quinta-feira, 29 de maio de 2008

Jogos


Você acha que sabe
Com suas armas e jogos
mas deixarei você na linha
perdendo todo o seu tempo por nada

No seu mundo
Você não sabe o que há
Cada um tem que ser o que é
E você tenta manipular

Observarei os seus passos
O movimento do cinismo
Nos olhos da traição
Você se envenena no seu próprio ódio

Eu estarei aqui
Assistindo na platéia
Você perder o seu tempo
E ser sufocado pela sua ira

sábado, 24 de maio de 2008

Melhor Ser Corno do que pagar pensão


Eu não faço a mínima idéia de onde veio esta frase. Acho fantástica!

Justiça seja feita! Nem artista global, e, muito menos, jogador de futebol, escapam dos olhos da justiça quando se trata de pensão. Pelo menos alguma lei tem que ser cumprida. Olhos da justiça?Desde quando, Lena? Acho que eu não devo ter me expressado bem. Continuando o raciocínio... ao abrir jornais de alta circulação, é comum ver casos de amor, traição e morte. Às vezes fico chocada com certas notícias.

A traição, atualmente, tem um posicionamento muito natural e banal. Ora, existe uma pregação rigorosa nas diversas mídias, principalmente nas dramaturgias, que mostram “a vida como ela é” ou como ela deve ser. Diga-se de passagem, que muitas pessoas ficam em busca de modismos e de comportamento de artistas para continuar vivendo.

Quem ama não trai, quem ama supera a concupiscência da carne. Estou errada? Há homens que dizem que a traição faz parte de sua natureza, do seu universo. Será? Estão sustentando a tese de que todos os direitos são iguais, então mulheres podem trair também.

É por isso que muitos homens estão preferindo ser corno a pagar pensão. É mais lucrativo.Assim,eles não correm o risco de ser preso se atrasarem no pagamento. O que você prefere?


Comentários da comunidade


Publicado inicialmente no Portal da autora.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Dedicatória

Alegrou-se com a notícia de que o livro seria dedicado a ela. Caminhou até a livraria com passos e um sorriso dignos de uma musa imortal, inesquecível.

Ao abrir na primeira página, leu: "Em memória de..."

O livreiro recolheu o corpo.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Abracadabra

Meu segredo
Carrega o cansaço das eras.
Dilacera-se entre quimeras arquetípicas
Emaranhadas em rugas
E rusgas amarelecidas.

Ao frescor de nova manhã de sol,
Céu azul não vê meus olhos brilharem,
Não enxerga minha alma encardida
Que cheira a mofo e naftalina.
Flores desbotam ao oxigênio
E, muitas faces me assustam
Pelas sombras que roubam do dia a existência,
Pois nas trevas são silêncio e nada.

Fluxos do poder
Pelo qual cada ser precisa viver?
Abraxas,
Pôr do sol ou amanhecer,
Depende do ponto de vista.
Um ciclo que devora e é devorado.
Mas, se um átomo se romper,
O mundo estará quedado.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Grávida.

Grávida.

Não quero perder do verbo a alegria
Ou beber da conjugação as lágrimas.
Minha estrada não conhece limites,
Faço floridos os dias mortos.
Pinto caracóis nos pensamentos
Para viver a expressividade do amor.

O que passa pelos meus caminhos
Trança de fantasias a realidade ofuscada.
Não vôo nem morro desfecho, sou jardim nu.
Orvalho de uma estação criada para o sonho
Lá onde o trem apita o definido início
E eu, posso estar no desembarque ou embarque.

Nunca sei mais da noite além do que ela ensina,
Madrugada é dia na pele, raiz na carne,
Repouso nos olhos da viagem sem dia certo:
Espera-me na esquina do verso eternidade.
Carrego a sina de grávida Poesia
E ela não permite que eu cale e seja tempo.

Se acaso eu florescer em seu peito
Quero ser margarida, suave margarida.
Desfolha-me devagar, flor de delírios.
Ao fim não busque compreensão; floresça.
Seja o íntimo poema do dia.
O poema vida com o nome sempre!

Meus pés seguem os dedos,
Os dedos o coração,
O coração os óvulos férteis da mente,
No entanto, há o olhar do mundo,
Onde eu crio e prospero sementes de sentimentos.
Meu tempo? Nunca e sempre. Certeiramente, agora!

Eliane Alcântara.

sábado, 17 de maio de 2008

duas vidas no interior




queria acordar
com teu beijo
mudo

ouvindo o desperdador
dos pássaros,

e cedinho
entrar no teu
corpo

pra avisá-lo
que
o dia
começou.

queria ver
o cair da tarde
sentado
no banquinho da praça,

o sol repousando
no horizonte

e minha mão
na tua

repousada.

com uma chuva
fininha,
na volta pra casa,

compraríamos pão
quentinho
pra comê-lo
debatendo sobre
os pesadelos
do dia.

à noite queria
me sentar à varanda
ouvindo blues
e tomando cachaça rainha,

até ficar bêbado
e ascender teu título
de princesa
para rainha.

e quando o frio
lá fora
trouxer a neblina
até pra dentro de casa

queria dormir
agarradinho,
teu corpo sendo
meu sol

em meio à
madrugada.

André Espínola

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Na luz de todo dia



Renasço diariamente
na ousadia do despertador
Renasço quando erro
e nos poemas de Rimbaud

quando abafo o meu berro
amansando grandes fúrias
indenizada em canto negro
surpreendida por bitucas

Há um novo nascimento
na melodia de um som
meu remédio pra lamentos
vida longa aos mil tons

Não tenho motivo pra apuro:

minhas dores graves
amenizadas em agudo


Barbara Leite

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O MENINO PABLO

O gênio se revelara prematuramente.

Com um ano de vida, Pablo falava fluentemente seu idioma pátrio. Aos dois, dominava a Sintaxe, a Prosódia e redigia com razoável caligrafia. Com três anos tinha noção assustadora dos conjuntos matemáticos, incluindo-se o dos números complexos e seus fundamentos.


Aos quatro anos, surpreendia os pais em frases enxutas, arrazoadas, embaraçando-os com uma lógica livre de sofismas e de vícios de linguagem.

Aos cinco anos, enfim, ele atingia toda a plenitude intelectual equivalente a de um sábio septuagenário.

Paralelamente a esse colosso intelectual, notara-se que o menino Pablo nunca sorrira, nem pranteara. Inspirava frieza, revelava temperamento estável, incrivelmente imune às influências externas que ditam os humores das criaturas.

Enquanto os pais, apreensivos, buscavam meios de aproximar-se do estranho garoto, ele comia só, dormia só, lavava-se, trocava-se – vivia, enfim, deliberadamente só.

Não era autista. Não mostrava propensão à esquizofrenia. Tinha boa saúde física e aparentemente mental, embora não possuísse amigos, nem brinquedos, nem qualquer paixão que fosse.

Tinha ainda cinco anos de idade, quando, certa noite, chamou cerimoniosamente os pais ao seu aposento. Muito sisudo, fez sinal para que se sentassem. E fitou-os como se fossem dois eternos desconhecidos.

-Eu já não tenho muito tempo neste mundo. – declarou, sem hesitação, a voz firme.

E mandou que separassem tudo que lhe pertencia, ou que pudesse ter tido uso comum a ele naquela casa: talheres, utensílios, roupas de cama e de banho, porta-retratos, documentos...

Os pais olhavam-no, estupefatos.

-É tudo! – ele finalizou.

A mãe mostrava o rosto banhado em lágrimas. Quis aproximar-se, abraçá-lo. O menino deteve-a firmemente, virando-se para o outro lado.

O esposo puxou-a para si, também emocionado. Fez sinal para que saíssem. Ela ainda murmurou, olhando o filho que lhe virava as costas:

-Por quê!...

Os resíduos cármicos, falsamente escamoteados no longíquo pretérito, diluíam-se, naquele qüinqüênio, criando no caminho evolutivo daqueles seres uma situação estranha, aos olhos do homem comum.

O corpo do menino Pablo amanheceu rijo, só. O cadáver estava simetricamente estendido no leito.

A partir daí, o planeta mostrava-se improfícuo para encetar a evolução no plano emocional daquele Espírito, que habitara por milênios em esferas onde os sentimentos haviam sido extirpados de suas civilizações.

Santinha do pau oco

Um dia perguntaram
se o desriso da menina
havia sido o molde
da santa do pau oco

Porque lhe repararam
que a luz que ele atina
é o sorriso sob tolde
que atiça o caboco

Sua pele é morena
Seu olhar, amadouro
Seu cabelo, uma fronde

Tudo na pequena
vale mais que o ouro
que a santa esconde

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Hipnose

desde que descobri,
dos sonhos, a utopia
convalescente
de quem vive...

tive amarga, no gosto
das coisas, sensação...

de que, sob hipnose,
andamos todos nus.

domingo, 11 de maio de 2008

Minha doce (doentia!) donzela


Ao querido, robusto, saudoso e calvo Mario d’Andrade.


Minha donzela de meias calças,
Já corrigiste o blush Yorkino
Que te presens-peilhe no Natal de 29?
Blush negro (preto, escuro) para que reboles
Mulata dengosa! Não branca pedregosa!

Beiramos a idade das compulsões,
A muito – muitos anos – que as cousas
Debulhamos feito feijão branco carioquinha...
Tamo-que-tamo nos tempos do ouriço,
De cafungar no tamboretão de balanço e
Fumar mata-rato, pois, enquantoA
s orelhas não terminam de virar assas:
Somos aqueles velhinhos amáveis...

Doce (doentia!) donzela de meias calças,
Escrevo da esquina com a beirada
Da Lopez Chaves (hoje é só o céu bagunçado),
Do baixinho de meu escritório,
De onde bafora uma encanecida vitrola,
Passam uns Jazz’zhs de boa praça...
O café, a coke e-o chá são
Por demais bem-quistos!

Cortem pela raiz os légos de montagem
E os quebra-cabeças desbaratinados:
Tu és minha maestrina do infinito
And PCdoB saudações! (palavra cafona!)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Os Traidores


O ambiente apresentava um clima de montanha em virtude da brisa gélida que o ar-condicionado cuspia. A temperatura agradável do quarto não impedia porém que o Doutor Paranhos suasse em abundância. “Doutor!” Rosnou mentalmente Sueli. “Só se for em safadeza. Todo patrão, mesmo semi-alfabetizado e a quilômetros de um diploma, vira Doutor para os subalternos explorados”, filosofava a secretária, nua, por debaixo do balofo Paranhos que a esmagava com o peso do seu corpo e da sua luxúria.

A cama do motel barato sacolejava ao ritmo dos bruscos movimentos sexuais do Doutor Paranhos que, no decorrer do ato, emitiu alguns grunhidos de prazer, revirou os olhos, trincou os dentes e desabou pesadamente sobre Sueli. A secretária esforçou-se para virá-lo de lado e, após livrar-se do peso que quase a sufocara, respirou fortemente em busca do oxigênio salvador para em seguida constatar que o Doutor Paranhos morrera. O homem não resistira. Os prazeres da cama o haviam liquidado. Sueli andou desvairada ao redor do quarto, tentando por os nervos no lugar. Contemplando o cadáver, imaginou-se acusada de assassinato, protagonista de um escândalo. Todos descobririam o seu caso com o patrão. E como encarar Dona Laurinda, esposa do Doutor Paranhos, aquela genuína lady? Procurou em sua bolsa um comprimido de calmante, ingerindo-o com uma sobra de cerveja que ficara numa latinha consumida pelo finado. A seguir, ligou para a fábrica, atrás do Almeida.

— Almeida? Sueli. Aconteceu uma tragédia!

— O que houve? Onde você está?

— Em um motel do Centro. Doutor Paranhos morreu, parece coração.

Breve pausa do outro lado da linha.

— Se acalme e me passa o endereço que eu to indo pra aí. Temos que tirá-lo deste lugar e preservar Dona Laurinda que tem o Doutor na conta de santo.

Almeida trabalhava no setor administrativo da fábrica. Adepto da filosofia do puxa-saquismo e da ciência da adulação, tornara-se em poucos anos o homem de confiança do Paranhos, conhecedor de todas as suas falcatruas nos negócios, acobertador de suas estripulias sexuais com as operárias. Chorou sinceramente alguns minutos a morte do patrão, por quem nutria um subserviente apreço e decidiu que, pela boa imagem da empresa, ele teria um fim digno, longe dos mexericos que um falecimento na cama de um motel de terceira categoria em companhia da secretária de quinta certamente provocaria.

Chegou ao motel trazendo a reboque outro funcionário, famoso por sua discrição. Sueli os recebeu chorosa, vestida. “Uma pena”, lamentou Almeida, desejoso em conhecer como seriam os peitinhos da Sueli que no ambiente da fábrica não passavam de um mero relevo, insinuante, escondido por debaixo das blusas. Doutor Paranhos curiosamente também se encontrava vestido, estendido na cama.

— Sempre ouvi falar que o morto quando esfria fica duro feito pedra, parecendo um bonequinho de chumbo e que é o maior sufoco botar uma roupa no sujeito. Então, eu vesti o Doutor para evitar que ele passasse a vergonha de sair nu no rabecão – Desculpou-se a constrangida secretária.

Almeida foi a beirada da cama e encarou o defunto. O Doutor aparentava sorrir. “Pela cara de sacana percebe-se que o senhor aproveitou muito bem os seus últimos momentos de vida” – pensou.

Os dois homens, ajudados por Sueli, pegaram Paranhos pelos braços e o carregaram até o carro. Aos funcionários do motel, explicaram que o empresário estava vivo, mas passando muito mal e que o levariam para uma emergência, o que fizeram de fato. Doutor Paranhos deu entrada no hospital morto. Falecera no caminho de volta para o trabalho, após passar mal em um restaurante onde almoçava com os três empregados. Esta foi a versão oficial dada à viúva e ao pessoal da empresa.

Velório de primeira, caixão luxuoso rodeado por incontáveis coroas de flores, capela apinhada de gente para dar o último adeus ao agora saudoso Paranhos. O esquife seria carregado até o jazigo da família por membros da Irmandade da Ordem Terceira do Carmo, da qual o defunto fora colaborador. Dona Laurinda, trajando preto, carpia seu querido esposo. Muitos elogiaram as vestes da viúva, pois o luto fechado não era comum nos dias de hoje. Postado ao lado da enviuvada, Almeida recebia os cumprimentos pelo bom gosto na organização do fúnebre evento.

Três jovens mulheres aproximaram-se do caixão e iniciaram em conjunto um pranto descontrolado, provocando comentários ligeiramente indignados por parte dos familiares do Paranhos. Choravam copiosamente em trinca, como que se um querido pai, estimado avô, ou um tio predileto houvessem perdido.

Dona Laurinda discretamente cutucou o Almeida.

— Qual das três é a tal de Sueli?

— A do meio, de vestido sóbrio.

— E as outras duas? Também dormiam com o safado do Paranhos?

— Sim, senhora. A de decote escandaloso e perfume barato é Dona Clotilde, do setor de compras, a com cara de Madalena arrependida é a Maria de Fátima, uma das operárias.

Dona Laurinda armou-se de um olhar de profunda repulsa, contudo, tencionando manter as aparências e ser superior as suas ex-rivais, represou o ódio.

— Sou grata por sua dedicação Almeida. A propósito, faça-me a gentileza de passar amanhã em minha residência. Precisamos conversar sobre o futuro da fábrica.

“Rei morto, Rainha posta” – comemorou o bajulador.

No dia seguinte ao enterro, Almeida foi à casa da viúva conforme o combinado. Inesperadamente, encontrou uma mulher sensualmente metida dentro de um decotado vestido florido. A princípio, tal ousadia lhe pareceu uma afronta à memória do Doutor Paranhos, mas ao prestar atenção no corpo carnudo de Laurinda, cinqüentenário porém ainda possuidor de boas formas e relembrando o quanto o falecido a traíra nestes últimos anos, Almeida relaxou nos escrúpulos.

Conversaram sobre os problemas da fábrica, abriram uma garrafa de vinho, falaram mal do morto e fizeram amor por horas a fio no chão da sala de estar. O desempenho sexual da viúva surpreendeu Almeida. Com uma mulher fogosa como aquela dentro de casa, o que o Doutor Paranhos procurava em suas amantes? Enquanto se vestiam, ainda ofegantes em razão da volúpia, Laurinda lhe ordenou:

— Amanhã, demita a tal de Sueli. Pague os direitos da vagabunda.

Transcorrida uma semana do erótico encontro, Almeida recebeu no trabalho novo telefonema de Dona Laurinda, mandando que ele fosse imediatamente a sua casa. Desligou eufórico. O que acontecera depois do enterro não fora um momento fortuito. A viúva o queria como homem. O telefonema era a prova incontestável. Quem sabe os dois se casariam e, ou invés de uma simples gerência como ambicionava, ele não se tornaria dono daquela fábrica? E Laurinda, apesar da idade, possuía ainda alguns atributos estéticos: “Uma boa meia-sola e ela agüenta mais uns dois anos”, gracejou, radiante pela sorte que havia pousado em sua vida.

Mal tocou a campainha, foi recebido pela dona da fábrica trajando apenas um conjunto de calcinha e sutiã negros, como convinha a uma enlutada. A viúva, sedenta, praticamente o violentou no chão da sala. Ao final da cópula, Laurinda mandou:

— Amanhã, demita a tal da Clotilde. E pague os direitos da vagabunda.

Intervalo de mais uma semana e Almeida foi novamente requisitado a casa da viúva. Neste dia, nem roupas ela se deu ao trabalho de vestir. Recebeu o amante nua, em sua sala de estar. Fizeram amor com selvageria e depois do gozo o próprio Almeida se adiantou:

— Despeço a Maria de Fátima?

— Sim, e pague os direitos daquela vagabunda com cara de Madalena arrependida.

O novo chamamento de Dona Laurinda desta vez não demorou mais do que dois dias. Almeida chegou a casa da amante cantarolando, com a cabeça recheada de idéias e planos gerenciais. Tencionava mudar tudo na fábrica, fazer as coisas funcionarem a sua maneira. Ia dobrar o capital daquela empresa. Mas antes, convenceria a viúva da necessidade de fazerem um cruzeiro pelo Mar do Caribe, a título de lua-de-mel, pois ele precisaria de um descanso antes de assumir os negócios.

Laurinda o recepcionou friamente. Vestia luto fechado. Estranhando o fato, Almeida, respeitoso, sentou-se no sofá cruzando a perna esquerda de modo que não exibisse a sola do sapato. A viúva acomodou-se de maneira elegante em uma poltrona a sua frente e falou:

— Senhor Almeida. Em respeito aos longos anos de dedicação a minha empresa, eu o chamei aqui para evitar o constrangimento de despedi-lo na frente de todo o pessoal da fábrica. Assim, sugiro que o senhor peça demissão, sem direitos, e evite cenas desagradáveis.

Impactado pela notícia, Almeida somente conseguiu, em meio a balbucios, perguntar o porquê de estar indo para o olho da rua. Laurinda, vitoriosa, cortante feito uma navalha, esclareceu serenamente:

— É impossível manter em nossos quadros alguém que, conhecendo os segredos do seu patrão, o trai revelando suas torpezas sem que a criatura ainda nem tenha baixado a sepultura. Depois, trai as próprias colegas de trabalho, dedurando-as. E ainda trai pela segunda vez o seu patrão, dormindo com a sua viúva na vil intenção de obter vantagens em sua carreira. A traição impregna o seu caráter, senhor Almeida. Como confiar no senhor? Mais tarde serei eu a traída. Passe muito bem!

No dia seguinte, os funcionários da fábrica foram surpreendidos pela carta de demissão do Almeida. Mais admirados ficaram ao descobrirem que o ele renunciara aos seus direitos trabalhistas.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Quase uma mulher

Ela chegou com os cabelos presos e o olhar solto, e eu soube que era uma menina que poderia vir a ser mulher e amar sê-lo, e isso é tão raro e tão difícil, são tantas as meninas que nunca chegam a ser mulheres, tantas as que são e queriam ser meninas para sempre; são tantos os homens que querem mulheres para sempre meninas.


Para exercer essa delicada missão de enmulherecer com o tempo, e cada vez mais, há que ter o algo que nela se via e com que ela via o mundo: e há que ter também o riso em que a nota musical oculta não seja nenhuma das oitenta e oito do piano, mas algum som sempre intermediário, único, pessoal. E que esse som ao atingir o ouvido toque alguma corda não prevista no projeto do ser humano básico (aquele que sai de fábrica semipronto, só falta inflar).


Por assim preparar-se para a vida, ela seria das que muito amam, das que procriam, das que criam caminhos mesmo sem saber aonde chegar – e não é isso o que importa; não o final, mas a indagação; não a resposta, mas a vertigem da curiosidade que assim que satisfeita se estilhaça e de cada estilhaço atira novos dêndrios, novas ramificações, e na ponta de algumas delas – olha! – tem uma folhinha apontando, só o começo, verde-claro e brilhante, e talvez haja flores e frutos, mas esse nunca foi o objetivo. O objetivo era só procurar; encontrar terá sido mera conseqüência.


E por isso quando ela se sentou diante de nós sorrimos de volta, todos sorrimos, e era muito prazer, menina, muito prazer em conhecer você, porque algum dia diremos muito prazer, mulher, sabendo que você é das que nunca são conhecidas completamente por ninguém, porque você também nunca se conhecerá por completo, nunca estará completamente pronta, terminada, e é aí que reside a magia.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O Massacre do Ferro Elétrico ou A Fábula da Consolação



Cena I: O Grito
"AAAAAAAaaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!!! Desgraçada!!!! Filha da puuuuutaaaaa!!!"

Cena II: Os Cadáveres
Elas não tiveram a menor chance, nenhuma escapou. Todas queimadas, todas perdidas, todas irrecuperáveis. Todas. Algumas tinham manchas; outras, buracos. Sempre o mesmo desenho, nas costas ou na frente, nas costas e na frente. Retorcidas de um jeito macabro, pareciam rostos em agonia. Rodolfo não queria acreditar no que seus olhos viam. Gritava, xingava, chorava. Suas adoradas camisas de seda haviam virado trapos.

Cena III: A Motivação
O amontoado de camisas ocultava o elemento fundamental ao entendimento da atitude tresloucada da criminosa: a bela e vermelha mancha de batom em forma de boca no colarinho da camisa branca.

Cena IV: O Desequilíbrio
"Isso não é justo. Deixo-a à vontade para sair com quem quiser, dar para quem quiser. E eu? Não posso sequer dar uns amassos na secretária? Sacanagem isso. Sacanagem da grossa."

Cena V: O Desejo
Vingança. Retaliação. "Vendetta". Tais palavras alternavam-se no cérebro de Rodolfo. Tinha de dar o troco à altura, degustar o tal prato frio. Destruir aquilo que ela mais prezava. Mas o quê? Refletiu, pensou, pensou, refletiu... Súbito, os olhos brilharam, a boca esboçou um sorriso malévolo. "Já sei." - falou, entredentes, antes de dirigir-se ao quarto de ferramentas.

Cena VI: O Morticínio
Eles bem que tentaram escapar. Pularam para cá, pularam para lá. Um grandão quis esconder-se no ânus de Beethoven, que ganiu, mordeu e destroçou com os dentes. Talvez alguns até conseguissem fugir se acaso não fossem desprovidos de pernas. Ademais, Rodolfo estava furioso, os olhos injetados, a cara vermelha, não teria compaixão. E não teve. Martelo em punho, perseguiu e capturou um a um, depositando-os na gaiola do canário belga, o qual, espertamente, preferiu não ficar para ver o desfecho: aproveitando-se da confusão, tratou de bater as asas e voar para bem longe. Após encarcerar o último fugitivo, teve início a sessão de tortura e morte. Rodolfo prendeu o primeiro na morsa, ergueu o martelo e... cravou-lhe o prego no alto da cabeça, de onde escorreu um filete de látex branco, formando uma pequena poça leitosa numa das mandíbulas da morsa. Depois veio outro prego. E mais outro. Da gaiola, os outros apenas observavam, apavorados, o companheiro transformar-se em um autêntico Pinhead, aquele sinistro personagem do filme Hellraiser. Alguns choravam, outros gritavam, outros mais rezavam, à espera de um milagre que não aconteceu. Tiveram todos o mesmo destino do primeiro.

Cena VII: O Conflito
- AAAAAAAaaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!!! Desgraçado!!!! Filho da puuuuutaaaaa!!! - gritou Sabrina ao deparar-se, estupefacta, com a pilha macabra cuidadosamente montada ao lado da grande cama de mogno.
- Olho por olho, dente por dente, querida. Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Destruiu minhas camisas de seda importadas, acabei com sua coleção de consolos.
- Seu corno! Traidor! Você mereceu!
- Mereci o cacete! Só porque dei uns pegas na secretária? Porra, você já deu pra um monte de caras!
- Mas o que foi que combinamos? Eu podia transar com quem eu quisesse, você não!
- Tá. Mas não precisava estragar minhas camisas. Você sabia o quanto eu gostava delas.
- E você sabia que eu sou ciumenta... Porra... Precisava sacrificar até os vibradores?...

Cena VIII: A Reconciliação
- Amor... Você me perdoa? - indaga Rodolfo, olhos mareados.
- Claro... E você, também me perdoa? - soluça Sabrina.
- Claro que sim. Eu te amo.
- Também te amo.
Lágrimas. Abraços. Beijos. Sexo.

Cena IX: A Felicidade
Manhã do dia seguinte. Shopping e Sex Shopping. Rodolfo comprou logo duas dúzias de novas e reluzentes camisas de seda, importadas e de diversas cores, enquanto Sabrina, radiante, pagava com cartão suas novas aquisições: trinta consolos de cores e tamanhos diferentes, duros, vibrantes e até mesmo alguns falantes. A vida do casal normal voltou ao normal no mundo normal das pessoas normais.

Carlos Cruz - 12/04/2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Torpedos desclassificados

No sábado recebi um torpedo no meu celular:
“mae vo viajar com uma miga dumingo volto”

Li duas vezes. E, apesar de não ser espelho, refleti que não sou mãe, que meus filhos estão reunidos comigo e que eles não cometeriam tantos crimes ao vernáculo em apenas uma linha. Conclui que aquela mensagem não era para mim. Era um engano.
Deixei por isso mesmo.
Hoje, segunda-feira, recebo outro torpedo telefônico:

“Vo almoca com uma amigas”

Pela linguagem capenga, julgo que seja a mesma pessoa.
Ameaço ignorar, entretanto a ironia coçou e se fez presente.

“Você já almoçou. Comeu um U, uma cedilha e um S.”
Enviei e, para surpresa minha, veio a resposta:

“Nao fui ainda”


Calei-me. Eu seria desagradável se respondesse que almoçou sim, e, de sobremesa comeu o til.

domingo, 4 de maio de 2008

Dos modernos amores e breves quereres

Eis o resultado da equação: dois.

Somatória
de um mais um
conjunto, portanto

Se querendo
por tudo
e tanto quanto
podiam se querer

Era a vontade do duo
a vontade de ter
outro alguém a quem se devotar
outro alguém para amar
outro alguém para dizer:
"eu te amo"
idem, também

Ela, rainha da palavra
ele, escravo do escrever
juntos
no entanto
chama ígnea
do fogo sacrossanto
insensato
como acalentar uma quimera
pela eternidade finda
de toda uma era
repleta de declarações
de difusos quereres
de amores e juras
da junção dos seres;

Hoje, anda ela com tenores
e outras gentes
ele, queda caído
nos bares adjacentes...

sábado, 3 de maio de 2008

Breve Romance - Juliano Guerra

Rebeca arranha meus ossos com a chave de fenda, a não ser, é claro, que eu peça para que ela pare, mas eu não peço, então ela começa estourando o pus de uma acne e termina arranhando os ossos. Especialmente as pontas, ela é uma mulher de extremos, leitora de Maiakovski, oriunda de colégio católico e puta nos fins de semana.

Eu sofro de atavismo moral, os pés resvalando sob a forca – muita saliva para pouco chiclete. Rebeca abre trilhos nas minhas costas, me queima de cigarro, paga as minhas contas. Eventualmente levo flores para sua mãe ou brinco com a caçula da família, com o cu na mão e o seguro desemprego no bolso. Rebeca me fode legal.

Nos fins de semana alugamos uma casinha na praia, em tecnicolor. Ela calça as chinelas e eu leio Clarice na varanda, levemente alcoolizado. Quando perde a graça compramos novos objetos perfurantes para nossos órgãos sexuais – eu mando a literatura se foder. Faço uma greve de metáforas e falo, cabuloso, exatamente o que queria falar, de preferência em tons pastéis.

Comentamos os surrealistas, confundimos nossos óculos de aro preto – perdemos o tesão, até. Mas no final tudo acaba bem: eu faço uma zorra da sacada do edifício, ela me vende como escravo branco para a máfia bosnio-herzegovina. Pegamos um filminho iraniano.

Vocês que já bateram punheta para um filme do Andy Warhol e não gozaram, hão de convir comigo: a pós-modernidade pode ser mesmo uma bosta.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

cansei de declarar-me

cansei de declarar-me
uma romântica incurável
tudo tem remédio
com exceção
dos tédios
e a icterícia hepática
etílica
contraída pelas dores
de dissoluções amorosas

afoguei meus homens
e pude vê-los verdes
em garrafas de sinto
abdiquei-me deles

não uso dos placebos
cafés fortes
banhos gelados
quero acabar
nos vômitos alheios
nos meus parcos seios

não há cura para
egoísmos cínicos.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Crise de Vireida (versão alterada)

O sábado seria cheio. Logo cedo o Juliano Lupus ao telefone.
- Cheguei. – Anunciou.
Acordei, pensei.
- Vou esperar na feira da torre de tv o horário da reunião.
Iríamos conversar com o Igor Arrelia da editora Derrotaurus sobre a possibilidade de publicar o Bar do Escritor, nosso zine de literatura.
A patroa fez bico:”queria esta atenção que você dá ao bar”. Pitamos unzinho para começar bem o dia. O café da manhã sempre é mais gostoso depois de um baseado. Liguei para a Vanessa.
- O Lupus já chegou.
- Que horas será a reunião? – Ela perguntou.
- Dez e meia.
- Estarei na sua casa às nove.
- Tá doida? A editora é aqui perto. Chegue dez e quinze.
Fiquei ruminando sobre o jornal até o porteiro interfonar, a Vanessa estava lá embaixo. Já são dez e quinze? Me aprumei no tempo dela chegar ao apê. Passei a lambidela final no baseado e apresentei minha mulher.
- Hoje não vou fumar. – Desculpou-se Vanessa. “A desculpa dos caretas”, sorri.
Com toda a fumaça na cabeça dirigi a camionete até o SIA ao invés do SIG, a sede da editora. As siglas de Brasília confundem-me ainda mais quando estou alto. Ou talvez a palestra que eu dava para Vanessa sobre como iríamos dominar o mundo através do BDE tivesse diminuído minha atenção. Demos umas voltas meio perdidos no Setor de Indústrias Gráficas até chegar à frente da editora exatamente às onze horas. O Igor saia com o escritor HP Maker, seu funcionário.
- A gente só vai ali rapidinho. – Falou Henry Paul.
- Ok. Ainda esperamos nosso representante de Goiânia. – Impostei a voz para ter um ar de importância.
Apareceu um carro e dele saiu um cabeludo. O sotaque o revelou, era o Lupus. Cumprimentamos-nos e ele esticou uma garrafa de bolso.
- É a Coqueirinho, a cachaça de Paraty. – Ele havia estado na feira de literatura com outros escritores do bar. Dei uma beiçada e me surpreendi com o delicioso gosto. A bebida é conhecida por sua coloração azulada pelo excesso de zinco na água. Mandei outra para dentro, queria melhorar minha articulação para a conversa com o editor.
Esperamos uma hora. Conversamos sobre nossas vidas e literatura. Embora mantivéssemos contato há mais de ano, era a primeira vez que nos víamos.
A reunião começou e tratei de ligar a matraca com as idéias já bem desenvolvidas. O Igor levantou a mão e falou com seu sotaque “la garatia soy yo”, Avisou que não acreditava na interNerd como meio de propagação da literatura.
- Mas... – Fui cortado pelo editor que destilou seus projetos e suas visões. A prosa não estava favorável para nós.
Igor folheou o livro de poesias de Vanessa para mostrar que na interNerd não existe arte pois não há contato com o texto. Ele quer contato? Basta abraçar o monitor! Recitou o poema em voz alta.
- Hay poesia aqui. – Afirmou.
Vanessa inflou e seu sorriso atingiu as orelhas. Quase interferi para ironizar sua percepção em notar uma poesia num livro de poesias.
O Lupus só o observava. Ex-investigador de sinistros de uma corretora de seguros, certamente percebia a falta de abertura para propostas inovadoras do velho “publisher” à nossa frente.
Muito blablablá e marcamos outra reunião, a maneira mais inteligente de nos dispensar.
Confabulamos no estacionamento: Vanessa adorou a reunião, já via a possibilidade de ser editada pela Derrotaurus; Lupus não se impressionou e eu achei uma merda, queria que Igor tivesse se empolgado com a idéia. Despedimo-nos. Vanessa, feliz, foi embora com o marido. Lupus foi almoçar a namorada. Ou com ela, não sei. HP apareceu antes d´eu cair fora.
- Hei, vamos detonar um bagulho ali na sacada?
Opa, ao menos a viagem não seria de todo perdida. Compramos umas cervejinhas e fomos para o terraço da editora. A maconha era de qualidade. Meu cérebro entortou, quase afetando o alinhamento dos neurônios. Conversamos sobre as idéias da editora, um trabalho difícil e quase sem retorno financeiro. Uma batalha quixotesca em defesa da leitura.
Voltei para casa a tempo de fumar o baseado que minha mulher aprontava. Eu estava com larica mas deixei para aproveitar os petiscos no chá de panela que iríamos a seguir. Um primo se casaria. Eu queria dissuadi-lo, contudo, todo homem deve aprender por si as armadilhas da vida.
Bebi tudo que pude na festa. Também me empanturrei de salgadinhos, salames, queijos e tomate seco. As brincadeiras com os noivos era meio entediante, tive que me distrair contando mentiras às pessoas de nossa mesa. Aconteceu um mini-concurso de textos para ver quem conhecia melhor os noivos. “Tá pra mim”. Rabisquei umas linhas me sentido superior por ter conversado com um editor naquela manhã. O vencedor foi meu pai contando uma história engraçada sobre mamadeiras. Em segundo ficou minha irmã com elucubrações sobre cavaleiros e princesas.
Por volta das nove horas acabei chamando os malucos para terminar a bebedeira na minha casa. Já estávamos sendo expulsos.
- Isso é um chá de panela ou chá de bebê? – Entortava a língua meu pai, brincando com o trocadilho entre bebê e beber. Minha mãe o arrastava para o carro.
Os convidados passaram num mercado para abastecer a geladeira de cervejinhas. Pedi uma garrafa de Seleta à minha irmã pois não queria gastar as preciosidades da minha coleção. Liguei para o Lupus e o Hantz. Queria apresentá-los.
Quando todos chegaram o baseado já estava pronto. Reiniciamos os trabalhos. O marido de uma prima capotou na varanda.
- Tá na hora do leite condensado. – Ela buscou a lata e derramou goela abaixo no sujeito. Em minutos ele estava novamente sentado com uma latinha nas mãos. Conversou e brincou durante mais um tempo, porém capotou de novo. Busquei uma manta e o cubri no chão. A cachaça já ia pela metade e as cervejinhas estavam apenas começando.
Engatei uma conversa sobre textos com Lupus e Hantz. Falamos sobre muitas coisas legais e importantes que foram esquecidas logo em seguida. As latinhas se sucediam. Eu temperava a cerveja com goladas de cachaça. Busquei livros, opinamos sobre textos, fofocamos sobre o Bar do Escritor.
- Vou mandar uma mensagem para a mascaruda. – Liguei o computador e deixei um recado no perfil do orkut da Maria Má. A madrugada já ia longe e ela ainda conectada. Respondeu algo que não percebi pois as linhas da tela balançavam no mesmo ritmo da minha pulsação irregular. A bebida me afetava, era hora de outro baseado para contrabalancear as coisas.
Fumamos e bebemos. Algumas pessoas tomaram rumo de casa. Bom de papo, Lupus contava histórias e piadas. Quando o Hantz percebeu que não iria comer ninguém resolveu ir embora. Ficamos apenas eu e Lupus, minha mulher já estava desmaiada há tempos.
Entornamos mais algumas. Meus olhos começaram a pesar. Pisquei. As pálpebras não me atenderam e mantiveram os olhos fechados, tive que puxá-las para cima. Lembrei dos desenhos em que os personagens colavam tiras de durex na sobrancelha para não dormir.
Acho que chamei o Lupus de Hantz algumas vezes. E talvez tenha pescado com a cabeça. Lembro apenas de confundir o cabeludo na minha frente comigo mesmo quando era mais novo. Lembro que vimos as horas antes dele cair fora, passava das quatro.
Dei por mim novamente abraçado à privada. Eram umas oito da manhã. As contrações do estômago tentavam expulsar os resquícios de álcool. Fiquei um tempo ajoelhado fazendo a oração dos ressaqueados. Bebi o chá de boldo que a patroa sempre faz nessas horas e comi um pedaço de pão. Tinha que botar algo na barriga para poder vomitar.
Lá pelas dez consegui me sentar na privada para soltar um cagalhão. Lembrei do Bukowski, ele é que chamava assim. O cheiro de merda que empestou o banheiro me enjoou. Ajoelhei-me novamente para vomitar. A visão daquela bosta preta me inspirou e quase expulsei o fígado.
Era o dia dos pais. Cheguei à casa dos meus velhos no momento que estavam servindo o almoço. Minha irmã parecia também estar com ressaca.
- Nossa. – Exclamou minha mãe. – Encheu a cara ontem, não foi?
- Poisé. – Concordei. – Tive uma crise de vireida.
Todos se entreolharam. Vireida?
- Sim. – Fiz a devida pausa. – Vireidavesso.