segunda-feira, 19 de agosto de 2013

BdE em QUADRINHOS

Bar do Escritor em Quadrinhos - veja em breve como ajudar.
Preparem-se!
BAR DO ESCRITOR EM QUADRINHOS.

Inspirado em NOITE NA TAVERNA de Álvares de Azevedo, com magistral roteiro de Luiz Augusto de Souza e os seguintes autores e desenhistas:

Carlos Cruz adaptado e desenhado por Leandro Leite Leocádio;
Giovani Iemini adaptado e desenhado por Igor Chiesse;
Pablo Treuffar adaptado e desenhado por Emerson Wiskow;
Wilson R. adaptado e desenhado por Roni Ferreira;
Magmah (Sara Reis) adaptado e desenhado por Ludmila Vilarinhos;
Cristiano Deveras adaptado e desenhado por Luiz Augusto de Souza;
Me Morte (Mariângela Padilha) adaptado e desenhado por Roni Ferreira;

e encerrando com o clássico ... ops. peraí, não posso contar. mas digo: MUITO MASSA!

domingo, 18 de agosto de 2013

Pisciano


sou um homem sem vontades
que sente saudade
das vontades
que nunca teve.

o que existiu em mim
foi como devaneio,
que ao sinal do primeiro passo,

fechasse os olhos
e morresse.

André Espínola

sábado, 17 de agosto de 2013

Soul






Eu sempre guardei meus desgostos
em uma caixa de mármore
com aspecto de túmulo.

Sem dizeres.

Hoje, um deles pediu licença
para assentar-se em meu sorriso.

Não hesitei em dar-lhe passagem;
algumas vezes é necessário
que o jazigo seja aberto
para que mine entre os escombros
um assombramento de coragem.



(Jessiely Soares)


Imagem, daqui.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Butinaço

Durante o abraço
aliso tua bunda
das roupas me desfaço

Durante o compasso
tateio o buraco
e eis que te traço

Entramos no espaço
e depois da fodança
depois do cansaço

Depois da lambança
tu me rouba um pedaço
me acerta uma lança
e me dá um butinaço.

De amar

Andamos desatentos pelo mundo a fora, despercebidos de como e onde podemos encontrar. 
Se observarmos ao redor, mais atentamente, podemos perceber de maneira sublime, aquele (a) que pode mudar o seu sorriso.
Os passos podem ser longos e a felicidade instantânea, ou demorada.
Reclamamos que não somos observadas da maneira que desejamos. Mas quando aparece, não sabemos reconhecer.
Um pequeno detalhe, que transforma.
Um dia, que muda.
Uma pessoa que faz-nos escolher.
No horizonte uma luz alaranjada, que eterniza um momento único.
Nem todos os dias serão de graça e luz. Pois do amor só podemos esperar grandes abismos. Mas no fim de tudo isso. Talvez possa ter valido a pena, talvez não.
Só entenderá, quem arriscar.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Nada além de cinzas...

Muller progredira rapidamente no partido. Membro da juventude hitlerista, galgou degraus até se tornar oficial da temida SS. Ele era um dos coordenadores do campo de extermínio de Auschwitz. Quando pensava em sua carreira, lembrava como aquele garoto pobre que convivera com os ricos judeus em Berlim pudera chegar tão alto. E agora era responsável por erradicar de vez o mal que assolava a Alemanha, varrer da face da Terra os tão odiados judeus. Inseridos nas camadas dominantes da sociedade germânica, banqueiros, comerciantes, médicos e outros profissionais judeus parasitavam a sociedade e sangravam o pouco a que os alemães tinham direito. Agora tinham o que mereciam. O ano, porém, era 1945. Os oficiais do campo já sabiam da iminente chegada dos russos, vindos do leste. A guerra estava perdida. O III Reich, que duraria mil anos, agonizava. As ordens eram claras: matar todos os judeus, ciganos, homossexuais e comunistas, não deixando nenhum rastro. Um trabalho conjunto das câmaras de gás e dos fornos de cremação. Nada além de cinzas... Foi na última semana que Muller colocou as últimas etapas de seu plano em prática. Um plano que vinha tomando corpo nos últimos meses. Havia cinco oficiais restantes no campo, responsáveis por matar os últimos prisioneiros. Restavam poucos, todos gravemente doentes. O trabalho nos fornos estava se tornando lento demais, então cavavam grandes trincheiras nos arredores e enterravam os mortos. Ultimamente não perdiam sequer tempo com o gás; como os judeus não tinham força para reagir, jogavam-nos direto às fossas, e os cobriam com terra. Naquela segunda, uma semana antes dos russos libertarem Auschwitz, um cadavérico Muller colocou a parte final de seu plano em prática. A dieta a partir de ração de alimentos havia dado certo. Para os colegas oficiais, o camarada havia contraído tifo ou outra doença no campo, mas mesmo assim esmerava-se em executar até o fim seu dever. Era digno da admiração de seus pares. Admiração e confiança. Por isso tinha sido tão fácil matá-los todos enquanto dormiam, na noite anterior, em seu alojamento. No campo restavam somente poucos doentes, fracos demais sequer para falarem. Foi quando raspou seu próprio cabelo, vestiu o uniforme com a estrela de David e, sem ser percebido, se alojou em um dos pavilhões junto àqueles a quem tanto odiava. A circuncisão, que tinha realizado em si mesmo há três meses, fora a parte mais dolorosa do seu ardil. Muller queria passar por um autêntico judeu. Já tinha um nome e um passaporte, Klaus Weimann, um professor que chegara a Auschwitz contando com então 30 anos, a mesma sua idade. Tinha que parecer um judeu até em sua máxima intimidade, não bastavam a desnutrição e o álibi que havia forjado. Injetou em seu pênis anestésicos e cortou seu prepúcio com um bisturi afiado. Sangue, dor. Determinação. Depois reservou antibióticos, que tomou até cicatrizar sua ferida, sua nova identidade. Aguardou com paciência, comendo a ração diária que reservara num esconderijo, a chegada dos russos e seu horror quanto ao que descobriram no campo. Foi “libertado” junto com os poucos que restavam. Nos meses que se seguiram foi cuidado por benfeitores do pós-guerra. Ganhou peso novamente, e não tardou a encantar uma linda moça de uma família judia influente. Crescera entre os judeus em Berlim, conhecia como poucos seus costumes e crenças. A posição de seus sogros o permitiu seguir a carreira de guia religioso. Muller conseguira. Ou melhor, Klaus. Apagara seu passado, comprara sua liberdade e sua absolvição e agora era o modelo de retidão moral da comunidade a que servia. Após o final de cada culto, despedia-se de cada homem, mulher ou criança com a palavra “shalom”, que significa paz em hebraico. Tudo ia bem. Até um dia em que, na sinagoga vazia, um homem transtornado entrou. Órfão da antiga ordem da Alemanha, aos gritos de “morte aos judeus”, lançou sobre o religioso uma bomba incendiária, que tomou conta de todo o local. Ao ser devorado pelo fogo, Muller podia ver e ouvir as milhares de almas dos mortos, que clamavam por ele do inferno longínquo. Em breve não seria nada além de cinzas...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Tecnorrebeldes

Olá, amigos. Fazendo minha estreia no Bar com um micropoema na onda das manifestações. Espero que gostem. Feliz de estar entre amigos. Saudações poéticas.
Edweine Loureiro

TECNORREBELDES

Sem foices...
Sem forcas...
Só o Face
e suas faces,
numa farsa
sem força.

***

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Noite Inesperada (DBS)

Estava escuro já, por volta de 5:45 da tarde. Perto do natal. Hemisfério norte. Pacata cidade dormitório de Okotoks, -12 graus. Para os cidadãos locais, tempo bom, pouca neve, pouco vento. Rose voltava para casa. Ela vinha devagar, acidentes são, de certa forma, frequente nessa época do ano. Ela sonhava sozinha, por dentro. Ouvia música e pensava em um dia encontrar seu grande amor. As pessoas buscam tantas coisas, perdem tempo com tolices e dentro delas, os sonhos vão virando apenas pensamento e nunca ação. Se arrependia de certas escolhas, tentava se enganar com tudo de material que tinha. Sabia que não poderia voltar atrás, teria que fazer novas escolhas dali pra frente.
Estranhamente, ao aguardar em um sinal, um homem acena para ela de fora do carro, pedindo para que ela baixasse o vidro. Ela estranha, mas julga o homem de forma positiva e baixa o vidro. Ele pergunta a ela se pode levá-lo até em casa e mostra o que seu carro está parado mais à frente. Ele diz que o carro quebrou e precisa de uma carona. Ela sente algo diferente por dentro, está atraída pelo homem. Rapidamente ela precisa decidir, tudo acontece muito rápido na cabeça dela, ela pensa no risco, ela pensa no fato de já estar parada de vidro aberto olhando para ele.
Ela decide levá-lo em casa e correr o risco. Ela diz sim e ele rapidamente contorna  para o outro lado e entra no carro. Os dois se olham e ela sente como se algo mais estivesse acontecendo, mas se contém um pouco e tenta disfarçar. Ela pergunta onde é a casa dele e ele dá o endereço. Ela inicia o trajeto até a casa dele.
Eles iniciam um papo normal: Onde você trabalha? Mora aqui faz tempo? E em poucos minutos chegam na casa dele. Antes de descer do carro ele olha para ela e diz: Seria demais eu te convidar para entrar, sei que só de dar essa carona para um estranho a essa hora, você já deve estar preocupada, mas gostaria de conhecê-la melhor e convidá-la para jantar em algum lugar que você goste. Ela ficou sem palavras, mas resolveu ceder e disse: Sim, gosto de correr riscos, seria ótimo. Trocaram telefones e ele desceu, entrou em casa e ela foi embora.
Menos de 10 minutos depois, logo que Rose chegou em casa, o telefone dela tocou e era o número daquele homem, que agora ela sabia se chamar Logan. Logan parecia apressado e disse sem rodeios: Hoje seria uma ótima noite para jantar com você, não quero perder tempo. Rose ficou sem palavras por uns segundos. Quis aceitar e disse que talvez fosse melhor ela saber mais sobre ele primeiro. Ele não desistiu e disse em seguida: Pra que esperar mais? Você é linda e não consigo parar de pensar em você. Anote meu nome todo, pesquise sobre mim na internet e me ligue. O nome completo era Logan Bennett. Rose ficou sem ar. Aquilo tudo era muito louco, muito rápido e muito cheio de perigos. O mundo não aceita mais esse tipo de encontro, estamos cercados de incertezas, pessoas com más intenções. Ela demorou um pouco e ele perguntou de novo: E então, você tem acesso a internet, certo?
Ela disse: Sim, tenho. Vou verificar e te ligo. Ele agradeceu e desligou. Ela sorriu. Lembrou do que ele disse: “Você é linda e não consigo parar de pensar em você.” Não era fácil aceitar que algo assim tão bom pudesse ser verdade e estar acontecendo. Era preciso conferir, aguardar, não vivemos mais assim. O receio, o medo, os riscos tinham que ser analisados primeiro. Rose queria que fosse mais simples. Ela temeu se arrepender e foi para o computador. Em 10 minutos, lá estava Logan Bennett na sua tela, pelo Facebook, pelo Twitter, e ainda mais incrível, na página da empresa dele. Uma start-up recém-comprada por uma empresa gigante dos Estados Unidos, na área de segurança em telecomunicações. Ela resistia em acreditar que era um golpe. Passou mais tempo vendo as informações dele na tela e encontrou algo que a deixou arrepiada. Em um de seus posts recentes, lá estava escrito: “Ah, se eu pudesse encontrar uma rosa, pelo menos uma rosa, nesse imenso jardim do mundo…”. Era tudo muito louco, Rose colocou as mãos no rosto, esfregou os olhos e continuou olhando tudo que tinha sobre ele. Nenhuma referência a ex-namoradas, filhos, quase nada de família, apenas uma irmã que parecia morar em outra cidade.
Rose suspirou, pegou o telefone e marcou o encontro. Seria em um restaurante conhecido e movimentado, ela achava que estaria mais segura. Logan ficou visivelmente animado e disse antes de desligar: Cada segundo que desperdiçamos é vida que deixamos de viver. E acrescentou: Gostaria de ter te encontrado antes, muito antes.
Rose resolveu relaxar, começou a acreditar que coisas boas também acontecem de repente. Se arrumou e foi de novo para a casa dele. Ele disse para ela que deixaria o carro quebrado naquele local mesmo e que cuidaria disso no dia seguinte. Foram então conversando para um restaurante italiano famoso e com muita gente. Era sexta-feira.
Ela achou estranho que ele ainda estava com a mesma roupa e aparentemente não tinha se arrumado, mas ela o achava charmoso e bonito, mesmo com uma roupa já amassada e não muito alinhada, típica de fim de dia de trabalho. Conversaram por duas horas e ele disse não querer comer nem beber nada, disse que preferia apenas falar e olhar para ela. Não era algo comum, mas ela estava começando a se sentir muito bem tratada, como sempre sonhava ser. Aquilo a deixava cada vez mais interessada nele. Ela achava que sentia amor de verdade, mas sua mente tentava bloquear aquilo  porque era cedo demais.
O restaurante já dava algumas pistas de que ia fechar e ele então tocou nas mãos de Rose, nas duas de uma vez. Rose gostou, apesar de serem mãos geladas. Ela sorriu e ele disse para ela: Devemos amar enquanto ainda há calor em nossos corações. Era estranho, mas era bom. Ela se sentia feliz, ela imaginava que poderia ser algo mais na vida dela realmente.
Voltaram para o carro e antes de entrar, ele a abraçou e a beijou bem devagar, cada pedaço do lábio dela era tocado aos poucos pelo lábio dele, suas mãos geladas acariciaram sua nuca e desceram até a base de suas costas. Ela estava quente, mas ele era todo frio. Rose não se conteve e perguntou: Vamos esquentar seu corpo melhor em casa?
Logan sorriu e disse: Parece uma pergunta de sonho. Entraram no carro e foram para a casa de Rose.
Chegaram lá e foram para a sala ouvir música enquanto tomavam um licor e apreciavam a neve caindo pela janela ao lado da lareira. Logan comecou a contar para Rose mais sobre sua vida, sobre quantas pessoas ele havia deixado de lado para poder trabalhar mais e ter sucesso. O sucesso definido pelo mundo atual. Rose se sentia mais confortável e falou sobre ela também, falou que estava pensando em encontrar alguém quando ele bateu no vidro e que ainda não conseguia entender muito tudo aquilo que estava acontecendo, como se ela tivesse caido no sono e continuado um sonho e que fosse acordar a qualquer hora. Logan aproveitou e disse para ela: A vida é o sonho, mas às vezes, não vivemos ele. Eu ouvi o que você dizia pelo lado de fora do vidro. Rose ficou arrepiada e achou que fosse mais um “charme” dele para conquistá-la.
Logan sorriu de novo. Rose achava que de certa forma, ele sorria mais com a boca do que com os olhos. Os olhos dele eram bonitos, mas muito escuros e muito sem brilho. O brilho dele vinha mais das palavras. Ele a beijou de novo e começaram a tirar a roupa. Rose não queria mais resistir, ela queria aproveitar aquele momento. Sexo com amor é algo que ela adorava e não tinha a muito tempo. Ela não se questionava mais o fato de estar sentindo amor tão rápido. Logan disse:  Perdemos tempo demais tentando definir o amor. Ela achava que ele lia sua mente.
Os dois corpos eram um só. Êxtase, prazer, ternura, tesão. Por 30 minutos, tudo era extra-terrestre, incontrolável, sensorial, irracional, instintivo. Então, dois corpos apareciam sós de novo. Logan fechou os olhos. Mesmo assim disse para Rose: Certos momentos duram 1, 5, 10 minutos, mas na verdade, duram para sempre. Rose fechou os olhos. Ouvia a madeira da lareira estalar com o fogo. Rose se sentia amada. Não acreditava ainda, procurava a razão, que estava longe dela nessa hora. Continuou de olhos fechados e acabou dormindo.
Quase oito da manhã e Rose abriu os olhos. Ela estava calma, se lembrava de tudo. Não viu Logan. Acreditou então que estava sonhando, mas estava nua por baixo da coberta e nunca dormia sem roupa. A lareira ainda acessa. Dois copos de licor na mesa, mas um ainda com licor. Lembrou que Logan não comeu e não bebeu no restaurante. De longe viu um papel pendurado na porta com um durex. Começava a crer de novo que não tinha sonhado. Onde estaria Logan? Teria ido embora a pé? Ficou um pouco preocupada, teria sido roubada? Enganada?
Foi até a porta e pegou o papel. Era um bilhete de Logan. E lá estava escrito. “Obrigado pelo seu amor ontem. Nunca sabemos o que virá amanhã. Viva hoje!”
Ela sorriu, ficou feliz. Sentiu o amor de novo. Achou romântico. Foi tomar banho e pensou em ligar para ele depois.
Ela tomou banho com calma e ao se enxugar ligou a televisão. Jornal local. Não mais de 5 minutos e a foto de Logan aparece na tela da TV. Ela olha despreocupada, mas o texto abaixo da foto faz com que ela quase perca o folego. Dizia que Logan Bennett, empresário local, tinha falecido na noite anterior.
Aquilo era inacreditável, Rose não conseguia acreditar no que estava vendo e ouvindo. Resolveu se vestir rápido e dirigir até a casa de Logan.
Chegou lá e tudo parecia calmo e exatamente como na noite anterior. Bateu na porta várias vezes, chamou por alguém e nada. Até que um vizinho resolveu ir falar com ela. O vizinho disse que a irmã de Logan havia passado por lá bem cedo e que tinha deixado um endereço de onde o corpo seria velado. Rose não conseguia acreditar. Disse que ia embora e antes de se virar, o vizinho fez uma pergunta que ela achou muito estranho. Ele perguntou: Foi você a pessoa que esteve aqui ontem de noite depois que a família saiu com ele para o hospital?
Rose estava confusa, queria chorar, parar tudo, mas precisava ir atrás das respostas para algo tão inpensável. Tinha medo, mas precisava ir até o endereço do velório.
Depois de 20 minutos dirigindo, chegou a uma casa afastada da cidade, na área rural. Uns 20 ou 30 carros estacionados por perto. Queria acreditar que aquilo não estava acontecendo. Não conseguia entender se a noite passada havia sido sonho ou outra pessoa. Era tudo tão forte e ela não conseguia acreditar que tinha sido um sonho.
Entrou na casa e uma mulher veio falar com ela. A mulher se apresentou como irmã de Logan e perguntou quem ela era. Ela disse apenas que era Rose, parecia confusa. A irmã de Logan perguntou se Rose precisava de ajuda e levou-a para sentar-se em um sofá. Poucas pessoas conversavam por perto. Rose foi perto do caixão e viu Logan, era ele com certeza. Não era um sonho. Rose chorou ali parada. Era a única pessoa que chorava na casa. Rose não sabia quem eram aquelas pessoas todas.
Rose caminhou até a irmã de Logan e disse que precisava conversar com ela em particular. Foram para uma sala no andar de cima e Rose disse que tinha conhecido Logan no dia anterior e que tinham jantado juntos. A irmã de Logan fez uma cara esquisita e perguntou para Rose se ela era alguma golpista. Rose não entendeu e disse que não. A irmã de Logan disse para Rose parar de brincadeira e que respeitasse aquele momento de dor. Rose então pediu desculpas e perguntou para a irmã de Logan como ele havia falecido, que era a única coisa que ela queria saber antes de ir embora. A irmã de Logan respirou fundo, pediu desculpas e disse que estava nervosa e contou para Rose como ele havia falecido: Ontem ao voltar dirigindo para casa, Logan me ligou depois de encostar no acostamento e disse que sua cabeça estava doendo demais e que estava preocupado com os coágulos. Logan tinha três coágulos que poderiam estourar e tirar sua vida a qualquer momento. A irmã disse então que iria buscá-lo e saiu de casa, mas quando cheguei lá, ele estava desacordado dentro do carro. Chamei uma ambulância e fomos com ele para casa, mas antes que pudéssemos ir para o hospital, ele não respirava mais.
Rose estava perplexa e disse para a irmã de Logan que precisava fazer mais uma pergunta, mesmo tendo dito que aquela seria a última. Rose perguntou que horas Logan havia ligado para a irmã dele. A irmã de Logan pegou o celular, abriu a tela de ligações recentes e mostrou para Rose o horário da última ligacao do irmão. Lá dizia 4:45 da tarde de ontem.
Rose levantou-se, correu para o andar de baixo, correu para o carro e dirigiu direto para a casa dela. Uma mistura de medo e tristeza. Ela não conseguia acreditar naquilo, ela sabia que não tinha sido um sonho.

Seis semanas depois, a vida parecia continuar. Rose pensava naquilo tudo, mas ia levando. Até que seu maior espanto estava por vir. Havia feito um recente teste periódico de saúde pela empresa onde trabalhava e o envelope dos resultados já estava com seu médico. O telefone tocou e era a secretária do médico para marcar a revisão dos resultados. Rose anotou a data e horário da consulta futura, mas antes que a secretária desligasse, ouviu uma frase alucinante: Ah, e parabéns pela gravidez! Temos um presentinho para você quando vier para a consulta!

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Anunciação (e outros)













* Anunciação, Leonardo da Vinci
1475-80, Galeria Uffizi, Florença



De dentro de mim
brotam crianças
natimortas

Já é primavera
na maioria
das casas

__________________________________


Não sei se o que falo é o eco
ou se é o eco
que fala em mim

__________________________________


Levo debaixo 
de cada olho
um discurso
ao vento

- se digo amém
aos domingos

é porque faltam
palavras

~ poemas também publicados no blog do autor

Tiflose

Às vezes, ser cego é enxergar além.
Sentir
As saliências do seu semblante desbotado
O bálsamo da matiz púrpura de seus olhos
O volume inesperado de tua boca

Ilumina
A paisagem do meu olhar
O breu do que vejo
Que se colore nos devaneios contidos em você

Vejo
O sentimento tão aguardado
Impossibilitado tantas vezes
Pelo conceito pré-deformado

Comportas
O meu mundo em desejos profundos
Profanas alegrias
Clareiam o mais inóspito dia

Enceta
A vida tão resguardada
Hirta pela luz, claridade que falta
Assustada pela cor que tinge minha alma

Aprendi
Que sobrevivendo vou aprendendo a sobreviver
E que sobre viver
É viver vivendo intensamente sem saber

Concluí
Que a luz que me falta não faz morrer
Pois a luz que importa, ilumina e salta aos olhos de viver
Está bem a frente...está em você

domingo, 11 de agosto de 2013

MILAGRES



MILAGRES

.
meu olho sangrou.-milagre, milagre, milagre!!!... o santo diz que é a cura da tal alma que enche verso e mais versos nessas poesias de dona de casa. milagre! o santo leu minha poesia e me penitenciou. nunca mais poetei por medo de pecar. melhor escrever barbaridades porque o mundo é de madame satã. há milagres que vem para o mal. milagre!! sangrei pelo ouvido. como se alguém dissesse que estou surdo, gritei blasfêmias ao deus local. milágre!, depois de me convencer de que o vermelho se transformara num roxo capenga embutido na face. e já era tarde pra acreditar que respirei restos de um sangue escorrido pelo nariz. -milagre!, antecipei à vindoura missa de domingo...
 .






*imagem da internet

sábado, 10 de agosto de 2013

Convidado Jonatas Rubens Tavares



Reflexos

Alzira passava por uma crise de identidade um tanto quanto diferente: Ela sabia muito bem quem era. Não tinha dúvida alguma em relação á isso. O problema eram as outras pessoas. Estas, sim, não sabiam quem era Alzira.
Os colegas da faculdade e do trabalho não a conheciam, as amigas (até mesmo as de longa data!) também não, o namorado não a conhecia, seus pais (com quem dividia a mesma casa desde o nascimento) também não. Aquilo tudo era muito estranho e incômodo. Sentia-se coadjuvante da própria existência. Vivia em um mundo em que as pessoas não se conheciam e nem se esforçavam para tanto.
Alzira não queria ser o centro das atenções, o centro do universo; Só não queria mais ser subestimada. Era isso o que mais a perturbava.
O jeito, a solução encontrada, foi mostrar a que veio. Mas muitos não gostaram do verdadeiro eu de Alzira. Procuraram se afastar. E a moça tinha de admitir: agindo daquela forma, querendo mostrar-se, provar-se, distorcia, de alguma forma, a própria personalidade. Distorcia o seu próprio Eu. Então a sua crise de identidade só piorou. Agora, ela mesma tinha dúvidas quanto a quem era de fato a Alzira que até pouco tempo atrás acreditava conhecer tão bem.
-Quem sou eu? – Perguntou a moça, aos prantos, ao namorado.
-Você é a mulher que eu amo...
Pois o namorado amava uma pessoa que não existia. Amava a imagem que tinha de Alzira, não a Alzira em si. Talvez ela mesma estivesse apaixonada apenas pelo que acreditava ser seu namorado. Esse pensamento a confundiu. Na certa, todos que ela supostamente conhecia eram apenas uma imagem errônea que ela havia produzido... Tratava-se de um mundo muito estranho, repleto de pessoas estranhas, que, estranhamente, estranhavam-se entre si mesmas... O fato é que a verdade não passa de um belo engano enquanto o que julgamos engano é o que talvez mais se aproxime da realidade que julgamos conhecer, mas que na realidade desconhecemos totalmente... Duplamente enganados.
Alzira procurou acalmar-se e, após uma longa e regeneradora noite de sono, estudou o próprio rosto no espelho. Não conseguiu distinguir, naquelas feições, o seu Eu. Era triste, mas era verdade, era realidade:
As pessoas nos veem como nos enxergamos no espelho: Apenas um mero reflexo do que realmente somos. 

---
 Jonatas Rubens Tavares
http://ooportal.blogspot.com.br/

 

Bar do Escritor em Quadrinhos

Carlos Cruz

Wilson R.

Giovani Iemini
Cristiano Deveras
Pablo Treuffar
Magmah

O próximo projeto do Bar do Escritor é uma HQ COM OS CONTOS DAS ANTOLOGIAS! Literatura em quadrinhos, não podia ser mais interessante.
Quem encabeça a edição é Luiz Augusto de Souza, que lançou a espetacular graphic novel Mitologias, uma história fantástica que acontece na cidade de Paraty. Ele escolheu os contos que melhor se encaixariam num gibi e chamou vários desenhistas para contarem suas versões em quadrinhos.
 

Nos esboços acima, os autores que serão os personagens das histórias.

Como este é um projeto grande e com várias peculiaridades, estamos buscando patrocínios, apoios e participando de editais públicos para a realização da empreitada. A ideia é remunerar os participantes, nem que seja com parte da produção para a venda. Assim, caso conheçam quem possa nos ajudar, entre em contato. Se quiser participar de alguma forma, entrem em contato com o Luiz.


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

CADEIRA DE RODAS, MULETAS E FISIOTERAPIA. - a saga de uma reabilitação


Ao ficar um ano de cadeira de rodas
Me acalmei
Por saber que voltaria a andar
Relaxei
Sempre fui ansioso
Nesse ano sabático
Fui incentivado a não fazer nada
Ócio deliberado
Todos deveriam experimentar
Coisa fina
Calmaria
Entre muitos baseados e bebidas alcoólicas
O elixir da vida
Baixo Gávea e praia de Ipanema, às vezes Aristides Espínola.
Eu tinha o tempo a meu favor
Bagulhos
Chopes
Tecos
Ácidos
Ecstasys
Bucetas derivavam desse aglomerado de dias e noites em unidade
Deus salve a ilegalidade
Daime todo mau, amém!
A época da promiscuidade ilícita
Velei o sono de várias bundinhas cocainômanas
Mulheres estonteantes
Encantadoras
Eu as droguei
Abusei delas
Fui pau amigo
Em troca recebia bocas insanas
Burguesinhas vocacionais da fixação oral
Na minha condição de paraplégico provisório, mamadas eram volúpias de propriedade.
Mulheres se ajoelhavam diante da cadeira de rodas
Fetiches, são eles que nos diferenciam dos animais.
A melhor trepada da minha vida aconteceu no andamento das quatro rodas
Uma morena de alma apetitosa e corpo cavalar mandou um bilhete pedindo pra ver-me bater punheta
Durante o rito sexual, ela balbuciou palavras de não traição ao namorado.
Degustolhando-me o membro sacerdotal ela falava hipnotizada não estarmos fazendo nada
Um rostinho lindo a centímetros do meu pau confessando seus não pecados
Ejaculei litros de imoralidades qualificadas a décima potência na negação do outrem
O fescenino de minh'alma mandava as promiscuidades da pornografia
Lascividade inebriante
Sexo é isso
O corpo de uma mulher regido pela buceta da alma
Se sexo fosse penetração não existiria homossexualismo feminino
Eu penetrei almas pervertidas
Simples assim
Depois do primeiro ano na cadeira de rodas vieram as muletas
E com elas a fisioterapeuta
De segunda a sexta uma loura recém-formada levantava e abaixava minha perna aparafusada
Exercícios de rotina no seu consultório
Não era só minha perna que ela levantava
Com o tempo ela resolveu dar uma mãozinha
Sessões de fisioterapia peniana faziam parte da minha série de repetições
Seu namorado era ortopedista no mesmo prédio
O meu ortopedista
Foi ele que me indicou a punheterapeuta
Ela era da turma das que se formaram achando que negar a buceta no sentido pedagógico é não trair os seus
Definitivamente meu tipo de mulher
Eu legitimava tal pensamento não a beijando
Aprendi muito com as mulheres dessa turma
Beijar na boca e meter na buceta não pode: é traição.
E isso eu não faço
Eu tenho limites
Mas nem tudo eram férias sabáticas a gozar
Seu namorado e ilustríssimo ortopedista nos pegou no flagrante
Ele não apoiou a teoria da não traição
Tem horas que é melhor apanhar do que explicar
Apanhei
Tomei muita porrada
Bons tempos das trocas justas
Do toma lá da cá
Do aqui se faz aqui se paga
Onde eu dei a porra e recebi o equitativo troco
Hoje ando e corro de um lado pro outro sustentando o conceito de família
Sou a pessoa ao lado almoçando sem vocês perceberem
Normal como Norman Bates
Estou por um fio
Saudades da minha cadeira de rodas

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
CADEIRA DE RODAS, MULETAS E FISIOTERAPIA. de Pablo Treuffar é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Balzac sem SAC



deus, o todo-poderoso-de-olhos-chamuscantes, materializou-se em minha bacanal onírica e, esbanjando austeridade e vozeirão de trovão, mandou a letra, na lata: "quereis usufruir os prazeres e dissabores da vida mundana ad infinitum? comprai e lede balzac. enquanto não exaurirdes a comédia humana, vosso espírito permanecerá encerrado no cárcere que expele vapores nauseabundos, a sorrir pateticamente de sua própria vileza." eu, que não sou bobo nem nada, antevendo-me um highlander de espada flamejante sempre em riste, relampagueando a la he-man, acresci proust à lista e cliquei no botão comprar. foi aí nesse ínterim fatídico que o pequenino avatar brotou no canto esquerdo inferior do vídeo. evitei encarar os olhos-de-fogo pra não virar estátua de sal ou churrasquinho de carvão, mas o cabeludo barbudo grisalho sorridente, sem mais e de repente, foi ficando enrubescido, à proporção que o ígneo dos olhos enegrecia a olhos vistos. não tardou e a possibilidade de mirá-lo sem os receios pétreos iniciais deu o ar de sua graça, devidamente acompanhada e assistida pela recém-manifestada nefanda constatação: eu me fodera. o barbudo era o chifrudo de cavanca, rabo e cascos de bode. "me chamo mefistófeles. que prazer te conhcer!", disparou o sem-mãe, entre risadinhas zombeteiras. mas nem, pensei. morro, mas morro letrado, entupido de cultura a peidar literatura. "aqui jaz carlos cruz. ele leu balzac." ui. de mais a mais, vamos e venhamos que um livro com esse nome deve ao menos possuir algum humor. foda-se o capiroto traíra filho da puta e suas traquinagens de sérgio malandro glu glu ié ié. eu vou ler essa caralha. se à palavra fim inda houver respiração, emito minha opinião. se não, boiemos na crista do aluvião, sentemos sensatos à sombra do pé de feijão e, com unhas e dentes, destrinchemos carinhosamente nossa adorável auto-aberração. tudo é ficção.

Carlos Cruz - 20/03/2013

domingo, 4 de agosto de 2013

CUIDADO!



Ei, você aí empregado
você,
embaixo do ar-condicionado
toma cuidado, barnabé
a foice do corte se aproxima
e amanhã, talvez
pode ser que você esteja aqui
ao meu lado, pedindo trocados,
na Goiás com a Quatro
sentindo o olhar desdém
que outros como você
(ou como eu antigamente)
lança ao sujeitos das sarjetas

Como pode o único animal racional
cognitivo e pensante (também auto-limpante)
que entrega Oscars®
que entrega Nobels®
que entrega, putz, Pulitzers®!
deixar seus semelhantes
jogados às traças
como trapos velhos


Cuidado com a foice, barnabé... 

sábado, 3 de agosto de 2013

Bar do Escritor completa 08 ANOS


PARABÉNS a vcs, escritores, que publicam no fórum do Orkut, no blog, no ezine, nas antologias, no facebook e nas diversas comunidades vinculadas, que participam do BdE desde sempre ou de agora.
PARABÉNS, entusiastas das letras em todas as suas formas: publicados, impublicados e impublicáveis, que não se sentiram censurados e tampouco se guardaram em gavetas escuras e sombrias ou em arquivos escondidos em CPUs perdidas.
PARABÉNS, amigos, que tornaram esta comunidade um ambiente livre, crítico, saudável e difusor da literatura nacional.
PARABÉNS, sobreviventes, que superam a volubilidade do tempo e permanecem se divertindo com todos os textos do BdE.
PARABÉNS, BARNASIANOS, pela concretização deste movimento literário que já se insere nas nossas histórias.

um brinde ao BAR DO ESCRITOR!


infalível

terra onde pouco

se vê
pois há apenas
tanger

das eras de entes
dos tempos idos
"olho por olho"
já não se tem dentes

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A CHAVE

Não tenho medo de fantasmas. Quero dizer, quase nunca. Porém, confesso que me assustei. Era apenas um sonho, mas nele vários seres de outro mundo me perseguiam. Corri, corri e, já desesperada, acordei. Dei um pulo ao despertar na minha poltrona no final do ônibus. Fazia frio e mesmo assim eu estava suando. Olhei pela janela na tentativa de me recompor e vi a fumaça ao longe. Cerrei os olhos para ter mais nitidez e por alguns segundos tentei enquadrar o incêndio, mas tudo o que pude ver foi o imenso mato que corria pela beira da estrada e lá na floresta, escondido, o telhado de uma casa velha. Assim como apareceu, sumiu. O cheiro ficou no ar. 
A viagem estava tão cansativa que nenhum dos passageiros pareceu se importar. Muitos ainda dormiam. A impressão que tive é que somente eu vi aquilo. Dei de ombros. E o ônibus veloz deixou o fogo para trás.
Apesar do pequeno susto ao acordar, os pensamentos finalmente foram se tornando mais claros. 
Éramos uns 30 passageiros naquele veículo. Cada um carregando seus sonhos e planos. Os meus eram simples: instalar-me confortavelmente na pacata cidade e recomeçar a vida. Aceitei o emprego numa casa de família. Pelo anúncio no jornal seriam duas crianças que ficariam sob minha responsabilidade. Perfeito, pensei entusiasmada. Fiz as malas e lá fui eu.
A pousada que reservei era perto da prefeitura. Desembarquei e a pé mesmo achei o endereço. Instalada, refeita da viagem, fui tomar posse no meu novo emprego. Salário digno, casa e comida. Para aquele momento, me bastavam.
Chegando lá fui muito bem recebida. As crianças? Educadas e prestativas. Uma menina linda de cabelos cacheados e o irmão gêmeo de sorriso maroto. Imaginei que não teria muito trabalho com eles.
Em poucos dias deixei a pequena pousada e fui morar no quarto de hóspedes da casa. Logo me adaptei à rotina. Os patrões rapidamente se transformaram em pais adotivos para mim. Eu estava muito feliz ali. Acumulei algumas funções e além de cuidar da educação das crianças, passei a organizar a cozinha e a casa. Também passou a ser minha responsabilidade as compras no mercado.
Certo dia, indo em direção ao centro para comprar frutas e legumes, passei em frente a uma casa velha, quase caindo aos pedaços. Achei estranho, nunca tinha reparado na tal casa. Mas lá estava ela, fria e mal acabada, quase mal assombrada. Acelerei o passo e não olhei para trás. Mesmo não acreditando em fantasmas, nunca se sabe. Nos sonhos eles me assombram.
Na pressa de me livrar do calafrio que senti ao passar pela construção antiga, dobrei na rua errada. 
– Ah não, errei o caminho, lamentei a um gato que me olhava de soslaio. Mas fui em frente. Vi que lá longe a rua se bifurcava. Rua deserta, apenas terrenos arenosos ou abandonados. Caminhava rapidamente. Perdi de vista a casa velha. E me deparei com outra esquisitice: uma casa escondida atrás das árvores. De muitas árvores. Quase uma floresta. Curiosa, fui vencida pelo impulso e entrei pelo matagal. A minha esperança era conseguir alguma informação de como chegar ao centro da cidade.
Vindo do nada, apareceu um homem mais assustado que eu, pedindo ajuda. Desesperado, em pânico, falava de um incêndio na casa. Estiquei o pescoço e avistei a fumaça. Imediatamente me vi de volta ao ônibus, apavorada olhando pela janela e encarando a mesma nuvem negra, o mesmo telhado. Tentei afugentar a visão, disfarcei e me prontifiquei a chamar os bombeiros ou carregar água para reduzir as chamas. O homem implorou para eu não fazer isso, ele queria apenas que eu cuidasse de uma caixa que carregava nas mãos. Eu disse que sim, cuido, mas o que você vai fazer? 
– Vou voltar, me disse ele. Preciso voltar. 
– Não, insisti. Está um cheiro forte de queimado, pelo barulho das labaredas imagino que esteja muito perigoso entrar por ai. 
Mas ele implorou para que eu pegasse a tal caixa e correu em direção a casa. Fui atrás dele, mas me perdi entre tantas árvores que cercavam o lugar. Quando finalmente enxerguei a fachada da casa percebi que não havia fogo. Nem o homem estava lá. Atônita, dei uma volta completa no terreno. Nem sinal de fumaça. Bati na porta e nada. Ninguém atendeu. Voltei para o matagal aos gritos por alguém. Eu não podia acreditar: ele entrara por aquelas árvores e não saiu em lugar algum! E o fogo, se foi?
Ouvi um carro ao longe. Fui correndo em direção à rua e fiz sinal para o motorista que estacionou. Surpreso me deu boa tarde. Perguntei se tinha visto um rapaz, sujo, apavorado, correndo por ali e ele me garantiu que não. Contou inclusive que estava há algum tempo no início da rua trocando o pneu furado e jurou que não viu ninguém, nem indo, nem vindo. A não ser eu. Fogo? – Não senhora, só o sol quente mesmo.
A mesma sensação de medo dos meus sonhos invadiu meu corpo. Fiquei com as pernas bambas. Esqueci que estava indo fazer compras e voltei para casa dos patrões. Aos prantos. Eu sabia o que tinha visto, o que tinha sentido. O cheiro de queimado estava lá. Eu não podia ter imaginado tudo aquilo e finalmente lembrei: eu tinha a tal caixa comigo. Eu não estava louca.
Corri para meu quarto e quase quebrei a caixa ao abri-la afoitamente. Dentro dela, uma chave. Nada escrito. Nem uma pista do que poderia ser. Escondi embaixo da cama. Caixa, chave e medo. Limpei o rosto, dei uma desculpa qualquer sobre voltar de mãos vazias das compras e fui cuidar do jantar.
Os dias seguiram como se nada dos últimos acontecimentos fosse verdade. Quando o medo quase sumiu voltei a ter pesadelos. E eles se repetiam e se repetiam . Acordava no meio da madrugada com a nítida impressão de que alguém estava comigo no quarto. O pânico tomou conta de mim. Com as noites insones meus afazeres ficavam a desejar. As crianças se afastaram. Os donos da casa já me olhavam desconfiados. Com o tempo além dos sonhos, o cheiro de queimado passou a me atormentar. Sentia no quarto, no banheiro, na cozinha, na sala. Eu, sem saber o que fazer ou pensar, procurava o fogo e não encontrava nada. Procurava embaixo das escadas, atrás das portas, afastava os móveis para achar alguma fagulha, uma fumaça que fosse. Minha figura já estava de dar pena.
Comecei a imaginar que a tal caixa com a chave tinha alguma coisa a ver com isso. Cansada de me sentir apavorada, falei com o filho do jardineiro para me acompanhar até a casa onde encontrei o homem apavorado. O rapaz foi comigo e encontramos tudo bem, nada destruído. Ele também sentiu um leve cheiro de fumaça e chegou a ouvir um barulho que me descreveu como algo queimando. Mas não havia sequer indícios de que alguém estivesse por lá. Tentei a chave em todas as portas e nenhuma abriu. Desistimos.
Não me dei por satisfeita e voltei no dia seguinte por conta própria. Será que a chave abre algo que está dentro da casa? Forcei uma entrada na janela mais velha que encontrei. Apenas o reboco caiu. Inútil. Gritei de tanta frustração. A única resposta foi o vento balançando as árvores. Aliás, a floresta que cercava a casa estava mais densa e parecia ainda maior naquele dia.
Agora estou aqui. Louca e sozinha. As crianças choram ao chegar perto de mim. Dizem que estou sempre com esse cheiro de queimado na roupa, nos cabelos, na pele e sentem medo dos meus olhos endiabrados. Meus patrões mandaram me internar. Eu continuo a sentir o calor do fogo. Às vezes tenho a nítida impressão de ver no corredor do sanatório as labaredas subindo pelas paredes. É só manter os olhos bem fechados que a visão vai embora. Menos o cheiro. E a chave? Está aqui comigo, dentro da caixa. Todos os dias olho para ela e imagino que porta a chave abre. Ou pior, que porta ela deveria manter trancada.