilusão de caminhos; nunca levaram a um novo ponto. E foi assim que, mais uma vez, o sol se desprendeu do seu bocejo, preguiçosamente. Ainda não era a hora da escuridão.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Jogo Enfadonho

Trocamos vários sorrisos e olhares
flertando à distância pela parede de vidro
que nos une e separa,
então rabiscamos em nossas cabeças
um enigma sobre quem realmente
somos e o que viveremos.

Movemos peças num xadrez
interpretando personagens
como numa peça teatral,
trajando máscaras e capas
num baile onde os outros
são apenas bonecos.

Entrei em seu jogo enfadonho
então você embaralha as cartas,
eu as corto, aposto minhas fichas
e até blefo para quebrar sua banca.

Não temo o que a vida nos reserva
mas resta saber se você tem coragem
de se despir dessa armadura
para me encarar.

- Mensageiro Obscuro.
Maio/2011. 

Foto: "The Wish" de Theodor Von Holst, 1841.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Convidada Raissa Diniz

Sol cheio

Começava a noite
Quando amiudava o dia
Bem depois de clareada a tarde
O céu azul não estava
Mas eu lhe respirava em poesia

Raios penetrantes
Solares, anuviantes
Sabia descrever o que visível o horizonte permitia
Conceber em prosa, quiçá uma melodia
Daquelas que não se pensa nunca que sabia

De relance olhei a janela
Por ela, transpassando o vidro dela
Podia ver telhas, arbustros, flores, folhas
Mais janelas
Não às casas
As janelas eu via

Vênus como raras vezes a vi
Estava sim nitidamente bela
E aquele satélite deveras funcinante
Cadê?
Quero ver sim a Marte

Circundado, circundante
Melhor que bola presa no volante

Estufa, borbulha
Gás inoxidante

Caneta, pernas, alou, papel
Verde, laranja
Jerimum, xilito a granel
Queria em Tupi-guarani
Escrever pr'alguéns entender
O qunato eu amo alguém
sem realmente lhe tocar, lhe ver

A busca e a incerteza
Decisões contrárias entre si
Coberto, nuvens de véus
Sinônimas, não uma da outra
Noreante
Incompleto?
CineCryDin a todo instante

SEMPRE



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quinta-feira, 9 de junho de 2011

O escafandro e a borboleta


era bem tarde quando bateu na escotilha
o mar era profundo e vasto

eu vestia meu traje e fugia
hermeticamente refugiado
nas lembranças suaves

pessoas ,sentimentos,coisas,olhares
distantes e extintos
perdido nesse mar

meus olhos de escafandrista vagueiam
enquanto as asas dela se debatem
trazendo sopros ávaros

desejo de tornar a ver ou possuir
o passado que não volta

borboleteava na janela
hermética
mas não existe mais

MINHOCAS GERERENCES


MINHOCAS GERERENCES

Imagine
BR – 116
Rodovia Presidente Dutra
A Via Dutra
Plantão de vinte e quatro horas
Três guaritas com sete pessoas cada
As guaritas são como os pedágios
Cabines de Fiscalização
Substituição Tributária
ICMS
Verificar Nota Fiscal de carga de caminhão
Conferir o destinatário
Ver se paga o devido imposto
Simplificando
CARIMBAR NOTA!

Das sete pessoas de cada cabine, quatro mulheres.
Três cabines
Doze mulheres por plantão
A cidade
Itatiaia
Em frente ao Parque Nacional
Às Agulhas Negras

Nesse misto de analfabetos existenciais em caminhões de fumaça enfileirados esperando a vez de passar com seus barulhentos infernais pelas cabines de Fiscalização, a vista do Parque Nacional é a salvação.
Visconde de Mauá
warum nicht
Depois de trabalhar no estilo Modern Times, de Charlie Chaplin, vinte quatro horas seguidas carimbando notas e respirando monóxido de carbono...

Vem...

O Paraíso!
Setenta e duas horas pra curtir o bem querer
Sim
Entre um plantão e outro
Tínhamos merecido três dias de descanso
Muitas vezes fui gozá-los em Visconde de Mauá

Dia
Maconha
Poção
Escorrega
Santa Clara

Noite
Maromba
Cerveja
Sinuca
Buceta

Eu e Marcelo éramos os únicos de fora da região
Dos vinte um plantonistas nas guaritas
Éramos os dois cariocas
Todo grau pejorativo
Cariocas Clássicos!

Rapidamente conheci Gererê
Gererê é uma cidade que margeia a Via Dutra
Cidade da região
Pra mim, Gererê é região!
Bem como
Resende
Volta Redonda
Penedo
Itatiaia
É óbvio!
Pra Sra. Geografia, solenemente, Gererê é corretamente e tão somente uma cidade da região.
Respeito a Sra. Geografia!
Enfim

Gererê! Uma praça! Duas ruas!

Em Gererê conheci Alessandra
Nesta vez, estávamos eu, Marcelo, Oiran e Henrique.
Bebíamos, jogando sinuca na birosca de uma das duas únicas ruas da cidade.
Marcelo e Oiran já eram habitués com Gererê e suas minhocas dadeiras
Falavam-me farras vívidas com promíscuas minhocas Gererences
Chegaram Carol e Lúcia
Minhocas peguetes de Marcelo e Oiran
Henrique e eu dávamos nossas tacadas
Eu acreditando em ter ido pra Mauá
Nossa Amesterdan das montanhas
Ideia muito melhor
Sobre Gererê pensava oposto
Cidade o mais provinciana possível
Moralismo exacerbado
Castu
Beatas e crentes
Mulheres com cabelos esticados para trás
Vestidas de longos rendados
Bíblias de ternos beges

Fui fumar um baseado na praça

Ao voltar à birosca, deparei com uma morena de vestido marrom.
Deliciosa!
Bunda de marquinha ínfima, desenhada no pano do vestido.
Um generoso par de seios servido à meia-taça
Passei a frente dela e disse: - Você não vai a lugar nenhum!
Minha sorte
Carol e Lúcia vieram na cobertura
Carol convidou sua conhecida morena a se apresentar
Alessandra!
Nome de linda morena
Pensei
O nome da bunda
Alessandra vinha do colégio, disse não poder ficar por causa do horário, chegando a casa depois das dez da noite, apanhava do pai.
Era melhor ter ido pra Mauá!
Alessandra olhando-me os olhos com cara de crente lasciva e voz tremulamente nervosa, diz de supetão: - Vou esperar todos dormirem lá em casa, pulo a janela, e venho te encontrar.
Pensei
Trêmula, mente!
Essa não volta mais
Entre beijos e sagradas sarradas em Carol, Marcelo dava suas tacadas.
Lúcia com Oiran não eram diferentes
Henrique, o mais bêbado.

Mesmo eu, sabendo não ser provável a volta de bela morena, não tirava meu olhar do relógio.
Vai saber...

Era uma e trinta da madrugada, em Gererê, quando Alessandra surgiu na porta da birosca com o mesmo vestido marrom. Muito gostosa!
Não quis entrar, com certeza conhecia o dono da birosca, o Seu Manel.
A essa altura, eu já conhecia o Seu Manel.
Ele, o meu dinheiro.
Alessandra falou-me: - Vamos embora daqui, eu tenho de voltar logo pra casa.
Pedi o carro pro Henrique, atônito jogou as chaves pra mim.
Entramos no carro e partimos

Seguimos por uma estrada de terra, na qual ela me direcionava por entre os bem abastados pastos burgueses.
Bendita Sra. Geografia!
Parei o carro no meio do nada
Saímos
Nada mais
Iluminados pela lua cheia
Beijamos
Ela foi botando meu pau pra fora
Chupou ávida por minha porra
Rapidamente gozei em sua boca sedenta
Ela engoliu e levantou
Meu pau não abaixou
Passei a mão em seu rabo
Ela perguntou-me: - E no cu não vai?
A virei contra o carro
Levantei a parte de baixo do vestido
Cheguei a calcinha pro lado
Meti em seu cu
Ela gritava
Rebolava
Obscena
Com poucas estocadas enchi-lhe o cu de porra
Ela se ajeitou dizendo: - Me leve daqui.
No carro, ela apontava o caminho a seguir.
Perto do nada mandou parar
Parei!
Ela me deu um beijo na boca e me disse: - Daqui eu vou andando, não quero que meu pai acorde.
Saiu do carro e andando em direção a lugar nenhum, sumiu.

Voltei pra birosca feliz da vida por ter comido tão maravilhoso cu
Chegando lá, Marcelo, Carol, Oiran, Lúcia e Henrique me esperavam sentados na calçada.
Birosca fechada
Dormimos na casa do tio da Carol, ele estava viajando e ela nos alojou lá.
Lúcia e Carol foram andando pra casa depois de misturarem suas libidos com as de Oiran e Marcelo, no mesmo quarto.
Será que fizeram um troca-troca?
Não importa
Henrique quis saber da minha aventura: - Caralho, a mulher que você pegou era sensacional!
Marcelo e Oiran berravam do quarto
Oiran: - Vai se foder seu sortudo filho de uma puta!
Marcelo: - A mulher mais gostosa da região com certeza!
Conta aí, eles pediam.
Falei: - Comi o cu, só digo isso, gozei no cuzinho dela. Delícia de rabo.
Um a um eles me invejaram
Fomos dormir, eu com ar de Deus, eles imaginando minha Deusa anal.

Dia seguinte
Dia de Plantão Fiscal
Acordei com os três me olhando
Marcelo dizia: - Cara, deu merda, o pai dela descobriu e enfiou a porrada nela.
Virei pro lado tentando voltar a dormir
Henrique falou: - Cara, é serio, fui comprar pão e a encontrei toda roxa, ela tava chorando.
Sentei na cama rindo: - Vocês acham que vou acreditar nessa historia tola, fala sério, vocês a ouviram falando ontem sobre a fuga e ficam querendo me assustar. Inveja é uma merda! Vou tomar banho pra irmos trabalhar.
Tocou a campainha
Oiran foi abrir a porta
Entra a Carol, olhando pra mim e bufando: - O pai da Alessandra bateu nela, ele tá vindo pra cá com uma peixeira, tá dizendo que vai matar o loirinho que deflorou a filha dele.
Depois de ouvir essas palavras da boca de Carol, acreditei!
Toca a campainha
De novo
Incessantemente
Oiran vai ver quem é
Volta cuspindo palavras: - É ele, só pode ser ele, um negro com uma peixeira na porta. É claro que é o pai da Alessandra.
Acreditando piamente no circo armado, peço ajuda: - E agora o que eu faço?
Oiran - Eu vou lá dizer que você já foi embora.
Marcelo - Cara, entra na mala do carro e vamos embora daqui.
Henrique - Eu vou encostar o carro perto da porta da cozinha e você entra na mala.
Pensei: “Na mala, não entro de jeito nenhum!”
Entrei!!!

Dentro da mala vejo, a tampa descendo em minha direção, ocultando toda luz.
Escuridão!
Escuto as vozes sem saber ao certo de quem são
Escuto as portas do carro batendo
Escuto o motor
O carro começa a andar
Fico sacudindo na mala
Pânico!
Começo a gritar
Claustrofobia!
Começo a bater na tampa da mala
Grito: - Eu encaro o cara, eu encaro. Tirem-me daqui, por favor, agora!
Nada!
O carro continua sacolejando
Começo a suar frio
O tempo passa
Muito tempo
Começo a chutar o fundo do carro, o banco de traz.
Meus amigos não param
Fico fora de mim
Apavorado!
O carro para
O motor desliga
Escuto risadas
A tampa abre
Um flash
Vejo Henrique com uma máquina fotográfica na mão
Eu, dentro da mala.
Muitas pessoas me olhando
Rindo
Pessoas do meu Plantão Fiscal
Meu trabalho!
Marcelo e Oiran riem adoidados
Entendo
Saio da mala
Puto!
Mando todos tomarem no cu
Saio andando pra bem longe
Continuo ouvindo gargalhada
É!
Pegaram-me direitinho
Caí como um patinho
Tudo bem
Tudo bem porra nenhuma!
Hoje... Tudo bem... Pode ser...
No dia, demorei a digerir.
Agora beleza
São todos meus amigos
Grandes amigos
Afinal de contas
Se você sobreviver aos seus amigos, sobreviverá a tudo.

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Avant Stéreo



depois do próximo outono


algumas cidades já estarão incendiadas


algumas calçadas haverão acolhido em seu colo de concreto
cadáveres dos filhos de alguém


vários jornais estamparão fotos de ilustres desconhecidos
flanando em belo e rebelde desfile


crianças aprenderão o que o gesto;
o grito silencioso, o urro,
de um punho erguido
significa


enquanto do outro lado da praça


o balé improvisado de se esquivar da morte
no dorso fúnebre
de uma avenida em marcha
e
ao seu redor,
os seus
ao redor do seus,
nós
em volta de nós;
juntos


cada
um
um
universo


venho pensando _ “pessoas são estrelas”


ultimamente
sempre que olho pro céu
acredito num certo tipo de
novo e estranho
Deus
que suspira ao redor e move o ar à sua volta






#

segunda-feira, 6 de junho de 2011

mamãezinha


à custa de esperneios ferozes, manhosas estridências e lágrimas à farta, em acre cascata, ganhei mamãezinha ou "calaboca, diabo!". irmã das outras bonecas das amigas-irmãs malvadas e ricas. ninava mamãezinha que ninava bebezinho, ninado por mim de tabela. se bem me recordo, fiquei feliz; sorri até. grata, beijei mamãe. rezei pra papai-do-céu, de joelhos no taco. impúbere, ignorava a malvadeza chamada alma. tonhão, o caseiro, mostrou-ma; disse se chamar murcia. mas isso foi antes da cirurgia. depois, enchi o novo saco enrugado: em mamãezinha tasquei um saco, duas bolinhas-de-gude vermelhas dentro de um saco de cebola, vermelho também. um salame pra arrematar. queria um parecido, mas o médico desaconselhou-me sob argumentos anti-estéticos. o salame secou e exalou mau cheiro. enchi o saco - agora não tão novo - de novo e joguei mamãezinha no saco do lixo. não gosto mais de bonecas. elas não sabem brincar.

Carlos Cruz - 10/05/2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

quando diz que já

não te olho como antes
percebe que algo nosso
se perdeu pra sempre
e já não posso mais
resgatar as pedras
do caminho sem volta

ergo-me farta desse
sentimento moribundo
que insiste em ruminar
e ruminar como se tivesse
eu dez estômagos
e não tenho

jaz como era
jaz como eu era
matei meus olhos
com lágrimas e poeira
que deixou quando me
ultrapassou pela estrada de chão
se não te olho como antes
é porque não te vejo mais.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Perseguição

Ando fazendo versos como um condenado
que foge pela floresta as vésperas do cadafalso.

Ando fazendo versos enlameados,
arranhados das quedas desesperadas por chegar.

E chegam esbaforidos, descompassados
pra descobrir, no fim de tudo
que serão expostos
e postos,
inúteis, numa espécie de altar.

Quem sabe assim esgote o poço
onde me alimento de mim,
e então me sobre um pouco.

Vou talvez roer as patas,
escapar da armadilha, transbordar o copo

pra que me deixem de vez em paz
as Musas e os poetas mortos.

*Catopeblas é um animal que se alimenta dele mesmo.
Borges o descreve em seu livro" Livro dos Seres Imaginários"
Lhosa compara o escritor ao Catopeblas.

(poema de 23/07/09, agora com vídeo da Casa das Rosas)



(antes porém, declamo o poema Alegoria, já postado em meu blog)